Sexo, mentiras e vídeos dominam o duelo Trump-Hillary

Denúncias de mulheres contra o republicano, o vídeo em que ele diz agarrá-las ou as amantes de Bill Clinton relegam questões de política interna e externa para segundo plano.
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No final dos anos 90, falar de política americana implicava charutos, estagiárias e manchas em vestidos. A economia estava a crescer, os EUA em paz e os americanos e o mundo seguiam como se fosse uma novela o processo de destituição do presidente Bill Clinton por ter mentido em tribunal sobre a relação com a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. No fim, Clinton foi ilibado, descobriu-se que o líder do ataque republicano, Newt Gingrich, tinha ele próprio um amante e o presidente nunca foi tão popular como em dezembro de 1998, dias antes da votação do impeachment - 73% de aprovação segundo a Gallup.

Passados 18 anos, aos protagonistas da novela Clinton juntou-se outro ator: Donald Trump. E se em 2000, na corrida para o Senado, Hillary Clinton não teve de se preocupar com as infidelidades do marido. Hoje, a candidata democrata não só viu o adversário republicano referir o comportamento sexual do ex-presidente 12 vezes no segundo debate entre ambos, no dia 9, como é mesmo acusada por Trump de ser a "facilitadora" dos encontros do marido e de lhe ser infiel.

Esquecidos, por ambos os lados, parecem ter ficado as grandes questões de política interna e externa, da saúde à educação, passando pelas guerras no Afeganistão, Iraque e Síria ou pelas tensões com a Rússia. É verdade que houve algumas perguntas sobre essas questões, uma sobre a reforma da saúde, uma sobre energia, uma sobre Aleppo e a Síria. E nesses momentos a preparação de Hillary Clinton saltou à vista. A ex-senadora, secretária de Estado entre 2009 e 2013, conhece os dossiers como poucos. Já Trump deu respostas evasivas, tendo mesmo sido chamado à atenção pela mediadora Martha Raddatz para responder à pergunta sobre o que faria para resolver a situação em Aleppo. Uma atitude que o próprio explicava em junho quando garantia à revista Time: "Os meus eleitores não querem saber [da falta de propostas concretas] e o público no geral também não. Eles sabem que quando lá chegarmos [à Casa Branca] iremos fazer um bom trabalho".

Estratégia desesperada

Para os críticos, a insistência de Trump em referir Bill Clinton durante debate - bem como o facto de antes do início ter promovido um encontro com quatro alegadas vítimas do ex-presidente, que depois assistiram ao frente a frente - não passa de uma estratégia desesperada para o candidato republicano desviar as atenções dos seus próprios problemas com as mulheres. Dois dias antes do debate, o Washington Post divulgara um vídeo de 2005 no qual Trump se vangloria de, por ser famoso, poder agarrar e beijar as mulheres sem consentimento pois elas "fazem o que quisermos". As reações não tardaram e até no Partido Republicano as principais figuras se distanciaram do milionário. Alguns apelaram a que desistisse da corrida à Casa Branca.

"O seu argumento [no debate] é, mais ou menos, que Bill Clinton tratou as mulheres ainda pior do que ele e que por isso a mulher de Bill Clinton está menos preparada para a presidência do que ele", escreveu Michael Grunwald no site Politico. Para o jornalista, este é "um argumento pouco convencional para o último mês da campanha, especialmente porque no passado Trump afirmara que o maior erro de Bill era atacar mulheres pouco atraentes".

A cair nas sondagens realizadas após a divulgação do vídeo - a última da Reuters dá 37% de intenções de voto para Trump contra 44% para Hillary - o candidato republicano está também em queda livre nas probabilidades de vencer (uma contagem que Nate Silver faz com base na média das sondagens no site FiveThirtyEight). A menos de um mês das eleições, Trump e a sua equipa parecem incapazes de travar as acusações de que o candidato está a ser alvo. O New York Times trazia o relato de duas mulheres que acusam o milionário de as ter atacado sexualmente. A primeira, Jessica Leeds, garante que Trump a agarrou durante uma viagem de avião há 26 anos. A segunda, Rachel Crooks, afirma que o candidato republicano a beijou à força em 2005 quando ela era rececionista na Trump Tower.

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A Leeds e Crooks juntaram-se outras duas denúncias, uma feita através do Palm Beach Post ,de uma ex-funcionária do resort Mar-a-Lago, que acusa Trump de a ter agarrado há 13 anos. Outra de uma jornalista da Time que garante que o milionário a beijou à força em 2005 quando estavam a sós antes de uma entrevista. Trump e a sua campanha negam todas estas acusações, afirmando tratar-se de "ficção".

Hillary Clinton, que ontem recebeu o apoio do Washington Post, tem estado ela própria sob ataque, com a divulgação de emails da sua campanha pela WikiLeaks. Uma fuga que acabou abafada nos media pelo vídeo de Trump e pelas acusações de mulheres contra o milionário.

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