Num dia desta semana, manhã cedo, entrei no café. O ambiente era o do costume, com aquela banda sonora monocórdica das pessoas a conversar sobre o que passava na televisão, que estava, como habitualmente, com o som cortado. Sempre senti curiosidade pelo extraordinário exercício de especulação, se não adivinhação, que é comentar notícias que não ouvem, a partir das imagens mudas, dos respetivos oráculos e dos rodapés que viajam mais rápido do que se consegue ler..Sentado na mesa do canto, estava um velho amigo. Ao contrário do costume, não falava de futebol, não sorria, não transpirava alegria. Abeirei-me. "Tudo joia?". A cara fechada deu meia resposta. A outra meia veio a seguir, verbalizada. Fora assaltado três vezes no mesmo dia. Três. Quis saber tudo. Quem sabe poderia organizar uma milícia para repor a justiça..Explicou-me que, no dia fatídico, teve de ir a Lisboa. Sabem como é, coisas que não se podem fazer a norte, é preciso ir à capital. E nada de Teams ou Skype, que a coisa era séria. Era para estar lá no início da tarde, por isso dava ainda para passar no hipermercado logo de manhã. Não tinha nada em casa..De lista em punho, lá calcorreou os corredores, arrebanhando o que precisava. Cebolas, cenouras, couve coração, laranjas, ovos, queijo, umas conservas, azeite e carne. Ia passando os olhos pelos preços nas prateleiras, pensando que a vida estava pela hora da morte. Maldita inflação. Como o tempo era curto, correu para a caixa, pagou e entrou no carro a pensar que estava tudo muito caro. Maldita inflação, repensou..Chegado a casa, guardou a mercadoria e, fiel às suas rotinas, pousou o talão das compras no monte onde os mais recentes jaziam sobre os mais antigos. Zarpou para a autoestrada, que se fazia tarde. Gostava de viajar de comboio, mas, naquele dia, a decisão não tinha espinhas. A malta da CP estava em greve e ninguém se podia fiar nos serviços mínimos. Por exemplo, o Alfa para cima ficava no Porto, não chegando ao Minho. Teve de ir de carro. Nas portagens, para lá e para cá, o mesmo pensamento. Estavam pela hora da morte. Já não se recordava bem dos valores, mas sabia que aquilo era muito dinheiro. Na volta, enquanto conduzia, fez de cabeça as contas do custo da surtida à capital - foi sempre um ás na aritmética - e concluiu que a coisa, entre gasosa e portagens, não ficou abaixo de 160 euros. Grandes ladrões..Chegado a casa, cansado, meteu a chave do correio na fechadura e lá estava a carta da TV cabo e internet. Quando, finalmente, já despojado do fato e gravata, se sentou no sofá e ligou a televisão, lembrou-se de olhar para as contas. Abriu a carta do operador de cabo e ficou horrorizado com o valor a pagar. Sempre metódico, tinha à mão uma fatura mais antiga. Comparou. Grandes ladrões. Bem fazia o primo Eugénio, que por vinte euros anuais pagos a um jeitoso acedia a milhares de canais e via os jogos de todos os campeonatos..De seguida, atirou-se ao monte de talões do supermercado. Entre o daquele dia e o de há um mês, mais ou menos o tempo em que a inflação começou a ajoelhar, o preço das suas cebolas tinha disparado uma vez e meia. E não foram só as cebolas. Grandes ladrões. Pior, o que pagou pelo queijo era mais do que o que estava anunciado na prateleira. Sim, lembrava-se. Grandes ladrões a dobrar..Silêncio. O relato tinha chegado ao fim e o café arrefecera. O meu amigo Zé, o Zé Povinho, estava deprimido. Que raio, não o podem privar da comida, do popó e de uns jogos do Ronaldo na TV. Isto não é vida..Professor catedrático