Este ano já tivemos mais de quatro mil mortos no Mediterrâneo e a crise dos refugiados na Europa continua. Alguma vez terá fim?.Infelizmente o número de mortos continua a subir e já é maior do que no ano passado e acho que a crise vai continuar. E há outro fenómeno em Itália: nunca vimos tantas pessoas a chegar tão tarde no ano. Normalmente em novembro, porque o tempo já não é tão bom, param de enviar barcos, mas agora estamos a ver os criminosos a baixar os preços das travessias. Em barcos que já não eram bons e onde costumavam por 50 pessoas, agora estão a pôr 200. O risco para estes barcos virarem com o mau tempo é enorme..E a travessia da Líbia para Itália é mais difícil....É muito mais perigosa, mais longa. Há muito menos pessoas a chegar à Grécia desde abril, agora o enfoque é na Itália. Vai provavelmente ter um ano recorde, com mais de 170 mil travessias este ano. E sim, 90% das pessoas que chegam a Itália partiram da Líbia e sabemos a situação neste país. É impensável que os europeus, mesmo que quisessem, pudessem assinar um acordo com a Líbia, mesmo se houvesse governo. Haveria uma série de questões em relação aos direitos humanos..O acordo com a Turquia travou as entradas na Grécia e a rota para Itália voltou a crescer, por isso com um acordo com a Líbia os migrantes encontrariam alternativas....Estamos a falar de duas rotas diferentes. A rota italiana é principalmente africana, enquanto a grega é do Médio Oriente. Vemos diferentes pessoas em cada uma delas. São dois fenómenos paralelos e não a substituição de um pelo outro. No ano passado tivemos um grande aumento de chegadas na Grécia, mas os números para Itália foram quase iguais. Foram 150 mil e este ano serão 170 mil..[citacao: Quanto mais pessoas tens (nos campos de acolhimento), mais difícil se torna manter os padrões e mais difícil se torna politicamente vender aos teus cidadãos].E como está a situação nos primeiros países de acolhimento?.Na Grécia, estamos a falar de 60 ou 65 mil refugiados em campos. Em Itália, havia há quatro ou cinco anos capacidade para receber entre 20 a 30 mil e hoje temos 175 mil pessoas nos centros de receção. E isso é logisticamente complicado, porque quanto mais pessoas tens, mais difícil se torna manter os padrões e mais difícil se torna politicamente vender aos teus cidadãos. Em Itália há um sistema descentralizado e, em algumas regiões os refugiados ou requerentes de asilo são bem vindos e noutras não. Temos duas ou três regiões em que os governadores são de extrema-direita e, nessas regiões, é um grande problemas..Não são só regiões, há muitos países que não aceitam refugiados. Há uma divisão sul-norte?.Há definitivamente um problema de solidariedade, mas não é necessariamente entre sul e norte. A Alemanha tem, de longe, o maior número de requerentes de asilo, e não a podemos pôr ao lado dos países que dizem não. Mas há um número de países que não têm um registo positivo no que diz respeito a aceitar as pessoas e fecham a porta. Estamos preocupados na construção do muro entre a Hungria e a Sérvia e com algumas das declarações feitas por alguns países..E Portugal. É um exemplo de como devia ser o acolhimento?.Portugal tem tido sorte, no sentido que não tem sido afetado pelas chegadas maciças. E teve uma excelente atitude ao mostrar solidariedade com Itália e Grécia. Foram generosos no programa de relocalização dentro da União Europeia e já receberam cerca de 800 ou mil pessoas, com uma boa coordenação entre governo e municípios. Mas precisamos de ter também em conta a capacidade de integrar as pessoas. Seria um erro ir muito rápido, porque se é só para fazer número mas, no final, as pessoas não estão integradas, isso torna-se num grande problema para elas e para Portugal. Temos que encontrar o equilíbrio entre ser generosos e ser realistas..[citacao:Se as pessoas estão dispostas a morrer no Mediterrâneo, isso significa que não têm nada a perder].O que é que a Europa, como um todo, deve fazer?.O problema é a paralisia política. Não vejo a União Europeia, e não falo da Comissão Europeia que acho que está a tentar, mas da resistência de alguns estados, preparada para iniciativas sobre o problema migratório e dos refugiados. E para mim isto é preocupante, porque é um erro. Não podemos travar o fluxo, as pessoas vão encontrar uma forma de vir. Temos que analisar a pressão demográfica de um continente como África, a ausência em muitos países de oportunidades de trabalho, de desenvolvimento, a violação dos direitos humanos, os conflitos... Se as pessoas estão dispostas a morrer no Mediterrâneo, isso significa que não têm nada a perder..Então o que podemos fazer?.O que defendemos no ACNUR é uma resposta completa, que inclui alguns elementos de controlo, porque nenhum país vai abrir completamente as portas, mas também precisamos investir nos países de origem e de trânsito. Investir significa também oferecer hipóteses legais para as pessoas, através de acordos com esses países e de um sistema justo de seleção. Não digo que não haverá pessoas a tentar na mesma entrar ilegalmente, mas reduzirá o número dos que tentam fazê-lo. Penso que temos que ter este elemento positivo na equação..Em 2017 poderemos ter um governo de direita ou até de extrema-direita em França. Por toda a Europa os populismos estão a crescer. Isso não dificulta a situação?.Espero que não haja um presidente de extrema-direita em França, mas esses movimentos estão a crescer e não precisamos de ter o cenário mais dramático para piorar a situação. Porque os partidos tradicionais estão a observar o que se passa com esses movimentos e corremos o risco deles adotarem progressivamente agendas indecentes..[citacao: Até de um ponto de vista cínico, as passagens legais podem ser apelativas].E isso complica o tal programa legal de imigração?.Claro, mas acho que a discussão é possível. Porque a Europa precisa de mão de obra e se, no final do dia, essas pessoas poderem escolher quem vem, puderem controlar o processo de seleção, até podem ter interesse neste sistema. Até de um ponto de vista cínico, as passagens legais podem ser apelativas..O governo francês fechou a Selva de Calais e distribuiu as pessoas pelo país. Concorda com a decisão? Acha que vai reaparecer?.Muita gente tem criticado o governo francês, mas acho que o governo fez as coisas de uma forma correta, apesar de alguns problemas de violência, ao providenciar abrigos a todos e assistência. O que é importante, porque há muitos governos a fechar estas estruturas de forma agressiva, sem providenciar soluções. E não é impossível reaparecer. Desde que haja um íman, neste caso o Reino Unido, as pessoas vão continuar a ser atraídas por ele..De que forma a eleição de Donald Trump terá impacto na questão dos refugiados?.Temos que ver. Estamos preocupados, para ser franco, esperamos que o novo presidente seja responsável e deixe cair alguma da retórica que usou na campanha. Há uma série de compromissos do presidente Obama e da atual administração de aumentar o número de pessoas que recebe. Mas receber refugiados não é uma obrigação legal. Nenhum país é obrigado a receber refugiados, mas para nós é a única forma de aliviar o fardo dos primeiros países de acolhimento. Os EUA tem grande tradição de acolhimento, que sobreviveu a qualquer administração, republicana ou democrata, por isso esperamos que a tradição sobreviva..PERFIL.› Suíço, licenciou-se em Direito em Lausanne e fez um mestrado em criminologia em Paris..› Representante regional no Sul da Europa desde abril, trabalha há 24 anos para o Alto Comissa-riado da ONU para os Refugiados.› Stephane Jamequet começou a carreira no ACNUR em 1992, como chefe de operações na Croácia, tendo depois estado no Togo, no quartel-geral da organização em Genebra e na Indonésia. Como representante do ACNUR, passou pelo Líbano, Nepal, Burkina Faso e Colômbia.