Temer pede paz e paciência em discurso

A primeira medida do novo presidente vai ser reformar a Segurança Social. Mercado aplaude. Sindicatos apupam.
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Como Michel Temer (PMDB) vai chegar ao poder sem ter necessitado de convencer os eleitores a votar nele - a não ser, claro, os 594 congressistas que na Câmara dos Deputados e no Senado optaram pelo impeachment da antecessora - o primeiro contacto oficial com a nação vai ser já como presidente, hoje, no Palácio do Planalto, no lugar ainda quente deixado vago por Dilma Rousseff. Ao que tudo indica, o discurso será acima de tudo realista: pedindo "paciência e pacificação" para relançar a economia.

Aos donos do PIB, Temer tem falado em cada encontro na língua que eles entendem: "Aquecer a economia", "destravar o crédito", "reduzir os gastos do governo", "atrair investimento externo" e "dar segurança jurídica aos investidores". E a linguagem do povo nas ruas o ex-vice será capaz de falar? "Paciência e pacificação" pode não ser exatamente o que o brasileiro médio quer ouvir do líder de um governo do qual não conhece quase nada, avalia a equipa de Temer. Até à hora de ir para o ar, a cúpula do PMDB ponderava introduzir mais palavras de "esperança".

Do que vai saindo para a imprensa, Temer e Henrique Meirelles (PSD), o escolhido para o Ministério da Fazenda, querem avançar com privatizações, rever o programa de concessões e, antes de tudo, reformar a Segurança Social. Meirelles deseja que o setor que define as regras de acesso à reforma, criado como ministério autónomo durante a ditadura militar e fundido no ano passado ao Ministério do Trabalho por Dilma, passe para a alçada da Fazenda.

"Incorporar a Segurança Social na Fazenda seria ótimo, em vez de um ministro coloca-se um técnico a fazer uma reforma para valer", disse à Agência Broadcast o corretor da Tullett Prebon Fernando Monteiro. O mercado está, pois, entusiasmado com Michel Temer. E os sindicatos? Vagner Freitas, presidente da Central Única dos Trabalhadores, berço do PT, classificou a decisão como "absurda" ao jornal O Estado de S. Paulo. "Temer indica assim que a Segurança Social é só custo, que pode ser colocada numa salinha do Ministério da Fazenda e tratada como mais uma das contas que a equipa dele vai cortar." Também Sérgio Leite, da Força Sindical, que apoia Temer, se diz desiludido com o futuro presidente se essa fusão se concretizar: "Vai começar por desagradar aos trabalhadores, tornando a Segurança Social nada mais do que um fundo contabilístico." Ao mesmo tempo que ainda escolhe "o que" fazer, Temer está preocupado também "com quem" fazer. Ou, melhor, "com quantos" fazer. Depois de ter prometido ao setor empresarial uma redução de ministérios, recuou perante a avalanche de solicitações dos partidos que romperam à última hora com o governo e votaram pelo impeachment. Pode agora recuar novamente, dado o impacto negativo que o recuo anterior causou na opinião pública, e decidir-se pela fusão de ministérios para reduzir o seu número. "Mas varrer nomes para debaixo do tapete não é reforma e pode dar bobagem", alerta Vinícius Torres Freire, colunista do jornal Folha de S. Paulo.

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Por agora, os principais ministérios já têm dono. Além de Meirelles, José Serra (PSDB) vai comandar os Negócios Estrangeiros, e os peemedebistas clássicos Romero Jucá, Eliseu Padilha e Moreira Franco ocuparão o Planeamento, a Casa Civil e a Coordenação de Infraestruturas, respetivamente. Mas as negociações de Temer continuarão agora no Planalto.

São Paulo

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