"Todos os homens são potenciais clientes" das prostitutas, pois aqueles que buscam prazer no sexo mercantil são indivíduos comuns e socializados, e não devem ser rotulados com comportamentos desviantes e patológicos. A procura deverá ser, sim, "interpretada à luz de ideais de masculinidade", de acordo com o estudo "Prostituição em regiões transfronteiriças do Norte de Portugal-Galiza e Castela-León". Mas alguns dos indivíduos chegam a ser instrumentalizados financeiramente pelas prostitutas..Para os investigadores das universidades do Minho e de Trás-os- -Montes e Alto Douro, é redutora a pretensão de encontrar "traços distintivos e particulares que possam ser associados a quem recorre ao sexo comercial como forma de explicar o seu comportamento". Manuela Ribeiro, Manuel Carlos Silva, Fernando Bessa e Octávio Sacramento defendem que "todos os homens são potencialmente clientes", e serem-no depende de uma multiplicidade de factores de natureza mais contingencial e estrutural. Os mais de 50 clientes analisados em clubes daquelas regiões transfronteiriças prefiguram um grupo heterogéneo, com uma pluralidade de perfis, resultantes da confluência interactiva de variáveis como a idade, o estado civil, o grau de escolaridade, o estatuto sócioeconómico e as razões da procura da prostituição..Apesar de a maioria deles ser de "meia-idade", casado, com níveis de escolaridade relativamente modestos e com um estatuto sócio-económico médio-baixo", os investigadores entendem que este perfil "não é mais do que um mero reflexo das características predominantes nos contextos sociais" da área geográfica do estudo..Protagonistas. Embora pouco conhecidos e analisados do ponto de vista académico, os clientes são protagonistas centrais da prostituição, nem que seja em relação à sua organização, tendo em conta que, muitas das vezes, as suas preferências ditam as regras da circulação das prostitutas entre clubes, e entre as duas fronteiras, em prol de "caras novas"..É o que Joaquim, chamemos-lhe assim, de 53 anos, confessa aos investigadores "Quando repito uma mulher já é o máximo dos máximos, por melhor que seja. A minha sorte é que elas vão embora. Estão sempre a chegar novas". Daí que, de modo geral, a permanência delas nos clubes seja curta, a que se junta a questão da maioria ser imigrante ilegal, e usar esta estratégia como forma de despistar as autoridades. .Clientes. Existem três tipos de clientes, de acordo com o estudo "Prostituição em regiões transfronteiriças do Norte de Portugal- -Galiza e Castela-León" o "sexualmente indigente", ou seja, aquele que sofre de limitações e de dificuldade em seduzir o sexo oposto; pelo que a prostituta é uma das poucas possibilidades de satisfação sexual..Podemos ainda encontrar aquele que procura expandir a sua sexualidade, como é o caso de António "Todos temos paranóias sexuais que não assumimos com a mulher nem com a namorada, mas já somos capazes com uma prostituta. Realizam-se as fantasias eróticas e sexuais". Ao que outro cliente, de 22 anos, acrescenta que "se aprende com elas e, principalmente, a conhecer as várias posições do Kamasutra"..Por fim, temos o "emocionalmente implicado", o qual manifesta necessidade de desabafar. O indivíduo chega ao ponto de as considerar "psicólogas e terapeutas", e algumas destas relações acabam em namoro; uma situação que a prostituta vai alimentando em proveito próprio, nomeadamente para ter mais dinheiro ou para pagar a renda..Sexo sem protecção. Alguns dos homens chegam a insistir na prática sexual sem protecção, dispondo-se até a pagar mais. Os investigadores associam este comportamento de risco à virilidade. Mas os clientes apresentam vários argumentos, como o Manuel, de 23 anos, que as considera "limpas e com vistoria dos médicos". Algumas vezes a garantia vem do dono do clube, como sucedeu com o Sérgio "Com esta rapariga, podes estar confiado que está cinco estrelas. Sem preservativo, sem problemas nenhuns"..Mas as prostitutas não prescindem do uso do contraceptivo, pois receiam as doenças sexualmente transmissíveis, sobretudo a sida. Quando não há acordo entre as partes, elas chegam a ludibriá- -los, colocando o preservativo sem eles se aperceberem..Os investigadores defendem, por isso, a definição de novas políticas para a saúde pública, centrada na prevenção e na diminuição dos riscos, envolvendo prostitutas e clientes, e aconselham a regulação da prostituição ao nível civil e laboral.