"Tenho o maior respeito pelo Estado social, mas o que se quer é o Estado Pai Natal"

Almoço com Nuno Ribeiro da Silva.
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À mesa do canto da sala disfarçada de laboratório de ciências do Darwin"s as conversas chegam difusas. Esta meia privacidade é suficiente para Nuno Ribeiro da Silva permitir-se confessar um dos seus maiores vícios: "Água das Pedras, já bebi piscinas olímpicas disto. Havia sempre em casa dos meus pais e além disso era uma bebida simpática ao fim da noite, quando ia sair com os amigos e já tínhamos bebido demasiados whiskies. Isto é radioativo, sabe?" Eu, que sempre preferi água lisa, não sabia e fico ainda menos tentada a trocá--la pela de bolhinhas. Presidente da Endesa há dez anos, mostra-me fotografias de rótulos antigos, tiradas quando estava na Secretaria de Estado da Energia e "andava naquelas liças das águas, nas provas". Surpreendentemente, todos vendiam variações de "radioatividade" - e num deles lia-se, de ponta a ponta, um orgulhoso "A água mais radioativa de Portugal".

As águas estão servidas e pedimos vinho tinto para acompanhar o risotto de alheira e o brás de garoupa - Nuno Ribeiro da Silva teria preferido bacalhau, mas desse não havia sinal entre os três ou quatro de apelido brás perfilados na lista.

Aceite a alternativa, diz-me que a sua passagem pela política está arrumada - "entrei com 29 anos, era um fedelho". Esteve em duas secretarias de Estado (Energia e Juventude), na Presidência do Conselho de Ministros e na Assembleia da República e ao fim de dez anos trocou o serviço público pelo privado - mas mantendo sempre alguma ligação ao ensino. "Foi uma altura engraçada e não fiquei com nenhum ressabiamento, mas não me apetece voltar. Nunca fui filiado em nenhum partido (apesar de ter afinidades), mas naquela altura o Cavaco achou que eu era jeitoso para aquilo..."

Conheciam-se há anos. Era Nuno ainda criança e o seu pai administrador da Mobil. "Ele era um administrador-galinha e sempre que íamos de férias para o Algarve passávamos dois dias a visitar os revendedores - felizmente eram só três, entre eles um tio de Maria José Ritta e o pai do Cavaco. Almoçávamos sempre lá um dia, com a família toda, e lembro-me dele nessa altura, tinha uns 17 anos, tímido, esquivo; enquanto nós almoçávamos, ele parecia um gafanhoto nas figueiras."

Aproveito a boleia do Presidente da República: será Marcelo Rebelo de Sousa o próximo a ocupar o lugar? "Desde que não seja aquele Sampaio da Nóvoa... o tipo é uma espécie de Trump." Não seria o seu candidato. Já a Marcelo reconhece todas as capacidades para lá chegar e para fazer o lugar com competência. "Pode ser muito adequado, sobretudo se isto ficar com uma governabilidade muito difícil. Ele seria capaz de fazer uma boa engenharia de compromissos e acordos, tem muito jeito para isso." Entre duas garfadas no brás que só peca por não ser de bacalhau - "está ótimo!" -, explica que os próximos dez anos serão determinantes para o país e exigem que não haja grandes abalos. "Temos um país simpático, a economia está a recuperar e era bom conseguirmos navegar esta onda. Com o Norte de África como está, os movimentos independentistas na Catalunha, por exemplo, o cenário da Grécia, pode gerar-se aqui um trend relativamente positivo, desde que haja tino e perseverança. Podem emergir coisas porreiras, instalar-se aqui escolas, unidades de saúde... Mas se nos dá para desatinos, se se perder a estabilidade acontecerá o pior."

Apesar de sentir que a economia, o investimento e o consumo estão a começar a levantar do chão, Nuno Ribeiro da Silva não acredita que tenha havido uma mudança de hábitos - maior rigor nas contas, mais poupança, menos dependência de crédito e do Estado. Já transferidas as águas e restantes pertences para a esplanada, onde podemos fumar enquanto bebemos o café, explica a sua descrença. "As pessoas não sentem que a gestão do país é a "casa grande" e que não há milagres. Não subestimo os problemas que existem, os salários são baixos, há muitas carências, mas acho que há muito oportunismo e hipocrisia. Está sempre toda a gente pendurada no Estado, a exigir, e é fantástico ter um Tribunal Constitucional que reconhece direitos, que funciona. Mas se não há dinheiro, no fim vamos todos para o caixão forrado com os acórdãos fantásticos que temos. Eu tenho o maior respeito pelo Estado social, mas o que se quer é o Estado Pai Natal e isso não há, não pode haver Natal 365 dias por ano. E o Estado Pai Natal mata o Estado social."

Conta que os alunos do Técnico iam fazer levantamento porque o ministério queria subir o preço das refeições na cantina de 1,8 para 2,3 euros. O exemplo serve para justificar o argumento: para a maioria, o aumento não seria impeditivo - nem sequer significativo. Porém, exigiam que o preço não subisse para ninguém - batiam-se pela universalidade em vez de uma proporcionalidade, que poderia permitir, por exemplo, que para alguns, os que tinham menos recursos, a alimentação (e os estudos) fosse subsidiada a 100%. "O Estado não pode ser Pai Natal", remata. Mas também os governantes merecem crítica: a carga fiscal pesa demasiado sobre pessoas e empresas. "Quando o Álvaro [Santos Pereira] era ministro da Economia, uma vez chamou-me porque os preços da eletricidade eram muito altos. Eu respondi-lhe mostrando-lhe a estrutura da fatura de consumo, em que dois terços do preço eram impostos e similares."

Especialista no tema da energia, explica que o paradigma das elétricas está a mudar. Mais eficiência traz menos consumo - as lâmpadas modernas, por exemplo, consomem um sete avos do que comiam há poucos anos, e o peso da eletricidade na procura de energia já está reduzido a 23%.

Ao acompanhar-me num segundo café - o ritual repete-se ao pousar da chávena: açúcar afastado, colher posta de lado -, Nuno Ribeiro da Silva garante que o futuro terá de passar pela mobilidade elétrica. Não será questão de falta de petróleo - "com os recursos atuais e aos níveis de consumo que temos, esse é um problema para as calendas. O xeque Yamani, saudita que liderava a OPEP quando foi o primeiro choque petrolífero, dizia que assim como a idade da pedra acabou não porque faltava pedra, a era do petróleo vai acabar com muito petróleo no chão". Conta que foi o primeiro choque petrolífero que ajudou a que outros recursos e tecnologias se de-senvolvessem - surgiu o nuclear, o gás natural, depois as renováveis -, permitindo tirar o crude de uma fatia gorda da produção: restou a última quinta, um latifúndio, que são os transportes.

Aqui, as preocupações ambientais podem ser o motor de arranque da mudança de paradigma que nos fará substituir os motores de combustão por carros elétricos. E a partir do momento em que a indústria automóvel tem linhas de montagem e as marcas oferecem vários modelos, meio caminho está feito. O preço mais elevado também já foi um problema maior: "As pessoas já fazem contas ao que poupam ao fim de um tempo, como acontecia há umas décadas com os carros a gasóleo." E quanto à falta de capacidade das baterias, também não é uma grande questão quando 82% da mobilidade são carros que fazem menos de 100 quilómetros por dia. Com o problema da poluição a ganhar escala - "ainda no ano passado Madrid fechou dois anéis durante 40 dias" -, os carros elétricos podem entrar na história como heróis. E o caso Volkswagen pode ser a pedrinha que fará mudar tudo. Nuno Ribeiro da Silva acredita que, depois da VW, da Audi, da Skoda, o escândalo vai alastrar. "Ainda a procissão vai no adro; vai chegar à Mercedes e a outras fabricantes." A razão é simples: "A batota foi necessária porque a indústria operacional para o motor diesel só consegue chegar àqueles valores de emissões estipulados com um custo muito elevado. É preferível investir noutra coisa."

Passaram mais de duas horas quando nos despedimos, mas a conclusão do tema é feita já na garagem da Fundação Champalimaud, antes de seguirmos viagem - duas pessoas, dois carros, bem menos de 100 quilómetros para percorrer até ao fim do dia. Quer pelo preço mais vantajoso da tecnologia elétrica quer para recuperar parte da confiança perdida e voltar ao caminho das boas graças da Europa e dos Estados Unidos, uma solução de mobilidade elétrica - limpa de emissões de CO2 - pode ser a salvação do grupo Volkswagen.

Darwin"s café

› Risotto de alheira

› Brás de garoupa com rúcula

› Vinho tinto Malhadinha

› Água das Pedras

› Água sem gás

› Cafés

Total: 99 euros

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