Não vês meu filho, aquele furioso que corta com os dentes o nariz do adversário aterrado e aquele outro que esmaga a cabeça de uma mulher com uma enorme pedra? - Vejo-os (...) criam o direito; fundam a propriedade; estabelecem os princípios da civilização, as bases da sociedade e os alicerces do Estado." Lê-se, relê-se o discurso proferido por Donald Trump na Assembleia Geral da ONU e ocorre-nos o diálogo entre duas personagens de um conhecido romance de Anatole France. Não adianta praguejar, como faz uma comentadora de assuntos internacionais, que "Trump põe em causa a ordem internacional liberal". Não, o que Trump faz é evidenciar o que o capitalismo, na sua fase imperialista, é de facto..Subestimar o papel do indivíduo é como a história prova um erro. Mas a história já se encarregou, também, de provar que esse protagonismo, no processo social e político nas sociedades não é separável de factores gerais, de propósitos colectivos ou de objectivos estruturais, sejam económicos ou de outra natureza. A personagem em questão tem este condão de trazer cá para fora, à bruta e a preto e branco, o que antecessores seus na Casa Branca desenhavam em palete colorida..Na primeira ocasião que pôs o pé na Assembleia Geral das Nações Unidas, a criatura empolgou-se. Tomando desejo por realidade, terá olhado para a plateia e visionado uma plêiade de súbditos. A falta de trambelho amplificou em termos menos polidos o que na verdade, diga-se, sucessivas personagens dos EUA na ONU ali repetem: na atitude e estilo, a habitual arrogância; nos objectivos, a mesma ambição de policiar o mundo; nos conteúdos, a usual afirmação da supremacia norte-americana ungida para se assumir como paradigma do bem, apresentando os interesses dos EUA como se interesse de todos se tratasse. Quem não se conformar com a sujeição sabe o que o tem à espera: a ameaça de arrasar com quem se lhe oponha; rasgar ou desvincular-se de acordos internacionais; manter por assinar tratados de paz como o que há mais de meio século espera pelos EUA para coroar o armistício alcançado na Península da Coreia..Nada de especialmente novo, portanto. Tão-só a reafirmação de que nele(s) reside o poder de decidir à escala planetária da noção do bem e do mal, o conceito de civilização e os parâmetros da democracia. É em nome desses seus "valores" que do Iraque à Líbia, da Jugoslávia à Síria, da Somália ao Afeganistão, ou agora do Irão à Coreia do Norte, não esquecendo a Venezuela, se contam o rol de países inscritos na agenda justiceira do EUA. Em concreto, o que Trump ali expôs foram anos de política externa corporizada na verbalização do que os EUA identificaram (e não foi Trump) como países do Eixo do Mal. A expansão da NATO a Leste para cima das fronteiras da Rússia, a presença crescente do poderio balístico dos EUA nas imediações da China não são legado de Trump..O mais inquietante, varrido para baixo do tapete pelos centros de informação, é que Trump não está sozinho. Não vale a pena enunciar que o homem é imprevisível e fingir que não se vê que tem a NATO e a União Europeia, sem prejuízo das contradições interimperialistas, como braços armados da sua estratégia de dominação. Não basta dizer que o discurso de Trump, como se viu por aí escrito, é a completa negação de tudo o que as Nações Unidas representam. Primeiro porque as Nações Unidas não representam de facto o que deviam representar, refém que tem estado dos interesses dos EUA e da sua estratégia. A política de dois pesos e duas medidas na avaliação dos acontecimentos internacionais, a começar pelas resoluções que valem para uns e são esquecidas para outros, minam a sua credibilidade. Depois, porque a seu coberto, explicita e implicitamente, se sucederam ao longo dos anos guerras de agressão, destruição de Estados soberanos, construção de protectorados dos EUA..Os que esbracejam preocupados com os desvarios de Trump, a começar pela UE, são os mesmos que aos ralhetes deste pela insuficiência de gastos militares e comparticipação para a NATO ocorrem solícitos ao chamamento patronal. Ou que, a pretexto de uma dita "independência de defesa europeia" face aos EUA, se prepare, como se viu pelo discurso de Juncker sobre o "estado da União", uma nova deriva militarista da UE como pilar europeu da NATO. Acompanhemos no futuro próximo o sentido que norteará o debate sobre a reforma das Nações Unidas ainda que, a confirmar-se que ela se iniciará a partir de um guião formatado pelos EUA, o optimismo deva ser modesto. Esperemos que a afirmação de Trump "o povo americano espera que um dia, em breve, as Nações Unidas possam ser muito mais transparentes e eficientes na sua missão" não pressagie a concretização definitiva de uma OPA sobre aquela instituição. Neste ambiente de incerteza e perigos acrescidos para a paz mundial, fixemo-nos em Portugal naquilo que a Constituição da República estabelece quanto à contribuição exigida ao país na condução da sua política externa..Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.Membro do Secretariado do Comité Central do PCP