Sons de expressão global Depois do esplendor do 'boom' Há algo para agradar a todosOs altos e os baixos dos filmes Portas para a América Latina

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O espaço musical ibero-americano é um dos mais activos do presente. Tanto que, de há uns anos a esta parte, foi inclusivamente criada uma premiação à parte nos Grammys (os Grammys latinos), procurando assim abarcar, com uma outra amplitude, não apenas o volume (e variedade) da produção, mas reflectindo igualmente a vastidão de um mercado que tem hoje expressão global.

A existência de um espaço cultural latino-americano faz por vezes com que as fronteiras de certas expressões musicais não se fechem. Por exemplo, se o tango tem um cunho marcadamente argentino (a escutar desde as leituras clássicas de Carlos Gardel, nascido na Colômbia, às visões renovadoras de um Astor Piazzola) já a salsa cruzou as fronteiras cubanas para se ramificar por vários pólos de acção. Joy Arroyo, por exemplo, é uma figura-chave da salsa colombiana. Juan Luis Guerra, natural da Republica Dominicana, foi um dos rostos mais visíveis de um interesse global pelo género em meados dos anos 90.

Dos ritmos cruzados com o latin jazz nos anos 50, o festim dançante latino-americano deu ao mundo o cha cha cha, o mambo, a rumba… Tito Puente, Machito ou Tito Rodriguez são alguns dos seus primeiros rostos exportados, levando a música da sua Cuba natal para pistas de dança de todo o mundo. Um importante reencontro com a música cubana partiu, já nos anos 90, do sucesso de um projecto do norte-americano Ry Cooder (registado depois num documentário por Wim Wenders). Sob a designação Buena Vista Social Club, o colectivo deu a conhecer a todo o planeta a arte de veteranos como Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Ruben Gonzalez, Omara Portuondo ou Eliades Ochoa.

O espaço geográfico (Américas e Península Ibérica) sugere a possível classificação de mercado, como latino-americana, a músicas depois tão distintas quanto o são a que nos chega do Brasil, a que descende das tradições andinas ou mesmo o flamenco.

O espaço da música latino-americana produziu já estrelas pop que vão de um Ricky Martin a uma Gloria Estefan. Conhece no francês Manu Chao uma referência para muitas das suas novas bandas pop/rock. Mas tem talvez no maestro venezuelano Gustavo Dudamel a grande estrela do momento.

Logo no início de um livro que deveria ser urgentemente traduzido em português (Diccionario del amante de América Latina), escreve Mario Vargas Llosa: "Descobri a América Latina em Paris, nos anos 60. Até então tinha sido um jovem peruano que, além de ler os escritores do meu próprio país, lia quase exclusivamente escritores norte-americanos e europeus, sobretudo franceses." O autor de Conversa na Catedral (escrito por esses anos) conhecia então apenas algumas celebridades (Pablo Neruda, Jorge Luis Borges) e confessa que jamais pensara na América Latina como uma comunidade cultural, mas "como um arquipélago de países muito pouco relacionados entre si".

De facto, foi o famoso boom, lançado a partir de Paris e de Barcelona, que deu a conhecer ao mundo um conjunto de escritores que, mais do que pertencentes aos seus próprios países, formavam uma espécie de vanguarda da literatura latino-americana. Em apenas seis anos, entre 1962 e 1968, surge um punhado de obras que põe definitivamente no mapa um subcontinente então mais conhecido pelas ditaduras: A Morte de Artemio Cruz, de Carlos Fuentes (mexicano), A Cidade e os Cães e Conversa na Catedral, de Vargas Llosa (peruano), El Astillero, de Juan Carlos Onetti (uruguaio), O Século das Luzes, de Alejo Carpentier e Paradiso, de Lezama Lima (ambos cubanos), Rayuela, de Julio Cortázar (argentino) e Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez (colombiano). Essa década prodigiosa seria coroada em 1967 com a atribuição do Nobel da Literatura a Miguel Angel Asturias (autor de O Senhor Presidente), um escritor da Guatemala da geração anterior.

A história desses anos está bem descrita no livro do chileno José Donoso Historia Personal del 'Boom'. O êxito deste foi, paradoxalmente, a sua maior ameaça quando subitamente de todo o lado começaram a brotar romances à maneira dos Cem Anos de Solidão. Só o novo fôlego das democracias latino-americanas fez surgir uma nova geração, liberta do peso do "realismo mágico" e cujo principal nome é talvez o do chileno Roberto Bolaño (2666).

O Comité Nobel reconheceu cinco obras: Gabriela Mistral (Chile, 1945), Miguel Angel Asturias (1967), Pablo Neruda (Chile, 1971), Garcia Marquez (1982) e Octavio Paz (México, 1990). Entre os muitos ignorados ficam os autores do Brasil: poetas como Carlos Drummond de Andrade ou João Cabral de Melo Neto e romancistas como João Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Clarice Lispector. Toda uma literatura e pelo menos seis nomes que honrariam o Nobel.

Que tipo de férias gosta de fazer? Escolha o que escolher, há um destino para si num dos 19 países da América Latina que fazem parte da comunidade ibero-americana.

Se é fã das praias, delicie-se com as águas quentes das Caraíbas, quer seja nos cayos em Cuba, nos resorts com o pacote de "tudo incluído" da República Dominicana ou do México, ou mais a sul no nordeste brasileiro, que é já a segunda casa para muitos portugueses.

Se pelo contrário gosta é de frio, nada melhor do que a Patagónia chilena e argentina, com os seus glaciares. O mais conhecido é o Perito Moreno, a terceira maior reserva do mundo de água doce. O glaciar continua a avançar e pode sempre ter a sorte de assistir à queda de grandes blocos de gelo na água.

Por outro lado, se a sua paixão é a natureza, é impossível escapar à floresta Amazónia, que ocupa quase um terço do continente sul-americano - e é partilhado por seis dos 22 países da comunidade ibero-americana. Na América Central, há contudo um país que fez dos seus parques naturais imagem de marca e hoje atrai os turistas sedentos de vida selvagem, a Costa Rica.

Se para si férias é sinónimo de História, então vá conhecer as culturas pré-colombianas. No México, não perca a pirâmide maia de Chichen Itza - uma das sete novas maravilhas do mundo em 2007. No Peru, o destaque vai para as famosas ruínas incas de Machu Picchu - o local mais visitado pelos turistas. Mas não precisa de recuar tanto na História: pode sempre visitar o estado de Minas Gerais, e aprender mais sobre a época colonial no Brasil.

Mas se é daqueles turistas citadinos, perca-se pelas ruas de Buenos Aires - aproveitando para dar um pulinho a Montevideu, logo do outro lado do Mar del Plata. Ou deixe-se seduzir por uma das maiores metrópoles da América Latina, São Paulo. Não se esqueça do Rio de Janeiro, com o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor.

Seja qual for o destino que escolher: tenha cuidado. Porque depois de ir uma vez à América Latina, o mais certo é querer voltar.

A etiqueta "Novo Cinema Latino" foi criada para agrupar, sob um mesmo guarda-chuva, uma nova geração de realizadores de vários países do espaço latino-americano. Mas é das nações economicamente mais fortes, como o Brasil, a Argentina ou o México, com cinematografias de tradição mais criativa e com regularidade de produção e continuidade industrial (mesmo cconsiderando os altos e baixos), que têm saído bastantes dos filmes mais aliciantes dos últimos anos.

Revelados ao mundo nos grandes festivais internacionais, nomes como os mexicanos Guillermo Del Toro, Alfonso Cuarón, Carlos Reygadas ou Alejandro González Iñárritu, os argentinos Lucrecia Martel, Fabian Bielinsky (este entretanto falecido), Carlos Sorín, Lisandro Alonso ou Pablo Trapero, ou os brasileiros Andrucha Waddington, Fernando Meirelles, José Padilha e Walter Salles. Eles continuam a obra de Emilio "Indio" Fernández e Arturo Ripstein (México), de Fernando Birri, Leopoldo Torre-Nilsson, Luiz Puenzo ou Fernando Solanas (Argentina), de Humberto Mauro, Lima Barreto, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Carlos Diegues, Arnaldo Jabor, Júlio Bressane e Bruno Barreto (Brasil).

Apesar dos constrangimentos políticos, económicos e culturais, outras cinematografias latino-americanas, com pergaminhos ou emergentes, caso da cubana (com nomes como Humberto Solás, Tomás Gutiérrez Alea ou Juan Carlos Tabio), da peruana (é do Peru o primeiro filme de animação 3D da região, Piratas del Callao, de 2005, e La Teta Asustada, de Claudia Llosa, ganhou este ano o Festival de Berlim) ou da chilena, são também merecedoras da atenção cinéfila.

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