Não me excitou o fraseado otimista da entrevista do Presidente Marcelo à SIC, não me indignei com outro disparate do presidente Trump no Twitter, não me espantei com a defesa da globalização em Davos pelo presidente da China, não vibrei com os resultados das primárias presidenciais da esquerda francesa nem, sequer, dei importância a uma nova acusação aos árbitros lançada no Facebook pelo presidente do Sporting..Todos estes presidentes ou candidatos a presidentes confirmaram fazer apenas, face às circunstâncias que os levaram até ao ponto onde agora estão, aquilo que se estava à espera que eles fizessem. Nem mais, nem menos..Daqui a algumas semanas, nuns casos, ou daqui a alguns meses, em outros casos, veremos se a corrida acelerada que todos eles parecem fazer para um abismo geral ou para uma fossa particular se confirma: enquanto não sofremos na pele os efeitos da loucura institucionalizada que de repente parece dominar o governo do mundo, este aparente inevitável caminho para a desgraça surge, dia a dia, notícia a notícia, de forma tão previsível, tão lógica, tão matemática, que se torna meramente aborrecido assistir a tanto determinismo..Também não fiquei particularmente animado por António Costa anunciar que o défice deste ano deverá rondar os 2,3%, o mais baixo da história recente, nem por o crescimento económico poder vir a saldar-se em 1,4%: deitar foguetes por o Estado não gastar dinheiro ou por o país subir umas décimas o valor do PIB só confirma a neura económica em que nos meteram..A guerra da TSU arrasta-se, o problema do Novo Banco arrasta-se, a salvação da Caixa Geral de Depósitos arrasta-se. Aqui não há novidades... uma maçada!.Decidi, por isso, afundar-me de vez em tédio e suicidar esta semana da minha vida com um folhear melancólico da Revista do Expresso - uma das publicações tradicionalmente mais tépidas do nosso anémico mercado de imprensa, uma provisória eutanásia espiritual..Folheio, lento, página a página. Vejo, dormente, alguns títulos: "O imperador da América", "Na fronteira da fé", "A última carta", "Prisões decapitadas"... Nem um me retira do torpor..Chego à página 55. Leio, no meio de uma massa de texto, este destaque a vermelho: "Estudos realizados sobre a sustentabilidade da dívida em diferentes países têm constituído a prova mais evidente de que a dívida pública, na maioria dos casos, não é na prática sustentável"..Fico a olhar, pasmado. Pergunto-me: "Mas isto é o Expresso?... Será que pediram um artigo ao Carlos Carvalhas? Agora já acreditam em economistas comunistas?!".Fui ver. Não. O artigo, apresentado como ensaio, vem assinado por Manuela Ferreira Leite, a senhora que foi ministra das Finanças de Durão Barroso e que liderou o PSD antes de Passos Coelho. Com seis ou sete anos de atraso ela constata que a dívida portuguesa, no seu atual formato, não é pagável. E depois de explicar a uma criança de 10 anos o que é a dívida pública e por que que razão há Estados com dívida excessiva e outros Estados que mandam nos Estados endividados afirma que estamos perante um problema "indiscutível"..E quanto a soluções? Bem, sobre isso a economista é parca : "Espera-se que não se escolha outro caminho senão o de uma solução que balance entre os que propõem punições rigorosas e os que clamam por compreensões excessivas"...Vamos, portanto, para o abismo, mas sempre "balanceados" no meio termo do conformismo! ....E pronto, chegado aqui, lá voltou o tédio a dominar-me a alma.