Trump, tiros, garimpo. As marcas de Bolsonaro que Lula já apagou

Novo presidente revê posição do Brasil na política externa, na economia, no ambiente, na saúde e na cultura face ao antecessor. Mas repete-o na má escolha de ministros e no apego pelo cargo.
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A foto da última segunda-feira, dia 27 de fevereiro, do presidente da República Lula da Silva, de manga da camisa arregaçada, e do vice-presidente Geraldo Alckmin, de agulha na mão, capta a mudança radical que o Brasil vive desde que em outubro trocou Jair Bolsonaro, do PL, pelo atual chefe de Estado, do PT. Lula, septuagenário, era, debaixo de flashes e perante microfones, vacinado com a recém adquirida quinta dose da vacina contra a covid-19, pelo seu número dois, médico de formação.

Depois de quatro anos de desvalorização da gravidade da doença que matou 700 mil brasileiros, da desmoralização dos resultados dos imunizantes e do atraso na sua aquisição sob Bolsonaro, o Brasil de Lula, numa imagem, quis mostrar a inversão de rumo. Entretanto, nem só na Saúde se nota a mudança radical de um governo para o outro, mais radical, por exemplo, do que a transição do último presidente da ditadura militar, João Figueiredo, para o primeiro chefe de Estado em democracia, José Sarney, em 1985. Mas, de um governo para o outro, também se notam semelhanças na forma de vícios repetidos.

Comecemos pelas muitas diferenças. Na Economia, os mantras de Paulo Guedes, czar de Bolsonaro na área, eram a privatização, as reformas liberais e o encolhimento do governo. Com Lula, que dividiu a Economia em Finanças e Planeamento, a ordem é "colocar o pobre no orçamento e o rico no imposto de renda". O novo governo valoriza as empresas estatais e vê o poder público como principal indutor do desenvolvimento. Em relação à diminuição do tamanho do executivo, os números falam por si: Bolsonaro acabou com 23 ministros, Lula começou com 37.

Na Política Externa, só num mês Lula já se reuniu com metade do número de chefes de Estado com que Bolsonaro se encontrou em quatro anos. E depois de se encontrar com os líderes dos vizinhos Argentina e Uruguai e o presidente norte-americano Joe Biden, vai este mês à China e no próximo a Portugal e a três países africanos. Depois à Ucrânia, a convite de Volodymyr Zelensky após conversa na quinta-feira, dia 2, entre ambos. Bolsonaro e Ernesto Araújo, o seu ministro das Relações Exteriores original, somaram atritos com China, Noruega, França e países árabes e mantiveram relação de quase idolatria com Donald Trump, antecessor de Biden, "um enviado de Deus", de acordo com Araújo, que mereceu de Bolsonaro um "I love you" público.

Um dos pilares da Política Externa de Lula é o Ambiente, cujo ministério é hoje liderado por Marina Silva, ecologista de fama internacional, substituindo no cargo Ricardo Salles, o bolsonarista que chegou a ser eleito por uma revista especializada o "pior ministro" do mundo, e defendia a ação de madeireiros e garimpeiros. O garimpo ilegal, a propósito, tornou-se um dos alvos do governo Lula após a revelação da sua participação na tragédia humanitária envolvendo os índios ianomami, na Amazónia, contemplados por Lula com o recém-criado Ministério dos Povos Indígenas. Ao lado de Marina, o assessor especial norte-americano para o clima, John Kerry, garantiu compromisso de Biden com o Fundo Amazónia, organismo que gere recursos doados à floresta.

Na Educação, a agenda conservadora do "homeschooling", da "escola sem partido" e do "ensino militar" já perdeu espaço para uma política progressista com ênfase na alfabetização e no regresso do investimento na universidade e na investigação. Na Cultura, além do regresso do estatuto de ministério, Lula interrompeu a política de demonização das leis de incentivo à criação artística e demitiu da Fundação Palmares, órgão de apoio à cultura negra, o crítico do movimento negro Sérgio Camargo.

Dos Direitos Humanos, saiu a fundamentalista religiosa Damares Alves e entrou o filósofo Sílvio de Almeida. Em quase dois meses, Lula ainda não recebeu nenhum pastor ou reverendo no Planalto. Fora os muitos outros, os religiosos envolvidos num escândalo de corrupção no Ministério da Educação estiveram no local 28 vezes com Bolsonaro, segundo dados divulgados pela Lei de Acesso à Informação.

A relação de Lula com a Defesa, por sua vez, começou sob tensão máxima, por suposta cumplicidade dos comandos militares nos ataques aos Três Poderes de 8 de janeiro, em Brasília. O novo presidente nomeou para a pasta um civil - o que jamais acontecera durante o governo anterior - e trocou a chefia das forças armadas.

Na Justiça, além da condenação veemente daqueles ataques, é significativa a reabertura do processo envolvendo a execução da vereadora Marielle Franco. E o combate à flexibilização das armas, projeto icónico de Bolsonaro nos quatro anos anteriores. "As pessoas não ficarão com armas ilegais no Brasil, acabou o "liberou geral" de armas", garantiu o ministro Flávio Dino.

Na relação com os demais poderes, a diferença entre Bolsonaro, que elegeu o Supremo Tribunal Federal como principal inimigo a meio do mandato, e Lula, que fez questão de visitar a sua sede, depredada, após os ataques de 8 de janeiro e disse já ter perdoado os juízes que votaram pela sua prisão, é total.

Mas na relação com o Congresso, não mudou muito: se Bolsonaro patrocinou o orçamento secreto, ou "bolsolão", esquema que transferiu para a alçada dos parlamentares milhões de reais em troca de apoio parlamentar ao governo, uma espécie de sequela do "Mensalão do PT", Lula inchou o seu governo com 37 ministros precisamente para poder contar com o apoio legislativo dos partidos de centro-direita contemplados; e se com Bolsonaro os escândalos de mau uso de dinheiro público foram uma constante, com Lula já há notícia de um ministro, Juscelino Filho (União Brasil), que usou verbas estatais para asfaltar as estradas da sua fazenda e para viajar de avião rumo a um leilão de cavalos. Por outro lado, opiniões do presidente sobre economia, como algumas do seu antecessor, vêm deixando o mercado "nervoso".

E além desses vícios, outro a que nenhum político no Brasil escapa é o do apego ao poder. Bolsonaro prometeu, em 2018, só fazer um mandato mas acabou, não só por se recandidatar, como a teimar não reconhecer a derrota. Lula precisou de apenas um mês no cargo para desdizer o que garantira em campanha por mais de uma ocasião: não disputar a reeleição. "Se eu chegar a 2026 com a situação do país delicada e eu ainda tiver saúde..."

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