No dia em que a Iniciativa Liberal inaugurou a sua representação parlamentar com o único deputado eleito, João Cotrim de Figueiredo, escrevi que até o Rato Mickey seria eleito naquela lista. Não era nenhuma desconsideração para com o líder do partido, mas sim o reconhecimento de uma poderosa máquina de comunicação - nas redes sociais e publicidade exterior -, talentosamente construída pelo Carlos Guimarães Pinto, Rodrigo Saraiva (curiosamente ambos não tomaram posição na contenda e o primeiro nem marcou presença em Alcântara) e Manuel Soares Oliveira que deu um balanço fulcral para a afirmação da IL. A primeira boa notícia é que essa máquina, ainda mais robusta, se tornou estrutural e continuará nas mãos da nova direção executiva..Mas depois dessa primeira fase, veio o crescimento. Dos 600 membros de 2019 para os 6 mil da atualidade e, acima de tudo, o salto quântico para um grupo parlamentar de 8 deputados. E aqui, por muito que custe a muita gente internamente (e até de maneira incompreensível, diga-se), o mérito desse gigante passo deve-se em enorme medida a João Cotrim de Figueiredo, que conseguiu tecer uma profunda osmose entre a sua persona e a marca IL..Porque uma coisa são as bases da IL, outra, a maneira como o país olha para o partido. Porque há sempre uma diferença abissal entre o que os políticos acham e o que as pessoas sentem. E os portugueses, gostando ou não, votando ou não, respeitavam João Cotrim de Figueiredo..Também, sejamos claros, que o Chega e a IL cresceram à sombra de um PSD fraco e anémico. Agora, o desafio para ambos é manter a sua força sustentadamente, só que enquanto o primeiro tem uma liderança estável e com notoriedade (a qual a sondagem DN/Aximage de ontem evidencia que para os portugueses lidera a oposição), a IL parte para novo jogo com a obrigação do novo líder conquistar visibilidade mediática, obter reconhecimento público, mostrar ao que vem e como será o novo caminho dos liberais demarcando-se do timoneiro cessante..Nestes tempos de Convenção, percecionou-se um conclave muito tenso, agressivo por vezes, e com poucos sinais agregadores para o dia seguinte. Cabe assim recuperar a confiança interna e eliminar suspeitas inócuas que levaram o próprio processo eleitoral a ser auditado por uma consultora externa (e com um ridículo atraso de sete horas). "Arrumar a casa antes de arrumar o país", referia Carla Castro e será a tarefa do opositor que a derrotou..Tivemos dois dias no divã da IL, onde se falou mais das suas dores de crescimento do que do estado da arte e do Governo PS. Todavia, é para mim nítido que o partido passará por um título do genial Vitorino Nemésio: Mau tempo no canal. Porque será difícil a sua afirmação se o PSD mudar de vida e se tornar alternativa credível - seja com Montenegro ou outro líder. E também porque João Cotrim de Figueiredo estava graniticamente incrustado em segmentos de eleitorado fundamentais: elites, quadros superiores e urbanos e muito forte entre os jovens. O seu maior erro foi ter declarado apoio a um candidato e isso beliscou a sua aura no momento da saída. Porque um liberal não herda, emerge, logo, não devia ter tentado ungir um herdeiro..A IL permanece com a força das suas ideias, que são radicais para o sistema e podem implodir o statu quo, falta é saber se Rui Rocha tem engenho e arte para apagar a sombra de João Cotrim de Figueiredo e conseguir impor um estilo com novo conteúdo. É um trabalho de Hércules, porém, não há impossíveis na política..Consultor de comunicação