José e Miguel colocam o robô no labirinto. Três, dois, um, partida. A máquina vai a um quarto, depois a outro. O cronómetro está a funcionar. José e Miguel inquietam-se. No último quarto, o robô detecta uma vela. Dirige-se a ela e liga uma ventoinha. A chama apaga-se em segundos. O robô volta ao local de partida. Prova superada. José e Miguel festejam, mas isto foi apenas um treino - o concurso mundial de robô bombeiro é só no domingo. Nesta tarde de sábado eles ainda nem imaginam que ADoT2, o robô que construíram nos últimos nove meses, será escolhido como o melhor do mundo, dentro de 24 horas..José e Miguel são dois dos cinco jovens que a Associação Desenvolver o Talento (ADoT), da Guarda, trouxe ao Concurso Internacional de Robôs Bombeiros no Trinity College, realizado nos dias 9 e 10 de Abril em Hartford, no Connecticut, Estados Unidos. Com 13 e 12 anos, respectivamente, são os mais novos concorrentes. João Silveira, 15 anos, e Gonçalo Nobre, 14, formam a equipa ADoT1 que participa na Walking Division. Tiago Caldeira, 23 anos, fecha o lote dos portugueses e compete na categoria sénior com o NewTechRobot. EXPLICAR AQUI UM POUCO O QUE E O EVENTO .Imediatamente após o treino, Zezito - é assim que todos tratam José - e Miguel regressam à mesa de trabalho. «O robô arrastou uma das paredes no regresso, temos de alterar alguns valores da bússola», explica Miguel. Ligam um cabo do robô a um portátil e os pequenos dedos dos jovens dedilham o teclado alterando as definições de um software com 1653 linhas de programação. «Se não mudo isto agora, não durmo bem», diz Zezito. Tiago trabalha no seu robô, mas está sempre a desviar o olhar para o computador dos mais novos. Se não fosse por ele, talvez os robôs da Guarda nunca tivessem descoberto o caminho para a América..Maria Goretti Caldeira, mãe de Tiago, percebeu que o filho era diferente na escola primária. «Aborrecia-se com a matéria, chegava a casa com os trabalhos feitos e tinha dificuldade em relacionar-se com os colegas», explica. Com 8 anos, Tiago registou-se na Bolsa de Lisboa, comprou acções do Sporting e ganhou dinheiro. Depois, poupou quatrocentos euros para comprar um telescópio. Com 11 anos, pediu para fazer uns testes na Universidade de Coimbra. O resultado provou que não era uma criança vulgar. .Os pais receberam a notícia e começaram a conduzir 204 quilómetros a cada duas semanas para levar o filho aos encontros da Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas, no Porto. Depois de algumas reuniões, Tiago desabafou: «Afinal não sou assim tão estranho, há outros como eu.» Goretti é educadora de infância, conhecia outras crianças como o Tiago. Já tinha visto um aluno seu, com 3 anos e meio, a ler sozinho na sala de aula. «Mas era a primeira vez que tinha um dentro de casa», diz. Conversou com o marido, António Caldeira, e decidiram formar um pólo da associação na Guarda. .O casal pediu um espaço do auditório municipal para fazer uma sessão pública de esclarecimento. «Tínhamos falado numa sala pequena, mas deram-nos o auditório com capacidade para 250 pessoas», recorda António. A sala encheu. Pouco tempo depois, tinham vários alunos inscritos na associação, como Miguel, que aos 4 anos aprendeu a tocar clarinete num mês e meio..Goretti conta que, em 2001, o aparecimento da associação foi um acontecimento na Guarda. «Havia muita curiosidade. Na primeira visita que fizemos, a um museu, as pessoas vinham ao nosso encontro e diziam: "Ah, estes é que são os sobredotados?"» Mas quando pediram a uma escola para anunciar a abertura da nova associação, a resposta da directora foi esta: «Sobredotados? Não temos cá disso.» Para combater o estigma, cada aluno convidou um «amigo do peito» para as actividades da associação. Quando foram a um encontro em Viseu e viram uma criança com deficiência chorar porque não conseguia ligar um robô, começaram a adaptar brinquedos para estas crianças. Goretti acredita que «são coisas assim que fazem as pessoas ver-nos de maneira diferente»..As aulas de robótica começaram em 2006. PRECISAVA AQUI DE UMA EXPLICAÇÃO PORQUE E QUE ELES SE DEDICARAM AOS ROBÔS No mesmo ano, venceram uma das categorias do campeonato nacional e desde essa altura que participam em competições internacionais. O financiamento é quase em exclusivo privado, sendo o maior patrocinador a Fundação Montepio. Este é o terceiro ano da associação em Hartford. Em 2010, conquistaram duas medalhas de bronze. O fundador do concurso, Igor Verner, do Instituto de Tecnologia de Israel (Technion), garante que nestes eventos «os portugueses são sempre muito educados e criativos». Explica também que «a construção dos seus robôs nunca se limita à montagem de um kit»..O pólo da Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas deixou de existir no ano passado e deu origem à ADoT - que agora traz apenas talento no nome. Goretti é a presidente. Deixar cair a palavra sobredotado foi uma opção consciente. «Pouco tempo depois de fundarmos a ADoT, uma mãe telefonou-me a dizer que estava há três ou quatro anos para ligar, mas a palavra sobredotado deixava-a sempre com dúvidas.» E isso faz Goretti recordar-se de uma história. Quando o filho entrou na universidade ela perguntou-lhe se ele achava que tinha sido bom terem dito na escola que ele era sobredotado, ele sabia exactamente o que responder. «Sofri um bocado, mas valeu a pena pelos que vieram a seguir a mim.».João Pedro, Gonçalo, Zezito e Miguel são alguns dos que seguiram Tiago no caminho de fazer robôs e na viagem à América para os mostrar ao mundo. Nesta tarde de sábado reúnem-se todos à volta da mesa da equipa portuguesa, no meio do ginásio do Trinity College. O espaço está cheio. Em prova estão 117 equipas de oito países, todas apresentando pequenos robôs bombeiros. Adolescentes americanos, canadianos, mexicanos, chineses, indonésios, coreanos, israelitas e portugueses cruzam-se nos corredores. Vários pares de olhos inspeccionam os robôs adversários. A esmagadora maioria são rapazes. O aquecimento do ginásio transforma o ambiente num imenso caldo internacional de testosterona. E com um potencial de frustração explosivo. .Tiago compete com um robô comandado por um iPhone. A inovação é a grande novidade do concurso, mas as coisas estão a correr mal ao estudante de Engenharia Electrotécnica da Universidade de Coimbra. Ele já esperava dificuldades. «O programa não está pronto, ainda precisa de alguns ajustamentos, trouxe o robô porque era mais uma oportunidade de o testar», explica. A determinado momento, Tiago olha para o outro lado da mesa e percebe que a equipa dos seus colegas mais novos, a ADoT1, está com problemas com os jactos de água, o método que escolheram para extinguir as chamas. Começa a desmontar a bomba de dióxido de carbono com que o seu robô apagaria a chama e oferece-a aos colegas para substituírem os jactos com falta de pontaria. .Com este gesto simpático, sacrificou a sua participação. Numa hora, a ADoT1 está equipada com a sua nova arma. Faltam apenas 15 minutos para o recinto fechar. É hora de testar a bomba. J.P. e Gonçalo acendem uma vela. Puff. Em menos de um segundo a chama apaga-se. Neste momento, enquanto todos guardam o material para abandonar o ginásio, é a grande esperança da equipa portuguesa..No autocarro a caminho do hotel, os mais novos fecham os olhos e preparam-se para sonhar com robôs. Zezito fala arrastado da empresa de robótica que vai montar quando terminar a faculdade. «Vou vender robôs e ter um lucro de dez por cento. Vão cozinhar e lavar e limpar o pó e fazer os trabalhos de casa e arrumar a casa e trabalhar e conduzir...» Continuaria a lista até adormecer, mas é interrompido por um dos adultos no autocarro: «E nós, ficávamos todos a fazer o quê?» «Pois...», responde Zezito. Todos se riem no escuro do autocarro..Domingo acorda inundado de sol. Os jovens engolem os ovos mexidos e bacon frito do pequeno-almoço americano e às 08h30 já estão no ginásio para os últimos testes. Às 11h00, o director do concurso, David Ahlgren, declara aberta a competição e no mesmo instante a ordem das provas fica visível num ecrã gigante. ADoT2, composta por Zezito e Miguel, é a primeira equipa a prestar provas no labirinto A..Miguel, que ouve Metallica, Muse e The Strokes, tem a iniciativa de colocar o robô na linha de partida. Zezito, que guarda no bolso um pente com que vai corrigindo a orientação da franja, segreda algo ao ouvido do colega. O robô cumpre a prova sem hesitação, mas roça na parede como já tinha feito no dia anterior. No final, os dois jovens conversam para decidir se alteram novamente os valores da bússola. A decisão pode ser fatal. «O desvio é pequeno, uma mudança agora pode ser pior...» argumenta Miguel. Decidem jogar pelo seguro..Chega a vez dos mais velhos. Equipado com a sua bomba de dióxido de carbono, o ADoT1 é a materialização da esperança lusa numa medalha. João Pedro e Gonçalo dão ordem ao robô para partir. Ele vira-se para uma parede. Encara a outra. Termina voltado para a frente. Mexe as patas, mas não sai do local. Não sabe onde está. O tempo alonga-se indefinidamente e o robô continua perdido. Os jovens desistem sem perceber o que correu mal. «Será a bateria? Parece que lhe falta força...», sugere Goretti. João Pedro responde desolado: «Não é, não pode ser. As baterias estão carregadas.» Na mesa de trabalho, desligam e tornam a ligar o robô e ele começa a funcionar. «Máquinas...», suspira Goretti..As provas continuam nos cinco labirintos. Há robôs de todas as cores e formas e de todas as proveniências. Uns vermelhos com forma de aranha, uns azuis semelhantes a pequenos camiões e outros coloridos que parecem construídos a partir de material reciclado. Há uns velozes e outros lentos. Uns que cumprem a missão sem hesitações, outros que esmagam os seus corpos de plástico contra paredes e marcham sem hesitar na direcção das chamas. Alguns, atacados por um misterioso vírus robótico, entram em convulsão, abanam-se de um lado para o outro e acabam por não sair do local..Os chineses são o adversário mais temido por todos. Os seus robôs são pouco precisos, mas rapidíssimos. Um dos jovens chinês bate palmas e lá vai o seu robô. Em escassos segundos, encontra a vela e apaga a chama. No entanto, embate contra várias paredes e não regressa ao ponto de partida. O o presidente do júri, Chris Wynschenk, explica que a pontuação final é uma combinação de tempo com penalizações. «O robô deve ser esperto e completar a sua tarefa.».Zezito e Miguel acabam de completar outra prova exemplar. Chega o momento de João Pedro e Gonçalo terem uma segunda hipótese. Os dois adolescentes nem quiseram almoçar. A expectativa é alta. O robô começa a andar, mas parece dirigir-se contra uma parede. Choca contra a superfície de madeira. Continua a funcionar, mas é incapaz de sair do local. O ADoT1 falhou outra vez. Depois de meses de trabalho, os dois adolescentes estão inconsoláveis. Ainda têm uma terceira oportunidade, mas terminaram as hipóteses de uma boa qualificação. João Pedro tem em casa a medalha de bronze que conquistou no ano anterior. Quando percebe que este ano não ganhará nada, trinca os lábios e sufoca as lágrimas na garganta para não as deixar subir aos olhos. Tiago, como era garantido depois de ceder a sua bomba aos colegas, também não conseguiu apagar as velas e foi desclassificado. A ADoT investiu mais de seis mil euros nesta viagem. O desânimo é nítido no rosto de todos. Se Miguel e Zezito, os benjamins da comitiva, falharem um lugar no pódio, a viagem terá sido um fracasso..Mas a equipa ADoT1 permanece confiante. Os jovens estiveram a fazer contas. Independentemente do tempo e de outras penalizações, se terminarem a prova serão campeões. Zezito coloca o braço por cima do Miguel. O robô já está a percorrer o labirinto. A mãe de Miguel, distraída, tira uma fotografia com flash. Uma expressão de terror surge na cara dos dois jovens. «No flash! Please, no flash», grita Miguel para a bancada. «Sem flash! Por favor, sem flash.».O disparo de luz interfere com o sensor do robô. Num instante, podem ter perdido o título mundial. Mas o robô continua a andar. Já se dirige para a vela. Liga a ventoinha, apaga a chama e começa o percurso de regresso. Ao contrário das outras duas provas, vai a todos os quartos onde já esteve. Parece confirmar se existe mais alguma chama acesa, mas não está programado para essa missão. Será que avariou? Por momentos, todos sustêm a respiração. Está tudo certo. O robô já terminou a inspecção a todos os quartos e está a regressar. «We gonna do it, we gonna do it», diz Miguel em calão inglês. «Vamos conseguir, vamos conseguir.» O robô chega ao destino. Zezito e Miguel dão um salto do tamanho da sua nova condição: campeões do mundo. «Yes, yes», festejam no ar. Tiago e Goretti juntam-se aos festejos e abraçam-se. «Conseguimos!».A descarga de adrenalina apaga por momentos um assunto que tem estado instalado nas mentes de todos eles nesta viagem. Há poucas semanas, um aluno deixou de aparecer na sede da ADoT. Estava a ser vítima de bullying na escola. «Erraste o exercício? Então, não eras sobredotado?», disparavam os colegas, num crescendo de insultos que atingiu o ponto máximo quando o atiraram de umas escadas abaixo. Este título também é dele. Talvez a vitória da sua equipa o faça regressar ao grupo. Ninguém se mete com um campeão do mundo..CAIXA .O que é uma criança sobredotada?.A expressão «criança sobredotada» surgiu na década de 1970 para designar qualquer indivíduo com capacidades acima da média nas áreas da inteligência cognitiva, criativa, de liderança social e comunicativa e psicomotora..Normalmente, alguém com um quociente de inteligência superior a 130 é considerado sobredotado, a média da população ronda os 100. Apesar deste parâmetro de avaliação, existem outros. A tendência actual é considerar competências em diversas áreas. O critério mais frequente é o do desempenho em testes de aptidão ou de capacidade potencial, utilizado em 15 países ou regiões para classificar estas crianças ou jovens..Em Portugal, mais de sessenta mil crianças e jovens são sobredotados. Os estudos apontam para que três a cinco por cento das crianças e dos jovens encaixem nesta categoria A maioria está por identificar..Muitos são percebidos como hiperactivos, desinteressados ou como alunos rebeldes, em conflito com o próprio ensino que não corresponde às suas expectativas. Cerca de quarenta por cento apresenta sinais de inadaptação à escola. A maioria das pessoas, incluindo muitos educadores, considera que por eles terem uma inteligência superior não podem ter dificuldades na escola, o que nem sempre acontece. Apesar disso, o Decreto-Lei n.º 50/2005, de 9 de Novembro, prevê no artigo 5.º que estas crianças possam beneficiar, nas escolas, de um plano de desenvolvimento que individualize o currículo e as estratégias pedagógicas no quotidiano escolar..A primeira escola portuguesa pensada especificamente para estes jovens nasceu em Portimão, no Algarve, em Setembro de 2008.