TASCHEN - O editor que só publica o que gosta

<div>O alemão Benedikt Taschen construiu há trinta anos um império editorial segundo a máxima de que os livros são como pessoas. A ele se deve a publicação de autênticas obras de arte, como o livro com reproduções primorosas das obras de Leonardo da Vinci. Mas também foi ele que tornou os livros de arte acessíveis a todas as bolsas. «Sou fascinado pelo trabalho de arquitectos, pintores, artistas, por isso o que faço é comunicar o seu trabalho. E torná-lo disponível a todos.»</div> <div> </div>
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O lugar preferido da casa do pequeno Benedikt Taschen era a biblioteca. Antes de dar os primeiros passos já tirava livros das estantes e empilhava-os como peças do Lego. Aos 4 anos convocava os irmãos mais velhos para a mesma biblioteca e, sem saber ler uma linha, contava-lhes uma história de improviso. Essa foi a sua primeira experiência de comunicador. Antes de acabar o liceu começou a vender exemplares raros de banda-desenhada e em menos de um ano conseguiu juntar dinheiro para abrir uma livraria. Bastou o arrendamento de 23 metros quadrados num subúrbio de Colónia, na então Alemanha Ocidental, para o adolescente de 18 anos começar (em 1979) a sua aventura de editor de génio.Nos primeiros meses, a Taschen Comics dedicou-se à reprodução de tiras de heróis como o Super-Homem ou o Homem-Aranha. O primeiro volume a ditar o futuro do moderno império Taschen foi uma história aos quadradinhos da loira e volumosa aventureira Sally Forth, criada pelo cartoonista Wally Wood como tónico para as tropas americanas no Vietname. O princípio da história de sucesso deu-se três anos mais tarde, após a compra (com o dinheiro da mesada) de quarenta mil cópias de uma monografia inglesa do pintor belga Magritte. Em dois meses, Taschen esgotou o stock, vendido ao dobro do preço, e lançou-se na edição de livros (a maioria de arte) cuja imagem de marca é serem acessíveis quer a estudantes quer a coleccionadores.Alguns dos amigos dos seus pais (um casal de médicos) eram artistas, e não era invulgar pagarem as consultas com obras de arte. Por razões desconhecidas, Benedikt Taschen começou a desenhar obsessivamente vampiros. Aos 9 anos decidiu fazer dinheiro com a sua própria arte e convenceu os pais a alugarem-lhe um stand na Feira de Arte Internacional de Colónia. Lucrou cerca de quinhentos euros e, segundo os compradores, ganhou a reputação de vendedor tenaz. A imagem do magnata em embrião ficou registada por um fotógrafo de ocasião: um rapaz franzino de cabelo escuro (hoje é calvo), sentado de pernas cruzadas com jeans à boca de sino diante de uma mesa repleta de desenhos de vampiros.Trinta anos depois, Taschen continua a usar as lições aprendidas enquanto vendedor de livros de banda-desenhada para satisfazer o mais bizarro e leal dos clientes. «Aprendi como funciona a psicologia de um coleccionador. Uma colecção é uma obsessão: é quando querer ter uma coisa é de tal maneira obsessivo e a pessoa sente-se de tal maneira apaixonada que não admite que não a levem a sério. Por causa disto temos de dar sempre cem por cento na edição do livro mais "modesto" e garantir que qualquer cliente fique cem por cento satisfeito. Depois, qualquer que seja o assunto, queremos que seja tratado com o maior respeito e profissionalismo possíveis.»A Magritte sucederam-se livros sobre Salvador Dalí ou a fotógrafa norte-americana Annie Leibovitz. No final dos anos de 1980, os livros com a chancela da Taschen estavam traduzidos em mais de uma dúzia de línguas. Hoje, a editora publica mais de cem livros por ano, tem 11 livrarias espalhadas pelo mundo, sete delegações e emprega mais de duzentos funcionários. Tem escritórios em Colónia, Hong Kong, Londres, Los Angeles, Madrid, Paris e Tóquio, e lojas em Bruxelas, Londres, Nova Iorque, Los Angeles e Paris. Aos 50 anos, Benedikt Taschen mantém-se fiel à máxima de não aderir a regras de mercado, excepto as suas, que o mais provável é serem alteradas de livro para livro. «É raro o editor atingir o estatuto de culto e com vendas sempre em crescendo. Taschen construiu o seu império com os pilares da visão pessoal e do bom gosto. Isto é levar o produto de nicho ao extremo», diz Matt Tyrnauer, colunista da revista americana Vanity Fair e realizador do filme Valentino: The Last Emperor (Valentino: O Último Imperador), cujas entrevistas foram publicadas no livro da Taschen sobre o estilista. «Benedikt faz estes documentos notáveis com uma atenção incrível à qualidade. Está apenas interessado em criar o objecto mais completo e mais interessante, nem que seja para alimentar a sua excentricidade», acrescenta Tyrnaeur.É o próprio Taschen quem admite que há método da sua loucura. «Ponho demasiado amor e paixão nas minhas criações para me interessar pela edição massificada. Faço coleccionáveis, não descartáveis. A maioria dos livros perde a aura mal lhes tocamos. Os livros Taschen são feitos para se tornarem objectos importantes, com identidade e carácter», disse numa entrevista. Derrubar tabus é outro dos seus traços e parece tão feliz a editar cartoons gay explícitos (do autor Tom of Finland) como a revelar fac-símiles da Bíblia de Lutero, de 1534, reproduzidos a partir de uma cópia rara do original que lhe pertence. «Não acredito em distinções entre arte maior e menor», diz o editor alemão. Para ele isso é uma questão de moda: «O que é respeitável agora pode ser diferente já no mês que vem e será certamente muito diferente daqui a cem anos.»Entre os milhares de livros editados em três décadas, GOAT, dedicado ao pugilista Muhamad Ali, é «talvez» o seu favorito. «Mais do que pelo livro, é o homem por detrás do livro que me interessa. Não tenho nenhum livro preferido. É como ter quatro filhos e dizer que temos um eleito. Nos livros talvez seja ainda mais complexo porque tenho umas centenas de filhos», refere. A reputação de editor de prestígio remonta ao final dos anos noventa. Matt Tyrnauer disse que ele era «uma das poucas pessoas no mundo empresarial com a coragem de fazer exactamente o que quer e quando quer».Taschen provou essa teoria ao lançar SUMO (o nome vem dos lutadores de sumo), do fotógrafo Helmut Newton, o maior livro do século xx: mede 50 cm x 70 cm, pesa 35,4 quilos, precisa de uma base metálica para ser pousado e folheado. À Vanity Fair, Newton confidenciou: «Fiz vários livros, e posso dizer que há poucos editores como ele. Não há nenhum tão louco certamente.» Mal saiu para os escaparates vendeu uma edição limitada de dez mil exemplares e tornou-se no livro mais caro do século xx, com um preço inicial de 1500 dólares (quase 1100 euros). Hoje, atinge valores de 10 500 euros, embora a primeira cópia vendida num leilão em Berlim tenha chegado aos trezentos mil euros. SUMO foi o precursor do projecto mais ambicioso da editora: GOAT - Um tributo a Muhammad Ali, lançado em 1999. Feito ao longo de quatro anos, o livro pesa 34 quilos, mede 50 cm x 50 cm, tem oitocentas páginas de arquivo (420 imagens), fotos originais, artigos e ensaios, incluindo um do próprio Ali.Icons, uma série de livros de arte, é outra das suas colecções de culto, e está entre os livros de arte mais acessíveis do mundo. O realizador Billy Wilder classificou um dia Taschen como «uma daquelas figuras emblemáticas dos primórdios de Hollywood, um imperialista que está firme aos comandos e tem mão em tudo». Casado, pai de quatro filhos (o mais novo tem três anos e chama-se Laszlo), Benedikt Taschen mantém a sede da editora em Colónia mas vive em Los Angeles, na casa Chemosphere, em Mullholand Drive, desenhada por John Lautner em 1960. Comprou-a por um milhão de dólares (setecentos mil euros) em 1997, restaurou-a e publicou um livro sobre o arquitecto. Os amigos dizem que gosta de viver entre os «curiosos, despretensiosos e inspiradores» como o pintor David Hockney, vizinho da rua de baixo, a quem anda há anos a seduzir para um livro.Taschen tem uma colecção de arte fabulosa, que se manteve privada até 2004 quando foi mostrada em Madrid. Em 2010 vendeu três estátuas de Jeff Koons por 7,6 milhões de euros e é conhecido por presentear regularmente a mulher e os três filhos mais velhos com obras de arte. Nada o encanta mais do que falar dos seus últimos projectos de livros, como o mais recente (ainda em preparação) sobre James Bond e a família Broccoli (Albert Broccoli foi o produtor dos primeiros filmes de 007 e agora a filha Barbara segue-lhe as pisadas) para celebrar os cinquenta anos dos filmes do mais célebre espião inglês. Antes da saga Bond ainda sairá The Big Butt Book, resultado de um trabalho de pesquisa de quatro anos para reunir imagens históricas de grandes rabos.O tipo dos livrosAinda hoje quem mencionar o nome Taschen num meio literato arrisca-se a ouvir a expressão «sim, esse tipo dos livros». Os puristas podem torcer o nariz e negar a importância dos textos, mas o mais certo é renderem-se às imagens e ao grafismo dos livros editados pelo alemão. A pergunta mais frequente é: como é que ele foi capaz?O mistério desvenda-se muito facilmente entrando numa das 11 livrarias Taschen. Por exemplo, a da Place du Grand Salon, em Bruxelas, de chão em macadame com os livros dispostos um a um, como jóias, entre afamadas casas chocolateiras e a fina-for dos antiquários. Ou na mais vistosa de todas, na Califórnia, em North Beverly Drive, vizinha das lojas de alta-costura e das mansões de Beverly Hills, ou ainda na Praça do Duque de York, no bairro londrino de Chelsea.O paradoxo, e uma máxima inconfundível do estilo provocador de Benedikt Taschen, será encontrar as suas livrarias nas zonas mais sofisticadas do mundo e os livros de arte mais baratos do mercado. Embora a literatura de arte seja um dos pontos fortes de Taschen - e há livros magníficos sobre Picasso, Monet, Bacon, Duchamp, Dalí, Tamara de Lempicka... -, o catálogo abrange a arquitectura ou o cinema, tomos memoráveis sobre Frank Lloyd Wright, Zaha Hadid, Orson Welles ou Stanley Kubrick. Há ainda livros de antologia sobre carpetes orientais, capas de discos, tatuagens, a sequência de volumes sobre grandes seios, grandes pénis e grandes pernas, biografias de estrelas da pornografia como Vanessa del Rio (o lendário Fifty Years of Slightly Slutty Behavior), hotéis de luxo e até exemplares sobre as Cruzadas e os Templários.Outra das singularidades da Taschen é ter-se mantido na posse de apenas um dono, reflectindo assim a sua personalidade e entusiasmo. No mundo dos livros, Benedikt Taschen é visto como um freak anacrónico, um autocrata, um tubarão, um magnata excêntrico que gosta de ver o nome inscrito nos seus livros em letras gordas. Na América, o seu maior mercado, Taschen é considerado como uma síntese de Howard Hughes, Hugh Hefner e Citizen Kane. «Benedikt nunca faz estudos de mercado nem trabalha com observadores de tendências para orientar a edição dos seus livros», explica Dian Hanson, editora da chancela sexy books durante nove anos. «Taschen mantém-se irredutível a publicar apenas o que gosta, e isso é o que faz desde o primeiro instante. Quando vim trabalhar para a editora, alguém me disse que o nosso trabalho era aprender o Benedikt. Aprender o que ele quer e o que ele gosta e levar-lhe isso. E isso nunca muda. Há quem me pergunte se ele mete o dedo em tudo o que se passa. No dia-a-dia não, mas o dedo está sempre nas nossas cabeças, é ele que nos governa.»Apesar do mito, Taschen não se tornou no que é hoje sozinho. Além do faro para a edição é considerado um perito em recursos humanos. No caso de Dian Hanson, ex-editora de revistas de prestígio em Nova Iorque, conta-se que terá sido o próprio a fazer-lhe um telefonema anónimo a marcar um jantar em Manhattan. «Julguei que era um blind-date e apareceu-me um cavaleiro teutónico», conta a editora no seu site. O alemão teria na altura pouco mais de 30 anos e já publicara grandes sucessos sobre Magritte, Matisse e Marilyn Monroe. «Não fazia ideia de quem era este homem muito emproado e muito alemão que falava de livros como de pessoas, mas tenho a certeza que nunca vi ninguém assim.» O maiorSUMO, de Helmut Newton (1920-2004), é uma homenagem de 480 páginas ao fotógrafo mais influente do século xx. Um livro titânico e controverso em todos os aspectos, desde o peso (35,4 quilos) às dimensões (50x70 cm) e preço de venda: depois de o primeiro volume ter atingido a soma recorde de trezentos mil euros num leilão em Berlim, foram lançados exemplares acessíveis para a audiência típica da Taschen.A alma de Nova IorqueNew York, Portrait of a City: The Soul of New York conta a história épica de Nova Iorque em seiscentas páginas de emoção, atmosferas fotográficas desde o século xx aos nossos dias. Além das imagens há mais de uma centena de citações e referências a livros, filmes, espectáculos e músicas relevantes na história da cidade. Desde as noites loucas da Era do Jazz aos atentados de 11 de Setembro, passando pela Grande Depressão ou os anos do disco sound. Inclui centenas de imagens retiradas de arquivos nacionais e de colecções privadas - muitas delas inéditas.As fotos de Dennis HopperDurante os anos sessenta, o actor Dennis Hopper levou uma máquina fotográfica para toda a parte, do set dos filmes a festas, jantares, idas a bares e galerias, viagens ou manifestações. A Taschen publicou The Many Worlds of Dennis Hopper, com fotos de ídolos do cinema, estrelas pop, escritores, artistas, namoradas e estranhos. Ao longo dos anos acabou por fazer o registo de alguns dos momentos mais intrigantes da sua geração com um olho atento e intuitivo. Ali estão Tina Turner em estúdio, Andy Warhol na sua primeira performance, Paul Newman em acção ou Martin Luther King na marcha pelos Direitos Civis de Selma até Montgomery, no Alabama.O Napoleão de KubrickNo top dos livros Taschen está Stanley Kubrick"s Napoleon: The Greatest Movie Never Made, um ensaio de dez volumes em um sobre o filme nunca realizado por Kubrick sobre o imperador francês. Durante quatro décadas os fãs do cineasta Stanley Kubrick perguntaram-se onde andaria o filme mais misterioso (e nunca realizado) sobre a vida de Napoleão Bonaparte. Pré-produzido logo após a estreia de 2001: Odisseia no Espaço, Napoleon foi pensado para ser um estudo de carácter e um épico, com a grandiosidade das cenas de batalha. Para escrever o argumento, Kubrick embarcou numa pesquisa de dois anos com a ajuda dos mais reputados especialistas de Oxford. Na busca obsessiva, Kubrick juntou mais de 15 mil localizações e 17 mil slides. O filme nunca chegou a ser feito mas as pesquisas e o guião ficaram guardados à espera da mão de Taschen.Pedras da LuaOutro livro épico da Taschen é MoonFire, uma celebração da primeira ida à Lua com centenas de imagens e mapas da NASA e o ensaio memorável do escritor Norman Mailer publicado na revista Life. A primeira edição foi limitada a 1969 exemplares, ecoando a missão da Apolo 11 e doze exemplares vinham com verdadeiras pedras lunares. Para quem não pode dispensar 1100 euros foram agora postos à venda, para assinalar os trinta anos da Taschen, exemplares a 29,99 euros.

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