A sala de estar tem uma mesinha, decorada com vaso e planta, e um sofá com um lençol lilás a protegê-lo das nódoas. Entre a mesa e o sofá, um tapete. Na parede, dois quadros. Tudo limpinho e no lugar porque o anfitrião descreve-se como maníaco da arrumação. Divorciado, viciado em crack e desempregado, Wladimir Delvechio, 33 anos, mora sozinho. Bem, mais ou menos. A sua sala fica debaixo do Elevado Presidente João Goulart, viaduto que liga o centro de São Paulo ao bairro de Perdizes e por onde passam milhões de automóveis por semana..Na inauguração, em 1970, o Minhocão - nome popular do elevado - foi descrito como "aberração arquitetónica" pela imprensa. Prefeitos, como Gilberto Kassab, prometeram em campanha demoli-lo. A atual primeira-dama, Bia Doria, habituada a circular só nos bairros chiques paulistanos, causou furor ao dizer que nem sabia onde ele era. Ignorado, perseguido, insultado, o Minhocão foi, no entanto, abraçado por artistas num projeto de 1998 chamado Elevado a Arte e descoberto como cenário urbano perfeito em filmes com assinatura..O Minhocão é, pois, uma metáfora da cidade que, mesmo chamada de feia, por comparação com o seu maravilhoso vizinho Rio de Janeiro, nunca se rendeu a preconceitos estéticos. Da mesma maneira que destrói coisas belas, como canta Caetano Veloso em Sampa, a cidade de São Paulo também transforma o feio em menos feio, o desespero em alento, a falta de meios em dignidade, como fez Wladimir, o sem-abrigo abrigado numa sala impecavelmente arrumada..São Paulo é a maior metrópole do hemisfério sul, com dez milhões de habitantes, só o município, ou 19 milhões, somada a área metropolitana, ou ainda 29 milhões, se contarmos a área metropolitana expandida. É a capital financeira e comercial da América Latina, com o décimo maior PIB do mundo, e sede de 17 dos 20 bancos do Brasil, oito das dez principais corretoras, metade das maiores empresas privadas brasileiras e 63% das multinacionais no país. Por aqui fazem-se 900 mil transações de cartão de crédito por dia. A cidade abriga o maior centro comercial da América Latina e dispõe da segunda maior frota de helicópteros do planeta, a seguir a Nova Iorque..Mas tem também 90 feiras ao ar livre, daquelas onde se podem comprar melancias e alfaces, e 30 mil restaurantes de 52 cozinhas do mundo, uma diferente para cada semana do ano. Na cidade onde se realiza um evento a cada seis minutos, destaca--se a Virada Cultural, 24 horas seguidas de espetáculos de rua, que atrai quatro milhões de pessoas, e a maior parada gay mundial, com média de 3,5 milhões de participantes por ano..Em São Paulo não é invulgar duas amigas combinarem um café às cinco da manhã, porque não sobra mais tempo vago na agenda, ou ver às duas da manhã uma academia cheia de gente a malhar, porque não há outra hora disponível. Para ir de um ponto a outro de São Paulo é quase sempre necessário o trio ônibus-trem-metrô. E para percorrer 30 quilómetros de automóvel investe-se em média três horas, mesmo tendo em conta o "rodízio" - carros com matrícula terminada em 1 e 2 não podem circular nas horas de ponta à segunda-feira e assim sucessivamente até sexta. Num semáforo, em dia ruim, pode ficar-se mais de meia hora..Talvez por isso o melhor cover de Michael Jackson do mundo - de acordo com opinião partilhada na internet por Paris Jackson, a filha do músico - é paulistano e vive de gorjetas a fazer o moonwalk nos sinais vermelhos. Mas Matheus de Luca não se queixa - como Wladimir Delvechio também não se lamenta por morar no Minhocão - nem do trânsito, nem da falta de atenção dos motoristas, nem das gratificações mesquinhas, nem dos gritos "vai trabalhar malandro". A sua única mágoa em tantos anos, contou à revista Veja, resultou de um insulto de um cover de Elvis Presley, que o empurrou, obrigou a mudar de semáforo e ainda disse que Michael Jackson era um artista de segunda..Porque só em São Paulo se pode apreciar uma sala de estar arrumadinha debaixo do viaduto mais concorrido do país e assistir ao vivo e a cores a uma briga entre os reis do pop e do rock "n" roll.