SÍMBOLO FRANCÊS

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Vale a pena perguntar: de um modo geral, entre as vedetas do cinema francês, quem é que o público identifica mais rapidamente? Catherine Deneuve ou Marion Cotillard? Michel Piccoli ou Édouard Baer? Alain Delon ou Melvil Poupaud? Sem ofensa para o talento dos mais novos, parece evidente que os veteranos possuem um reconhecimento e, mais do que isso, uma aura que lhes permite permanecer como símbolos fortíssimos de toda uma cinematografia. Deneuve, Piccoli e Delon são, de facto, referências que persistem para além de todas as modas e tendências. Jean-Paul Belmondo é também uma dessas referências, mesmo se é verdade que a sua presença nos ecrãs tem rareado.

Em todo o caso, nos últimos meses, Belmondo (que completou 74 anos no dia 9 de Abril) voltou a ser tema das manchetes da imprensa francesa. depois de uma ausência de sete anos (o seu último filme, Amazone, realizado por Philippe de Broca, estreou no ano 2000), Belmondo vai regressar, não ao cinema, mas aos palcos, como protagonista de uma versão teatral do clássico de Vittorio de Sica, Umberto D. (1952). A encenação, dirigida pelo actor Francis Huster, tem estreia marcada para Janeiro de 2008.

Em boa verdade, a ausência de Belmondo não era por opção. O actor manteve uma actividade regular até 8 de Agosto de 2001. Nesse dia, em férias na Córsega, foi vitimado por um acidente vascular cerebral, chegando-se a pensar que a sua vida profissional estaria irremediavelmente encerrada. O certo é que, para além de uma recuperação espectacular, Belmondo acabou por refazer toda a sua existência nos últimos anos: em 2002, casou-se com Nathalie ("Natty") Tardivel, ex-bailarina, sua companheira desde o começo dos anos 90; em 2003, foi pai pela quarta vez; já este ano, Jacques Chirac, num dos derradeiros actos formais da sua presidência, condecorou-o como comandante da Legião de Honra.

Mesmo sem filmar, Belmondo mantém-se como um dos recordistas de popularidade da produção francesa e, mais do que isso, como um nome com continuada e significativa projecção internacional. Em termos meramente estatísticos, convém lembrar que o seu nome está ligado a alguns dos filmes mais vistos em França, dois deles tendo ultrapassado, apenas no mercado interno, a barreira dos cinco milhões de espectadores: são eles O Profissional (1981), de Georges Lautner, e O Ás dos Ases (1982), de Gérad Oury. Curiosamente, o seu último grande sucesso, Itinerário de uma Vida (1988), de Claude Lelouch, foi também o que lhe trouxe a consagração formal junto dos colegas de profissão, com a atribuição do César de melhor actor (no ano em que Isabelle Adjani foi escolhida como melhor actriz pela sua composição em Camille Claudel, de Bruno Nuytten).

Ironicamente, e apesar de todos estes índices de popularidade, Belmondo sempre ocupou um lugar paradoxal na história do moderno cinema francês. Isto porque é muitas vezes mais conhecido (e também, importa reconhecê-lo, mais admirado) pela sua ligação aos tempos de grande e frondosa agitação criativa da "Nova Vaga" e, em particular, à obra de um dos seus pilares, Jean-Luc Godard. Foi graças à primeira longa-metragem de Godard, O Acossado (o lendário À Bout de Souffle, rodado em 1959), que Belmondo se transformou num ícone do cinema francês e, mais do que isso, em símbolo de um conceito moderno de herói (ou anti-herói) que funcionaria como modelo para muitos dos novos cineastas que despontavam na época, em França e nos chamado "cinema novo" de vários outros países. As célebres cenas de Belmondo com Jean Seberg, deambulando pelos Campos Elíseos, rapidamente adquiriram a marca de um novo romantismo, urbano, desencantado e universal.

Depois disso, o nome de Belmondo surgiu em alguns dos títulos mais ousados da época, característicos de um cinema à procura de ultrapassar o academismo da "tradicional" produção francesa. Entre eles figuram Moderato Cantabile (1960), de Peter Brook, adaptando um romance de Marguerite Duras, Amor Proibido (1961), de Jean-Pierre Melville, uma visão pouco ortodoxa dos tempos da Segunda Guerra Mundial, e Pedro o Louco (1965), de novo sob a direcção de Godard, porventura o mais conhecido título de toda a produção da "Nova Vaga".

Seja como for, a partir de meados dos anos 60, Belmondo tornou-se um valor fundamental da produção corrente da indústria francesa e, mais do que isso, uma das grandes estrelas europeias das décadas de 60 e 70. Assim o atestam diversos títulos em que, em registo de aventura romântica, contracenou com algumas das mais populares actrizes da época. É o caso de Cartouche (1962), com Claudia Cardinale, As Atribulações de um Chinês na China (1965), com Ursula Andress (com quem viveu vários anos), e O Magnífico (1973), com Jacqueline Bisset; são, todos eles, filmes dirigidos pelo fiel amigo Philippe de Broca.

Com inevitáveis altos e baixos, quer artísticos quer comerciais, esta é uma filmografia que, em todo o caso, manteve Belmondo sempre ligado ao público. Mais do que isso, ele é um daqueles actores que o espectador anónimo reconhece como uma figura simpática e disponível, estranha às ostentações das vedetas mais arrogantes. Há em Belmondo uma espécie de verdade natural que, no ecrã, mesmo sem uma grande versatilidade dramática, o faz ser uma personagem humana, emocionalmente complexa, por vezes tocante. Pormenor curioso que diz bem da sua entrega à profissão: até meados dos anos 80, recusou a utilização de duplos, filmando sempre, ele próprio, as suas cenas de acção.|

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