Telescópio James Webb descobre galáxias misteriosas no Universo primordial

A confirmarem-se por análises independentes, será necessário rever toda a atual teoria sobre a formação do cosmos.
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O telescópio espacial James Webb observou uma população de galáxias maciças e extremamente antigas que parecem ter-se formado a um ritmo muito mais rápido do que o sugerido pelo modelo astronómico atual, segundo um estudo publicado esta quarta-feira.

Este cenário, que precisa ainda ser confirmado por análises mais avançadas, aponta para que a formação das galáxias tenha ocorrido entre 500 e 700 milhões de anos após o Big Bang, cujas estimativas indicam para que tenha acontecido há 13,8 mil milhões de anos. Ou seja, as formações de estrelas constituíram-se quando o Universo era ainda ainda bastante jovem (e, portanto, muito distante -- dado a velocidade da luz ser limitada, quanto mais longe o objeto que observamos mais para o passado estamos a olhar).

O telescópio espacial James Webb (JWST, na sigla em inglês), que está em operação desde julho de 2022, pôde explorar essa região até agora desconhecida graças a seu instrumento NIRCam e a sua potente visão nas frequências no infravermelho, que tem um comprimento de onda invisível para o olho humano mas que possibilitam observações de objetos muito distantes.

O telescópio encontrou seis galáxias muito mais maciças do que se previa nesse Universo primordial, segundo o estudo publicado na revista científica Nature. Duas delas já estiveram no foco do telescópio Hubble, mas passaram despercebidas, pois a luz que chega até nós, nas frequências do espetro visível, é muito fraca para as objetivas do velhinho instrumento.

Segundo a interpretação das novas imagens do JWST, as seis galáxias, chamadas de "candidatas" neste estágio pois a descoberta ainda terá que ser confirmada por medidas de espetroscopia, contêm muito mais estrelas do que era esperado. Uma delas teria até 100 mil milhões de estrelas.

"É mais ou menos do tamanho da Via Láctea, o que é muito impressionante", disse à AFP Ivo Labbé, autor principal do estudo.

A Via Láctea levou 13,8 mil milhões de anos para formar essa quantidade de estrelas, enquanto a jovem galáxia terá levado apenas 700 milhões de anos a formar-se, "ou seja, foi 20 vezes mais rápida", diz o investigador da Universidade de Tecnologia de Swinburne, na Austrália.

Galáxias distantes com esse tamanho não têm lugar no modelo cosmológico atual, que busca compreender como o Universo se estruturou ao longo do tempo.

"A teoria diz que, nessas idades tão longínquas, as galáxias eram todas pequenas e cresciam muito lentamente. Acreditava-se que fossem de 10 a 100 vezes menores em quantidade de estrelas", prossegue o astrofísico.

Encontrar galáxias tão grandes e tão antigas "é algo que realmente destoa", afirma Ivo Labbé.

Qual será então a explicação? Uma possível suspeita é a misteriosa matéria escura do universo, que é invisível mas a sua existência é comprovada de forma indireta, sabendo-se que compõe uma quantidade considerável do cosmos. Embora os cientistas não possam detetá-la, eles conhecem muito bem o seu comportamento e sabem que ela desempenha um papel-chave na formação das galáxias.

"A matéria escura deve aglomerar-se para formar um halo que atrai para si o gás que formará as estrelas", diz Labbé. De outra forma, esse processo de "aglomeração" deveria levar muito mais tempo.

Tudo indica então que "as coisas aceleraram-se consideravelmente" no Universo primordial, que teria sido "mais eficiente do que se pensava" para formar estrelas, nas palavras de David Elbaz, astrofísico da Comissão de Energia Atômica e Energias Alternativas (CEA, na sigla em francês) de França, que não participou do estudo.

Posteriormente, as coisas mudaram, pelo processo de expansão do Universo, que se mantém em expansão até mais rápido do que pensávamos, afirma o cientista, que participa do programa de observação do telescópio desenvolvido pela Nasa.

O tema movimenta o debate entre os cosmólogos e esta descoberta "é muito excitante, pois constitui mais um indício de que o atual modelo está em xeque", analisa David Elbaz. "Se apenas uma dessas seis galáxias candidatas for confirmada, será preciso rever a teoria", aponta.

O telescópio espacial europeu Euclid, que deverá ser colocado em órbita em meados deste ano para tentar desvendar os segredos da matéria escura, poderia ajudar a esclarecer tema.

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