Teoria da conspiração

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No Brasil, ou pelo menos em São Paulo, ainda há o costume de se assinar jornais. Por volta das seis da manhã cai à porta dos apartamentos um exemplar da Folha de S. Paulo aqui, outro de O Estado de S. Paulo ali. Quem vai de férias, nem que seja por uma mísera semana, encontra portanto um monte de papel à frente de casa no regresso. Uma montanha, se se assinar os dois e ainda revistas semanais. Lê-los a todos, por ordem cronológica, é, além de um exercício corajoso, a prova viva de que a máxima "não há jornal mais antigo do que o de ontem", procede.

Exemplo: a edição de 19 de janeiro passado do Estadão. Diz lá, em título da nobre página 4, que a "delação da Odebrecht deve ser divulgada em fevereiro". E no lead que, "como relator da Lava-Jato no Supremo, cabe a Teori Zavascki validar as delações (...) para isso, uma equipa de auxiliares do ministro analisa todo o material durante as férias judiciais". Na Folha do mesmo dia, mas na página 6, lê-se que "a delação avança" e que cabe "ao juiz Zavascki a homologação".

Na edição seguinte, como é fácil supor, ambos os jornais escolheram para manchete, em caixa alta e um corpo de letra dois pontos acima do comum, a morte trágica de Teori em acidente aéreo perto de Paraty, com as fotos dos destroços do avião no Atlântico a ilustrá-la.

Num dia, o juiz tinha a seu cargo a delação explosiva dos quadros da Odebrecht que mencionam mais de uma centena de políticos de alto escalão como beneficiários do esquema de corrupção montado pela construtora; no outro, aparece morto.

Ainda nem havia a certeza de que Teori ia no voo e já as teorias da conspiração voavam nas conversas de boteco - e nas redes sociais, as conversas de boteco do século XXI. Uns garantiam que dias antes da queda houve 1885 consultas à imagem de uma aeronave semelhante àquela em que viajava o juiz. Outros afirmavam que documentos essenciais da Lava-Jato transportados na mala do magistrado se teriam perdido no mar para sempre. E o grupo do costume atribuía o "acidente", como atribui todos os acidentes do mundo, a Lula, mesmo que o ex-presidente esteja sob alçada de Sergio Moro, na primeira instância, e não de Zavascki, no Supremo, por não ter foro privilegiado.

O inglês nascido no Uganda Simon Kuper, controverso colunista do Financial Times, notou um dia que José Mourinho, quando a vida lhe corria mal na Premier League, atribuía a responsabilidade à federação, aos árbitros ou à imprensa porque, segundo o jornalista, quanto menos habituado à democracia é o país onde se cresce mais os seus cidadãos acreditam que forças ocultas determinam as suas vidas. Sustentava a propósito que no Iraque parte substancial da população afirma que Saddam está vivo e que em certos países africanos se acredita que o VIH foi produzido em laboratórios dos EUA.
Daí que nas redes e nas ruas, suceda o que suceder, descubra-se o que se descobrir, para a maioria dos brasileiros, com uma democracia ainda mais jovem do que a portuguesa, Teori foi assassinado. E ponto.

Mas pode condenar-se a desconfiança dos brasileiros? O Brasil é o país onde Castelo Branco, primeiro presidente na ditadura militar, morreu em 1967, num suposto acidente aéreo, onde Ulysses Guimarães, um dos pais da democracia brasileira, faleceu em alegado desastre de helicóptero em 1992 e onde Eduardo Campos, candidato à presidência em 2014, foi vítima de um erro incomum de um piloto na queda de uma aeronave em Santos.

Se descermos à terra, temos o suicídio cinematográfico do presidente Getúlio Vargas após um Conselho de Ministros em 1954, o choque de automóvel mal explicado que vitimou o ex-presidente Juscelino Kubitschek em 1976, mesmo ano em que um seu sucessor, João Goulart, sofreu ataque cardíaco fatal enquanto dormia. Tancredo Neves morreu de doença no intervalo entre a sua eleição como presidente e a tomada de posse em 1985 e já neste século um promissor autarca, Celso Daniel, foi sequestrado e morto num caso classificado pela polícia de "crime comum", apesar de sete das testemunhas acabarem executadas.

Todas as evidências indicam que a morte de Teori foi acidente mas que são muitos Camarates para um país só, são.

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