Sobrevivência

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Quando o governo cedeu às pressões e recuou na intenção de deixar que o Forte de Peniche fosse entregue a privados, José António Correia, presidente da autarquia onde fica o edifício histórico, foi o primeiro e mais acérrimo opositor da desistência. As suas razões eram simples e lógicas: durante anos, o Estado pouco ou nada fez contra a degradação da fortaleza, "não gastou um cêntimo" na sua conservação nem apresentou alternativa aos planos para deixar que um grupo hoteleiro nela pegasse e a reabilitasse, ainda que para fins privados. O governo não viu ou não quis entender o que era claro para o autarca que todos os dias assistia e assistirá à morte lenta do Forte de Peniche: antes continuar a existir, renovado ainda que explorado por privados, do que vê-lo cair de podre como património público de má memória. Na balança do governo, porém, terão pesado mais os protestos de alguns e a coisa ficou por ali, com promessas de que o património será conservado com a memória dos fins que serviu. A ver vamos se haverá plano e dinheiro e decisão que chegue a tempo de o salvar da ruína. Hoje é conhecida a lista completa dos 30 edifícios históricos que deverão ser entregues para reabilitação e exploração, numa receita semelhante a uma parceria público-privada que pretende conservar e valorizar o nosso património sem gastar dinheiro que o Estado não tem. São fortalezas, conventos, santuários, mosteiros e quartéis e a passagem para mãos privadas de alguns deles é suscetível de causar resistências a quem continua a acreditar que o Estado deve ser o provedor todo-poderoso e que quem tem dinheiro e iniciativa tem de ser punido e não encorajado. Seria, por isso, importante - há que ter esperança - que desta vez o governo se mantivesse firme. Ter oposição é algo natural quando se está no papel de decisor. Mas é essencial saber quando se deve negociar e quando se tem de insistir numa posição, decidir mesmo que em contracorrente. É essa persistência que não temos visto - muitas vezes com o custo de deixar morrer boas ideias. É fundamental que não se deixe cair esta.

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