Teoria da conspiração

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Num mundo perfeito, Costa e Rio teriam combinado, em privado, encenar uma zanga pública, com trocas de insultos, até com alguma violência verbal e adjetivos fortes. Os dois, que nunca foram amigos, mas que se respeitavam e admiravam mutuamente, apareceram lado a lado muitas vezes quando ambos eram autarcas das duas maiores cidades do país e, portanto, tinham interesses "municipalistas" e "descentralizadores" comuns.

Rio viu o desfile das marchas de Santo António ao lado de Costa, António levou marteladas de São João nos Aliados, quando desfilava ao lado de Rui.

Um dia, Costa, já líder do PS, para diminuir politicamente Passos Coelho, ainda líder do PSD, disse que o seu "verdadeiro adversário era Rui Rio". Estava certo. Rio havia de ser seu adversário, e Costa, como se sabe, haveria de vencer Rio, embora sem a tal "maioria absoluta" com que chegou a sonhar.

Rio, por seu lado, vergado ao peso de uma derrota quase histórica, reclama para si o facto de Costa não ter tido a tal maioria absoluta. De autarcas próximos por conveniência e não por convicção a adversários em legislativas a coisa foi andando - uma espécie de pacto de não agressão, até porque Rio e Costa são, no fundo, dois "sociais-democratas", um da "ala esquerda" do PSD, outro que não pode ser colado à "ala esquerda" do PS. Se houvesse bloco central, ninguém melhor do que ambos para o assinarem.

Durante muito tempo, o PSD andou inquieto, com a proximidade entre ambos. Parecia que Rio já se dava por satisfeito se viesse a ser vice-primeiro-ministro de Costa, naquela lógica de que "se não podes vencê-lo, junta-te a ele".

Como ontem bem lembrou o Diário de Notícias, logo na capa, ambos apareceram juntos, outra vez, em 2018. No Palácio de São Bento, Rio e Costa assinaram acordos entre PSD e... governo, sobre, precisamente, "descentralização" e fundos europeus.

Costa, nessa altura, precisava de Rio. E Rio, nessa altura, ainda estava convencido de que o melhor caminho para se demarcar de Passos Coelho era estar "ao centro". Ou seja, mais perto do PS do que do PSD que ele queria derrotar.

No início da pandemia, Rio foi mais estadista do que Costa: deixou o caminho livre ao primeiro-ministro, suportou todas as decisões (e indecisões) do governo, foi acrítico e solidário - em tempo de crise sanitária desconhecida, o PSD não faria oposição. Costa chegou a agradecer-lhe, Pedro Sánchez utilizou-o como exemplo de cooperação que deveria ser seguido noutros países, incluindo o seu. Rio capitalizou, mais fora do que dentro do partido. Agora, com mais uma eleição à porta, com uma certa normalidade sanitária, com testes em barda e vacinas a bom ritmo, a política voltou. No caso de Rio, não se trata apenas de uma ida às urnas para as câmaras municipais, mas sobretudo de uma prova de vida e sobrevivência na liderança do PSD. O mandato de Rio acaba em fevereiro e, caso as coisas não lhe corram bem em outubro, o partido tratará de arranjar um "novo" adversário a Costa.

Mas, o que tem isto que ver com o título?

Tudo.

Era bom que esta zanga pública fosse, apenas, encenada. Porque criaria maior polarização, maior apelo ao voto útil, maior clivagem (aparentemente) ideológica, e essa divisão fraturante faria aumentar o número de eleitores que poderiam decidir entre PS e PSD.

Qual a vantagem? Tirar força, por via da bipolarização, à extrema-direita e à extrema-esquerda. Quanto mais votos estiverem concentrados "no centro", menos votos caminham para as franjas de um sistema que precisa de pesos e contrapesos, de alternativa e alternância, mas não precisa de extremismos de um e outro lado.

Será que Costa e Rio acertaram esta encenação? Ou, pelo contrário, estão mesmo em rota de colisão e os próximos meses serão de posições extremadas e insultos mútuos?

E, no final, qual o resultado disso?

Jornalista

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