Fez novelas em épocas distintas, que diferenças nota com a chegada da TV Globo?.Já em Perfeito Coração tinha notado diferenças ao nível da construção do texto. As cenas muito explicativas horrorizam-me porque preparam o público como se fosse estúpido, que não é, e torna as cenas enfadonhas, o que é triste. Agora está mais interessante, mesmo para os actores. Era uma chatice estar ali a encher chouriços, como se diz (risos). Em Laços de Sangue, há consistência na estrutura dos jogos entre as personagens, que não são tão lights a nível psicológico..Esteve fora das televisões e parece que a redescobriram no remake de Vila Faia..Tive vários convites antes, mas recusei porque queria fazer outras coisas como escrever, fiz outro livro a seguir às crónicas [Quase Nós]. Fiz também umas séries com franceses. Aceitei Vila Faia porque achei interessante, era a primeira novela portuguesa e havia um carácter afectivo..Não se sentiu esquecida?.Não, não estava nem aí..Vai estar em duas frentes, acumula Laços de Sangue com a série da RTP1 Voo Directo..Na série fiz uma participação especial, uma editora de moda, rígida, pouco simpática, mas que depois revela um lado mais frágil..O que é que a Adelaide da novela da SIC tem de particular?.Não tem qualquer censura no cérebro, está muito mal e acaba por se desresponsabilizar desse mal-estar. É tão diferente do que sou que acaba por ser um exercício muito interessante. Ela é um touro, rompe com tudo, está-se nas tintas para os outros e para o que pensam. Diz o que os outros não dizem. Tal como muitas mulheres e homens na vida real, desiludiu-se e desresponsabilizou-se. Mais de 80% das pessoas vitimizam-se..Alguma vez se sentiu neste ponto em relação ao amor ou à vitimização?.Não, nunca. Por isso é que não me identifico. Tenho de me afastar de coisas minhas e trabalhar para me tornar mais infantil em alguns aspectos, o que para um actor não é nada fácil..Como se preparou?.Falei com duas pessoas que passaram pela dependência do álcool e que faziam cenas do tipo de levarem os amantes para casa, de estarem eufóricas e depois terem grandes depressões. Uma delas está muito doente e a outra conseguiu largar com a ajuda de todos e continua casada. Aliás, toda a família teve de se envolver, fazer terapia de grupo e entrar num jogo de vítima, de salvador e depois de perseguido. É preciso o parceiro deixar o alcoólico caído, com o vomitado em cima e o tratamento consiste em cortar esse jogo todo. É muito difícil fazer este papel porque é preciso subtileza, o verdadeiro alcoólico nunca está a cair, está sempre no limbo..Elas estão a gostar de a ver na novela?.Falei com uma que está a gostar..Como gostava que a Adelaide acabasse?.Gostava que crescesse e pudesse usufruir mais do prazer da vida e estar menos zangada com o mundo à sua volta..Vai agitar consciências?.Vai irritar algumas pessoas, homens e mulheres. Com a personagem do Ricardo [Carriço] ela vai assumir um papel um bocadinho masculino, fálico... e isso vai irritar muita gente. Muitas mulheres também gostariam de fazer como ela, mas vão perceber que não têm coragem..A Sofia tem 46 anos e a Adelaide 55. Como se sente?.Acho que se enganaram nas idades porque ela pode ter um bocado menos. Para ter um filho de 30 pode perfeitamente ter 50 anos..Isso perturba-a?.Se fizer contas, sei a minha idade, mas não ligo nada à idade cronológica das pessoas, ligo à emocional. Até porque tenho uma avó com 91 anos, Maria Helena Branco, que continua a fazer tudo. Ela capotou o carro há dias, partiu a clavícula. Telefonei-lhe e ela já queria fazer coisas. "A clavícula foi ontem, hoje é outro dia. Tenho de continuar as minhas aulas", disse-me. Ela é uma referência para mim, porque afinal o que conta é o presente. Ela tem uma vitalidade incrível, levanta-se às cinco da manhã, trabalha 12 horas por dia. Dá aulas de piano e foi ela quem introduziu o ioga em Portugal..Tem companheiro?.Não falo sobre isso..Voltaria a casar?.Não sei, não respondo a esse tipo de perguntas..Como se dá com o Nicolau [Breyner, ex-marido] e com o pai dos seus filhos?.Dou-me muito bem com o Nicolau, somos amigos. Ele tem uma característica espectacular, é anti-mesquinho e eu gosto muito disso. Tenho uma excelente relação com as pessoas com quem partilhei algum período da minha vida..Foi bom ter sido mãe tão nova, aos 18 anos?.Há a lei da compensação na vida. Hoje é óptimo ter uma filha crescida [Inês] e com quem tenho uma empatia espectacular. Somos muito próximas, mas também há situações em que, por sermos novas, não temos maturidade..Onde achou que podia ter sido melhor?.Foi o que foi possível. Não fico nos 'ses' nem nas culpabilidades. O que tento é viver sempre melhor o presente, mais consciente. Houve coisas boas e más, mas o resultado foi positivo. Falamos todos os dias, partilhamos ideias, pensamentos....Mas o que a levou a tomar essa opção?.Também tenho uns pais [José e Clara] novíssimos. É pelo menos transgeracional este script [guião]. Só os meus filhos quebraram a regra, felizmente..Fala mais da sua avó do que dos seus pais, como é a relação com eles?É óptima e sempre foi. São pessoas que nunca viram os filhos como prolongamentos, sempre foram muito autónomos de nós..Como foi a sua infância?.Muito criativa. O meu pai é muito criativo, é arquitecto. A minha mãe é psicóloga e, depois, tenho uma família cheia de compositores..É uma das perguntas mais comuns sobre si: recorreu ao botox nos lábios?.Não. Basta ver as minhas fotografias de infância (risos)..Pratica exercício físico?.Sim, pratico, gosto de Pilates. Também somos corpo, é o que nos mantém até ao fim. Se o trabalharmos, dependeremos menos dos outros..É fã da cirurgia estética?.Nós vivemos na cultura do novo, bonito e rico, cada vez mais, com consequências graves. Não vejo mal nenhum nas pessoas que querem corrigir um nariz torto ou possam melhorar alguma coisa, mas devem apostar na boa psicoterapia e preencherem-se mais por dentro do que estarem à procura de corrigir por fora os vazios internos..Mas o mundo onde trabalha, a televisão, é implacável com a beleza.Felizmente não é como os bailarinos, que têm uma carreira curta..Ainda há papéis para velhos... mas são menos..Até eles têm de obedecer a padrões..Espero que leve uma volta. Acho admirável que a Simone de Oliveira não se tenha submetido a cirurgias. O mundo está cheio de coisas terríveis e temos de lutar contra elas..Em que é que gostava de ver isto mudado?.A maneira como as pessoas se tratam a si próprias. Eu acredito no indivíduo e tenho esperança de que, individualmente, façam por melhorar. Esta consciência que tenho de que o dia pode ser sempre o último momento torna a vida muito mais sagrada e interessante. Gosto de arriscar tudo..Qual foi o maior risco?.Tantos... não há um maior. Não faço planos, é um risco..Pedir um empréstimo é fazer um plano....Nunca pedi (risos). Essa coisa das pessoas que estão preocupadas com a vida e com o futuro... A minha avó vive assim, o momento!.Está a escrever um livro....Isso mesmo, estou a escrevê-lo. Não é um plano..Foi educada assim?.Tem que ver com uma vida familiar e não vou falar de outras pessoas.