Trazer 'O Misantropo' de Molière para o Portugal de D. João V

Foi esta ideia que levou Hugo van der Ding e Martim Sousa Tavares a pegar na peça de Molière e adaptá-la para a realidade portuguesa do século XVIII. A antestreia está marcada para hoje, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra. Depois segue para o resto do país.
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O que acontece quando Hugo Van der Ding pega numa peça de Molière? "Pegámos na estrutura - estão lá os ossos, como se fosse um peru de Natal - tirámos a carne e as penas e pusemos uma espécie de frango misturado com porco e carne de vaca picada." É assim que o artista explica a ideia por detrás de O Misantropo - por Hugo van der Ding e Martim Sousa Tavares a partir Molière. Uma peça que juntou os dois amigos e que tem antestreia marcada para dia 3 de março, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra. O espetáculo, no âmbito da Odisseia Nacional do Teatro Nacional D. Maria II, irá percorrer palcos por todo o país - arquipélagos incluídos - ao longo deste ano.

Encenado por Mónica Garnel, este Misantropo traz a ação da França de Luís XIV para o Portugal de D. João V. E conta com um elenco que inclui Ana Guiomar, David Esteves, Inês Vaz, Joana Bernardo, João Vicente, José Neves, Manuel Coelho e Manuel Moreira.

A releitura de O Misantropo partiu de um convite de Pedro Penim, diretor do D. Maria II, e Hugo van der Ding e o maestro Martim Sousa Tavares (que não esteve presente no ensaio de imprensa) foram os escolhidos para reescrever a comédia de Molière, numa "tradução livre". "Nós pegámos no texto - é um texto em verso, em francês, uma combinação explosiva - e a tentação era reescrever" conta Van der Ding, em conversa com o DN. Ao mesmo tempo, Penim desafiou Mónica Garnel, que "colocou no forno e recheou" este projeto com a sua encenação.

"Vamos perceber por que é que cada uma das personagens está ali e o que é que juntou estas pessoas nesta vontade de tentar fazer a estreia de O Misantropo em Portugal", refere a encenadora, que antes de ler o texto de Hugo van der Ding e Martim Sousa Tavares já tinha várias ideias em mente, mas acabou por ser surpreendida pelo desenrolar da ação.

Também o elenco estava já na mente dos dois autores, que escreveram o texto "com os atores na cabeça", como diz Mónica Garnel. Por outro lado, a atribuição de papéis foi pensada com base na peça original de Molière: "A escolha foi um bocadinho a pensar nesses oito atores, quem é que poderia representar que papel", conta a encenadora ao DN.

O Misantropo de Molière foi representada pela primeira vez em 1666, no Palais-Royal em Paris. Ao trazer esta "estreia" para Portugal, Van der Ding e Martim Sousa Tavares colocam-na no reinado de D. João V - um início de século XVIII cuja opulência é comparável à da corte do Rei Sol. Um retrato da sociedade portuguesa da época, com os respetivos trajes e perucas, que se interliga com os mecanismos característicos do teatro de Molière.

Hugo van der Ding e Mónica Garnel procuraram manter-se fiéis ao detalhe da obra do dramaturgo francês. "É engraçado que tirámos tudo, mas as histórias, as personagens e as relações entre elas estão cá todas. Estão é a contar uma história diferente de O Misantropo." conta o autor ao DN. A encenadora reforça que "as relações que acontecem em Molière estão presentes aqui e algumas até vão mais longe".

"Um dos desafios/orgulhos era tentar perceber se conseguíamos pegar numa peça do génio do teatro que é o Molière e desmanchá-la, mas manter-lhe a estrutura e mudar-lhe só ali a localização e algumas referências culturais, e continuar a ter graça. Vejo pela Mónica, pelo resto da equipa e por mim e pelo Martim: rimo-nos sempre, isto é incrível." conclui Hugo van der Ding, notavelmente satisfeito com o projeto.

Questionados se o público iria, de facto, ouvir as famosas pancadinhas de Molière, Van der Ding prefere manter o suspense. Por outro lado, Mónica Garnel adianta que, no texto, está escrito que "é importante que não se ouçam as pancadas de Molière".

ANTESTREIA 3 de março de 2023: Centro Cultural Olga Cadaval (Sintra)

ESTREIA 11 de março de 2022: Teatro Municipal de Bragança

25 de março de 2023: Cineteatro António Lamoso (Santa Maria da Feira)

15 de abril de 2023: Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz

22 de abril de 2023: Centro de Artes de Águeda

13 de maio de 2023: Convento de São Francisco (Coimbra)

20 de maio de 2023: Teatro Municipal da Covilhã

7 de julho de 2023: Teatro Faialense (Horta)

21 de julho de 2023: Teatro Angrense (Angra do Heroísmo)

23 de setembro de 2023: Teatro Municipal Baltazar Dias (Funchal)

18 de novembro de 2023: Pax Júlia Teatro Municipal (Beja)

25 de novembro de 2023: Teatro Das Figuras (Faro)

2 de dezembro de 2023: Tempo - Teatro Municipal de Portimão

9 de dezembro de 2023: Teatro Municipal Joaquim Benite (Almada)

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