Síria: guerra, terror e refugiados

Se a Tunísia é o lado bom da Primavera Árabe, a Síria representa tudo o que de mal pode resultar de boas intenções desviadas da realidade.
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Foi o Estado Islâmico que começou a guerra na Síria contra Al-Assad?

De forma alguma. De início, houve protestos pacíficos contra o regime, mas a repressão ordenada por Bashar Al-Assad transformou a revolta em luta armada a partir de março de 2011. Deserções várias nas forças armadas até deram protagonismo aos rebeldes moderados, acarinhados pelo Ocidente, sobretudo França, antiga potência colonial, Turquia e monarquias árabes. Mas rapidamente emergiram grupos jihadistas, como a Frente al-Nusra ligada à Al-Qaeda, que prejudicaram a imagem dos revoltosos. O Estado Islâmico, porém, só ganhou protagonismo quando ignorou as fronteiras entre a Síria e o Iraque e tomou Mossul em 2014. De repente, a antiga Al-Qaeda no Iraque, que também chegou a chamar-se Estado Islâmico no Iraque e na Síria, emergia como o mais poderoso grupo que combatia al-Assad e também o exército iraquiano.

Então, a revolta contra uma ditadura que era controlada por uma minoria religiosa e passara de pai (Hafez) para filho transformou-se em guerra santa?

Sim, até porque o Estado Islâmico proclamou um califado que ignora as fronteiras herdadas da colonização europeia e além de executar reféns estrangeiros, recruta mundo fora e conta com células em diferentes países.

Assad resiste após quatro anos de guerra. E até parece ter mais hipóteses depois de emergir o Estado Islâmico. Porquê?

Apoiado pelos alauitas, um ramo do xiismo, e por outras minorias, como os cristãos, Assad mesmo assim precisou do apoio do Irão e do Hezbollah libanês para resistir aos grupos da oposição. E adivinhava-se a sua queda. Mas assustados com o Estado Islâmico, os Estados Unidos e vários aliados começaram uma campanha de bombardeamentos aéreos que, de forma indireta, ajudaram o regime. Aliás, foi por causa disso que países como a França evitaram durante quase um ano atacar o Estado Islâmico fora do Iraque. Só em setembro François Hollande ordenou ataques a posições jihadistas na Síria.

Hollande já admite que Assad continue no poder?

Não, e a Turquia tem a mesma posição. Mas os Estados Unidos deram a entender que Assad pode ser um mal menor e que a sua partida não tem de ser imediata.

A Rússia agora tem aviões a apoiar as tropas do regime de Damasco. É surpreendente?

Nem pensar. Damasco e Moscovo são aliados desde os tempos da União Soviética. E Vladimir Putin, consciente da importância da base naval russa em Tartus, sempre travou na ONU qualquer ação contra a Síria. Mas acabou por ter de vir em socorro de Assad com aviões e até mísseis disparados da frota do Mar Cáspio. E os ataques russos são contra todo o tipo de grupos jihadistas, não apenas o Estado Islâmico.

Fala-se muito de refugiados sírios. Quantos?

Metade dos 23 milhões de habitantes da Síria pré-guerra tiveram de fugir das suas casas. Quatro milhões vivem como refugiados, sobretudo na Turquia e no Líbano. Várias centenas de milhar tentam chegar à Europa, arriscando a vida.

Teme-se que o Estado Islâmico se infiltre entre as vagas de refugiados?

Sim e mesmo que sejam um número ínfimo isso dá argumentos a quem na Europa defende fronteiras fechadas.

Então, para travar a vaga de refugiados e a ameaça terrorista o caminho é pacificar a Síria?

Sim, mas não existe uma solução óbvia. Por trás de um conflito que já fez mais de 250 mil mortos, há guerras por procuração (sauditas versus Irão), há conflitos sectários, há negócios vários (armas, petróleo e antiguidades), e há os interesses das potências.

A coligação liderada pela América pondera enviar tropas para o terreno?

A memória dos mortos americanos no Iraque pós-Saddam Hussain está bem presente e ninguém quer arriscar baixas. Estados Unidos e vários países europeus têm usado as milícias curdas como arma contra o Estado Islâmico, mas só isso não chega (e a Turquia já acha demais).

A Primavera Árabe tem culpa nesta situação?

Acaba por ter, pois tirando na Tunísia que já era um caso à parte, criou expectativas de democratização no mundo árabe que não se concretizaram. Em sociedades multiétnicas e multirreligiosas como a Síria, o ditador laico era o garante de estabilidade.

Já que americanos e russos andam a combater os jihadistas na Síria, não poderiam juntar-se para destruir o Estado Islâmico?

Seria uma boa ideia, a negociar também com turcos, sauditas e iranianos, mas parece utópico. Ontem, em Viena, 17 países reuniram-se para falar da Síria, mas sem resultados.

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