Transformar o SNS. "Somos um país envelhecido, e ainda bem"

O SNS A esperança média de vida em Portugal é superior a 80 anos, um indicador de desenvolvimento positivo. Contudo, a qualidade de vida acima dos 65 anos e o nível de carga de doença ainda são muito elevados. Trabalhar esta métrica é um desafio de curto e médio prazo.
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Portugal tinha, em 2021, cerca de 4000 pessoas com mais de 100 anos, segundo dados da Pordata, que estima que nas próximas três décadas, até 2050, este número possa ultrapassar os 10 mil. Um cenário que, na perspetiva Manuel Lopes, é muito positivo porque significa que conseguimos criar condições para as pessoas chegarem a esta idade. "Somos um país envelhecido, e ainda bem", diz o professor na Escola Superior de Enfermagem São João de Deus, na Universidade de Évora, que marcou presença no segundo podcast Transformar o SNS, cujo tema foi, precisamente, "Promoção de Saúde, percursos de vida e envelhecimento - a urgência de novas respostas". No entanto, o professor reconhece a dificuldade em combater a carga de doença que ainda é muito elevada acima dos 65 anos. A solução, aponta, passa por desenvolver um conjunto de estratégias de promoção de saúde e de prevenção de doença ao longo de todo o percurso de vida, e não apenas em fases mais avançadas. "O investimento nestas políticas tem resultados garantidos, embora não a curto-prazo", reforça.

Veja o videocast em cima ou, se preferir, ouça o podcast:

Uma opinião partilhada por Pedro Maciel Barbosa que acrescenta que estas políticas podem, e devem, funcionar sob a perspetiva da prevenção, numa lógica de rastreios ou de vacinação, mas também numa lógica de reforço dos momentos saudáveis. "Esta última passa por comportamentos positivos para esse contributo - tais como fazer exercício e manter uma alimentação equilibrada -, e que todos conhecemos", explica o fisioterapeuta na ULS Matosinhos, que participou também no podcast organizado pelo DN. "O que estamos a tentar sugerir é que a reflexão da saúde seja feita ao longo do percurso de vida das pessoas".

Porém, defendem os especialistas, a educação para a saúde é uma componente essencial para que as pessoas tenham informação, tomem melhores decisões, e possam gerir a sua saúde ao longo da vida. "E essa educação tem de ocorrer não só na escolaridade obrigatória, mas também ao nível do ensino superior", salienta, recordando o estudo recente que demonstra que o nível de literacia dos estudantes, docentes e investigadores do ensino superior, é baixo. Portanto, "percebemos que estas ferramentas de educação devem acompanhar todo o percurso das pessoas e todos os traços socioeconómicos, mantendo uma maior preocupação com aqueles que são mais pobres ou têm menor literacia, porque a evidência científica é cabal, e o risco de terem doenças físicas e mentais é muito maior nestes estratos sociais".

Sobre a promoção de competências, Manuel Lopes reforça a importância de fazê-lo em qualquer fase da vida. "Se for para aplicar em pessoas mais idosas, até podemos conjugar a promoção da literacia com outro tipo de estratégias que também contribuem, por exemplo, para aumentar o convívio entre gerações e combater a solidão", sugere.

Estes desafios exigem muita reorganização e gestão, o que significa que há muito trabalho a fazer. Por exemplo, diz Manuel Lopes, "se formos analisar o Plano Nacional de Saúde, talvez o mais importante instrumento de planeamento estratégico em saúde em Portugal, não encontramos referência à multimorbilidade e à abordagem da multimorbilidade e dependência, que é uma realidade absolutamente avassaladora". Estas questões, defende, têm de ser colocadas em cima da mesa e discutidas, porque requerem o contributo de todos. Uma das estratégias que este grupo de trabalho propõe, acrescenta Pedro Maciel Barbosa, é uma reflexão sobre os cuidados de proximidade ou os cuidados domiciliários. "É algo que o SNS tem transformado, encontrou soluções, mas infelizmente, estão fragmentadas e este é o momento certo para voltar a repensá-las".

Para conhecer melhor estas propostas não deixe de ouvir o podcast, disponível a partir de hoje no site do DN.

dnot@dn.pt

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