Toda a poesia de Manuel Alegre

A exposição definitiva de um dos poetas portugueses mais traduzidos.<br />
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APRESENTA-SE como uma caixa cor de pétalas de rosa aveludadas de onde saem dois volumes com novecentas páginas de poesia. O tom pode ter sido escolhido ao acaso mas o texto que se encontra nas páginas iniciais dos poemas de Praça da Canção sugere uma pista para a razão de ser da cor desta recolha total da poesia de Manuel Alegre, agora editada pela Dom Quixote. Refere o texto do poeta o seguinte: «Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se.»

Este pormenor não será o mais importante para quem pega nestes dois volumes mas sim o conteúdo dessa caixa, que finalmente reúne as inspirações poéticas de Manuel Alegre desde «São como Deuses», publicado a 20/01/1960 no jornal da Associação Académica de Coimbra, até a «Um Poema escreve-se entre a noite e a manhã», do livro Sete Partidas, que antecede a reunião de inéditos e dispersos com que esta recolha fecha e três textos de análise.


Está assim fechada a reunião de poemas que andavam à solta e de outros que necessitavam ser cotejados com as edições originais de modo a fixar-se, definitivamente, a «história» poética do que Manuel Alegre escreveu e publicou entre 1960 e 2008 e que se apresenta graficamente de um modo pouco habitual em Portugal. Depois de outras colectâneas, estes volumes I e II da Manuel Alegre - Poesia são a versão definitiva da sua produção literária neste género mas, garante o poeta, ainda tem o projecto de realizar uma antologia de sua autoria.

Esse será um passo que só poderia acontecer após este sacudir de folhas da árvore mas não se verificará de forma pacífica pois, confessa Manuel Alegre, ninguém lhe perdoará a exclusão de poemas que lhe estão intrinsecamente identificados, como é o caso dos primeiros livros.

«Se eu os cortar da minha antologia ninguém irá entender a razão», explica, enquanto justifica: «Muitos portugueses ainda sabem os meus versos de cor porque foram muito cantados e musicados.» E não pode fugir a outra razão, de que se dá conta: «Sou prisioneiro do impacte e da popularidade que esses versos têm», apesar de estar consciente de que possui o direito de fazer uma escolha própria.


Esta edição parte de um trabalho de depuração de Vasco Rosa, que consultou várias edições, comparou versões e estabeleceu uma unidade na grafia sem eliminar o «sopro inicial da poesia» porque, como diz o autor, «quando se corrige muito, perde-se o bafo da inspiração». Por essa razão, Manuel Alegre revê-se na totalidade da poesia agora reunida: «Fui eu que os escrevi e todos correspondem a fases de evolução. Em toda a minha poesia há uma toada que é própria e que tem muito que ver com o ritmo, o bater cósmico e o pulsar da terra que está em nós.»Há uma prosódia que vem desde os primeiros poemas e que está nos últimos, a par de uma evolução, de amadurecimento pessoal e do aparecimento de outros temas na génese da sua obra.


A obra de Manuel Alegre tem tido constantes traduções, sendo Itália o país onde se sucedem edições de vários livros, onde tem uma cátedra com o seu nome e se fazem teses sobre a sua obra. Não se preocupa com a entrada em vigor do Acordo Ortográfico porque não pretende mudar a grafia mas confessa que nos últimos tempos deixou de ser info-excluído sem, no entanto, ter abandonado a escrita à mão: «Escrevo sempre a poesia e prosa à mão porque faz parte dos meus ritmos.»


«A poesia não tem outro compromisso a não ser com ela própria»

A poesia inicial está mais marcada pelo protesto e política?
Acho que não e a minha poesia não é panfletária ou não teria entrado no imaginário dos portugueses. Há uma estrutura rítmica e um tom cantabile que vem das trovas, dos cantares de amigo e dos ritmos camonianos a par de um tom de modernidade – que António Ramos Rosa foi o primeiro a descobrir – e de vanguarda, inclusive dos surrealistas. Do ponto de vista temático, não desprezei os mitos nacionais que o fascismo mitificou e desconstruí-os, como aconteceu com Dom Sebastião, o momento maior da História de Portugal que foram as Descobertas, e a guerra.


A poesia já não é tão lida neste país de poetas?
Já se leu muita poesia em Portugal, mas se compararmos com outros países europeus continua-se, com excepção da Irlanda e de alguma Espanha, a ter muitos leitores. Lê-se menos poesia do que no tempo da ditadura porque então havia uma necessidade de sonho, que passava pelos códigos metafóricos da poesia, e de sinais que por vezes nem lá estavam. Também se ensinava de outra maneira na escola, eu soube poemas de cor antes de saber escrever.


As vendas de livros de poesia também são baixas.
No meu caso, para não falar de Praça da Canção, que já ultrapassou largamente os cem mil exemplares – coisa rara em vida do autor –, ou A Senhora das Tempestades, que teve a primeira edição de 14 mil esgotada em três semanas, não me posso queixar. Mesmo os poetas mais conhecidos em França não ultrapassam os três mil exemplares.


É uma excepção em Portugal!
A Sophia vende bem, o Eugénio de Andrade também, tal como Torga, Herberto Helder ou Cesariny. Há um conjunto de poetas de culto e muita gente nova a lê-los, situação excepcional na Europa. Penso que o desaparecimento das páginas literárias de quase todos os jornais também tem alguma responsabilidade nessa situação.


A cultura deixou de interessar à comunicação social?
Interessa bastante menos e há um hermetismo muito grande que a impede de chegar ao grande público.


O sentido da sua poesia foi mudando ao longo da vida?
As circunstâncias mudaram mas a escrita e a vida são inseparáveis e a poesia não tem outro compromisso a não ser com ela própria. O ritmo do poema e da escrita não é só o das palavras, é inseparável do que vivemos.


Nasce da própria vida?
Eu não sei de onde nasce… É uma relação que tem mais que ver com o mundo e com a palavra poética, com esse fenómeno das sociedades primitivas onde havia o xamã que, através da repetição de palavras rítmicas, exorcizava o mal e convocava as forças benfazejas. O poeta é um pouco isso, um fenómeno que tem que ver com as forças primitivas e primordiais.


Tem 21 livros de poesia, sete de ficção e três de outros géneros. O que falta fazer?
Estou a escrever um livro quase biográfico que é um itinerário poético sobre as primeiras memórias de que me lembro. Onde analiso como os ritmos do mundo se vão transformando nos ritmos da escrita, de como é que nasceu este gosto da música nas palavras, das histórias que ouvia em miúdo: os romances cantados pelos cegos, o meu pai e a minha mãe que se acompanhavam à guitarra e cantavam o fado, as histórias que as criadas contavam, o barulho das águas do rio e o canto dos pássaros…


Crê que nasceu para a poesia?
Há um momento na vida em que a poesia é voluntarista. Em mim, como Paul Valéry dizia e Torga repetia, o primeiro verso é dado, os outros são conquistados. A poesia nasce-me numa toada ou de uma palavra e pode aparecer da maneira mais inesperada porque não programo a minha escrita. Escrevo por ciclos e intensamente, podem ser quatro ou cinco poemas por dia ou em três ou quatro dias escrever o Cão como Nós como uma espécie de exorcismo.


Memórias adiadas
Quando se lhe pergunta sobre a ausência de um livro de memórias, Manuel Alegre sorri. Depois diz: «Quando se teve uma vida muito intensa como foi a minha é complicado escrevê-la porque a biografia é uma espécie de justificação e, muitas vezes, é mais ficção do que realidade.»

Considera que tem romances baseados na sua vida e que estes «talvez sejam mais autênticos porque estou menos inibido». Não tem dúvidas de que a vida é para viver e que a escrita é algo diferente: «A vida é feita de fragmentos e a memória muito selectiva. Aquilo que fica esconde o resto e receio que acabe por ficcioná-los. Eu sou uma pessoa de reserva e de pudor.»


Antologia *****
A «bússola interior» do trovador
 
Da insubmissão à celebração do amor, obra lírica de Manuel Alegre em dois volumes, numa edição de rara qualidade.

Poesia
Volumes I e II – 1960/2008

Manuel Alegre
Dom Quixote
 
A obra lírica de Manuel Alegre espelha-se hoje em dois volumes de Poesia numa edição revista e aumentada e de invulgar esmero gráfico (Dom Quixote). São mais de novecentas páginas (sensivelmente metade em cada livro); rios de versos a permitirem um bom conhecimento da poética de um clássico-moderno que por meio da palavra demanda novos horizontes.


O primeiro volume integra 14 títulos (1960-90). Abre com São como Deuses (1960), publicado no jornal A Briosa, da Associação Académica de Coimbra), já revelador de uma voz que aprofundou o pensamento, a estética, a urgência de dizer: «(..) Somos / o grande interior onde tudo fermenta (...)».

Segue-se-lhe o emblemático Praça da Canção (1965), começando com «Rosas Vermelhas» e, no lugar de «Dedicatória» de anteriores antologias, incorpora-se o poema escolhido para o texto definitivo daquele livro (2005, ilustrado por José Rodrigues): «Venho dizer-vos que não tenho medo / a verdade é mais forte que as algemas. / (...) Tomo o navio da canção / e vou direito ao coração de toda a gente.» Nele se inscrevem ainda, entre outros, «Trova do Vento Que Passa» e «Nambuangongo Meu Amor»; a luta contra a opressão.


Do Volume I, que fecha com A Rosa e o Compasso, depois de se (re)visitarem títulos como O Canto e as Armas ou Um Barco para Ítaca, não importa apenas realçar a espantosa pulsão épica de Alegre, o enraizamento de uma identidade e o modo de realizar literariamente a peregrinação de um país e de um povo na crença de ser possível «um outro Portugal em Portugal». É indispensável assinalar-se, também, a celebração do amor, a alquimia dos signos e das metáforas desse substantivo vital interagindo, por exemplo, com a verve camoniana ou com Ulisses e sua Penélope.

Da dialéctica amorosa do primeiro tomo permitimo-nos entretanto destacar «Sextina», poema que mostra à saciedade (tal como em «Não Sei de Amor Senão», no segundo tomo) a mestria de Manuel Alegre, nomeadamente na epanalepse, repetindo palavras, expressões, até que a intensificação dos ritmos e a magia da linguagem formem o mais original dos cânticos.


O Volume II de Poesia ( 1992-2008) insere 11 títulos e um capítulo de Dispersos e Inéditos. Principia Com que Pena / Vinte Poemas para Camões, alargando-se a Sete Partidas. Sobressai uma poética de excelência, não só a que volta à natureza errante, a mitos, às naus, ao mar, ao amor, a tantos afectos, a poetas e pintores, à insubmissão e à liberdade, mas em particular a de Sonetos do Obscuro Quê e, sobretudo, a de Senhora das Tempestades, ode assombrosa do trovador da tradição e da modernidade ao confrontar-se com a morte, navegando enigmas do coração, «o finito e o infinito», perguntas sem resposta que se adensam nos poemas do pescador, com Deus talvez «na última onda». É neste núcleo do segundo volume que o poeta entrega por inteiro ao verbo a sua «bússola interior», a complexidade do ser. MARIA AUGUSTA SILVA

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