As alterações climáticas derivadas do aquecimento global já não são assunto que apenas sensibilize os ortodoxos do ambiente. Esta é uma das alterações qualita-tivas do debate sobre o futuro do planeta. O relatório dos peritos da ONU divulgado esta semana confirma todos os indícios alarmantes conhecidos e deixa a certeza de que a tendência futura é de agravamento. A subida da temperatura, o degelo das calotes polares, com a consequente elevação do nível dos oceanos, e a desregulação crescente dos fenómenos meteorológicos são algumas das consequências visíveis. Não são cenários do amanhã. Estão aí. A erosão crescente da costa, as cheias mais abundantes ou os furacões mais numerosos já fazem parte do presente. O tempo urge e é precisa acção política consequente, mais do que as habituais palavras preocupadas..O Protocolo de Quioto foi o primeiro instrumento internacional para combater o aquecimento global. Se os seus subscritores o cumprirem (já são 136 países), espera-se uma redução de 5,2% das emissões de gases poluentes. Será um avanço, mas curto. Os principais estados poluidores - os EUA, a China e a Índia - estão de fora. Ainda hoje, apesar das evidências científicas, se gasta dinheiro a tentar inculcar a ideia de que o aquecimento global é uma manobra de ficção..A evidência científica deve obrigar-nos a todos a novos comportamentos. É necessária uma maior exigência política que obrigue ao cumprimento de regras mais compatíveis com as possibilidades ambientais. O uso mais racional da energia, seja na indústria automóvel ou na construção de edifícios, é decisivo para atenuar os desequilíbrios..Jacques Chirac apelou ontem, na Conferência Internacional de Paris para uma Governança Ecológica Mundial, a uma revolução. Chirac diz que o tempo não é para meias-medidas. Propôs uma organização das Nações Unidas para o ambiente, tal é a dimensão do desafio. Durão Barroso lembrou as mais de 400 convenções e protocolos ambientais que não são coerentes e precisam de ser coordenados. Há muito a fazer em termos de acção política. .Não é apenas Chirac que percebeu finalmente o risco que enfrentamos. Tony Blair juntou-se a Al Gore no debate sobre as verdades inconvenientes que desagradam a muitos negócios. George W. Bush fez uma referência ao ambiente no discurso do estado da nação. É um pequeno passo. Talvez um começo. Os EUA são importantes para a reviravolta no modo de vida mundial. Como diz o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos de Londres, "os EUA são suficientemente fortes para estabelecerem uma agenda internacional, mas demasiado débeis para aplicar essa agenda à escala global". O esforço que é pedido é político e é global. Até porque os custos humanos e económicos da inacção são já brutais e vão agravar-se.