A falar hoje no painel "Fronteiras: um conceito mais vasto", nas Conferências do Estoril, Pedro Calado apontou que é incontornável que as gerações atuais e as futuras cresçam em sociedades cada vez mais diversas e plurais, graças à crescente mobilidade. ."Temos de ver nesta realidade uma oportunidade e não um problema", defendeu o Alto-Comissário para as Migrações..Pedro Calado lembrou que dos cerca de 7 mil milhões de habitantes no mundo, apenas 3% da população é migrante ou refugiada e salientou que nas últimas décadas os fluxos que mais aumentaram foram do hemisfério sul para norte e dentro do hemisfério sul. .Por outro lado, apontou que, apesar de a maioria dos imigrantes estar concentrada no hemisfério norte - entre cerca de 240 milhões de pessoas em mobilidade no mundo -- a maioria dos refugiados estão concentrados em países como o Paquistão, Irão, Turquia, o Líbano ou a Jordânia. ."O que significa que aquele milhão, 1,2 milhões de refugiados que chegaram à Europa não são, neste quadro global, uma crise e talvez devamos ter algum cuidado quando usamos este tipo de conceitos", defendeu..Sustentou, por isso, que as migrações mais não são do que a tentativa humana de corrigir dificuldades como de crescimento, demográficas, ambientais ou de paz, denunciando aquilo que é atualmente o paradoxo das migrações.."Se para alguns migrantes, como investigadores, investidores, empresários, o mundo é de facto uma aldeia global em que as fronteiras se esbatem e a mobilidade é crescente, para outros continua a ser um mundo em que as migrações se fazem apenas e só de uma utopia e fronteiras intransponíveis, havendo também o aumento de muros físicos que tentam impedir essa mobilidade", criticou..Lembrou, a propósito, que por cada imigrante ou refugiado em Portugal, há 10 portugueses pelo mundo..Pedro Calado aproveitou o momento para mostrar as discrepâncias no mundo, revelando que durante a hora de duração do painel de debate iriam nascer oito crianças em Portugal, contra 600 nos Estados Unidos, 2.440 na China ou 3.510 na Índia..Apontou que nenhum país do hemisfério norte consegue garantir a renovação das gerações, já que nenhum consegue assegurar o Índice Sintético de Fecundidade, que é de 2,1 filhos por cada mulher..Número que quase todos os países do hemisfério sul ultrapassam, dando como exemplo países como o Níger, onde cada mulher tem, em média, 6,6 filhos, ou o Afeganistão, onde a média está nos 5,2 filhos por mulher..Já se o mapa tivesse a ver com a riqueza produzida, a realidade seria completamente diferente, com a Ásia sub-representada, ou a Europa e os Estados Unidos proporcionalmente maiores ao que é a sua superfície terrestre.