Sudão em árabe é nome de cor

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"Soudan", em árabe, significa negro, preto. Falo de cores, mas se quiser falar de pessoas ou topónimos que identifiquem características de populações, peço-lhe que faça o seguinte exercício. Leia Níger à inglesa e, na continuação desse sotaque, divida a palavra Nigéria quase ao meio. Trata-se de países cuja presença inglesa deixou a sua marca, tão indelével, que hoje não nos apercebemos destes detalhes, entrando os mesmos pelos nossos olhos adentro.

O Sudão entrou nesta semana em novo turbilhão golpista, desde o último, que depôs o ex-presidente (PR) Omar al-Bashir, em abril de 2019. Desde então vários outros golpes foram ensaiados, mas todos falharam. O último desses ensaios aconteceu precisamente há um mês, com o governo agora deposto a identificar "forças obscuras" ligadas ao ex-PR Bashir enquanto responsáveis do mesmo.

A "abrilada sudanesa" de 2019 teve como ícone Alaa Salah que, vestida com um thobe branco (a túnica tradicional local) e em cima de um carro também branco, cantava "revolução" frente ao quartel-general de Cartum, a capital. O pequeno filme deste momento tornou-se viral nas redes sociais, criando e consubstanciando a ideia de que esta revolução tardia, no contexto da já ida Primavera Árabe, estaria a ter nas mulheres o seu grande motor. De tal forma que estas agentes de mudança ganharam o título de kandaka(s), exclusivo das rainhas núbias do Sudão antigo. A reivindicação era clara, acabar com o regime dos militares e transferi-lo para os civis.

Desde agosto de 2019 que foi criado o Conselho Soberano, um governo de transição que inclui civis e militares. Desde então e no contexto desta abrilada e da constituição do Conselho Soberano, surgiram no Sudão pelo menos 80 partidos políticos. É natural que não se entendam e também é natural que os militares não tenham muita paciência para debates.

Do ponto de vista geopolítico, a República do Sudão aderiu aos Acordos de Abraão, em janeiro, que enquadraram a normalização das suas relações diplomáticas com Israel, certamente assunto não consensual num Sudão que chegou a dar guarida a Osama bin Laden na primeira metade da década de 1990. A controversa Barragem do Renascimento no Nilo etíope também é assunto sudanês, já que este rio atravessa este território, encontrando-se o mesmo no meio de uma querela entre Egipto e Etiópia, com o agora aliado israelita a ter imperativo interesse no controlo das águas do Nilo, que se sabe, desde os tempos dos faraós, que quem controlar este rio, controla o Egipto.

Esta iniciativa militar em descartar os civis do Conselho Soberano ainda vê a procissão no adro. A mobilização cívica, sobretudo na capital, poderá ver novas iniciativas, estando estas também avisadas, após o exemplo de junho de 2019, quando a multidão, embalada pelas kandakas, insistiu nos acampamentos frente ao quartel-general de Cartum e foi varrida a tiro pela tropa do ainda PR al-Bashir, matando pelo menos 100 civis e ferindo outros 700, todos desarmados.

A propósito da situação no Sudão, António Guterres referiu-se, na sede das Nações Unidas nesta semana, ao actual desafio da ONU em lidar com esta "epidemia de golpes em África"!

Politólogo/arabista. www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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