Estava calmamente em casa quando, às 22 horas de uma noite fria do mês passado, foi chamado de urgência ao Hospital da Ordem da Lapa, no Porto, onde trabalha. Havia um problema com uma sonda a colocar num doente que ia ser operado no dia seguinte e era preciso o médico resolver. O facto de já ter quase 82 anos não o impediu de sair a correr, àquela hora, rumo à unidade de saúde. «Sou médico, opero e tenho responsabilidades», explica Mário Reis, um dos clínicos mais velhos do país ainda a exercer. «Devo ser mesmo o urologista mais antigo ainda em funções», calcula. Mas pela sua rotina semanal ninguém adivinharia. Todas as semanas atende, em média, mais de 20 doentes e opera quatro. Quando está no bloco é ele quem lidera a equipa. «As mãos não tremem e tenho a cabeça boa», diz..Na Ordem dos Médicos estão inscritos 2007 clínicos com mais de 80 anos, mas muitos já não exercem. Há poucos casos como o de Mário Reis e, do seu curso de Medicina, só uma colega está ativa nos hospitais. Teresa Osório, ginecologista, de 83 anos, dá consultas no Hospital de Santa Maria, no Porto, orienta alguns doentes com cancro e às vezes faz intervenções cirúrgicas. «Só não faço partos, pois implica uma disponibilidade de horas, incluindo à noite, que já não tenho», diz..Mário Reis e Teresa Osório tiveram de deixar os hospitais públicos onde trabalhavam quando fizeram 70 anos, como obriga a lei. «Fiquei espantado quando recebi a carta que me mandou embora. Não faz sentido ficar em casa a ver televisão quando gosto do que faço e estou em condições», lamenta o urologista, sublinhando que a medida que o governo anunciou este ano de recrutar médicos reformados para o Serviço Nacional de Saúde, prometendo pagar-lhes um salário completo além da reforma, é tardia: «Andaram a desperdiçar médicos.» Continue a ler esta reportagem na Notícias Magazine.