Foi, desde o início, uma relação de altos e baixos. E se os "altos" chegaram a mostrar uma relação de apoio e suporte que deixou a família política de Marcelo desconfortável, os "baixos" fizeram cair ministros a uma palavra do Presidente, provocaram a irritação dos socialistas, deixaram um lastro de remoques entre Belém e São Bento - que foram subindo de tom nos últimos meses, até à crise política da última semana, que promete não deixar pedra sobre pedra na coabitação entre Costa e Marcelo. Eis alguns dos momentos emblemáticos da relação entre o Presidente da República e o primeiro-ministro, páginas de um capítulo que agora se fechou..A convivência de António Costa primeiro-ministro e Marcelo Rebelo de Sousa Presidente da República começou a 9 de março de 2016, quando o atual chefe de Estado tomou posse para o primeiro mandato. Mesmo com o novo inquilino de Belém vindo do polo político oposto ao do Governo, foram boas notícias para Costa e para a geringonça, depois da relação - ainda que breve - pouco amistosa com Cavaco Silva. Poucos meses depois, sob a chuva de Paris nas comemorações do 10 de Junho, o guarda-chuva que Costa levou e segurou enquanto Marcelo discursava transformou-se na imagem das relações entre São Bento e Belém. "Estão a ver o que é a colaboração entre os dois poderes?", atira um risonho Marcelo perante uma plateia de emigrantes portugueses em festa. Um mês antes, Marcelo já tinha usado a expressão que ficou colada a António Costa, dono de um "otimismo crónico e às vezes ligeiramente irritante". Voltaria a repetir ao qualificativo em 2020, com uma explicação acrescida: "O irritante maximiza os cenários favoráveis e minimiza a hipótese de cenários desfavoráveis. Tudo tem um preço"..O ano de 2017 mostra o primeiro embate de fundo entre Belém e São Bento. Em outubro, quando os incêndios voltaram a devastar o país, provocando mais de 50 mortos - meses depois das 66 vítimas do incêndio de Pedrógão Grande - Marcelo fez uma comunicação ao país a partir da Câmara de Oliveira do Hospital e avisa que "o Presidente estará atento e exercerá todos os seus poderes para garantir que, onde existiu ou existe fragilidade, ela terá de deixar de existir". Diz que é "abrir um novo ciclo" e que isso "inevitavelmente obrigará o Governo a ponderar o quê, quem, como e quando melhor serve esse ciclo". Um dia depois, a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, apresenta a demissão..Durante a campanha eleitoral, quando pedia uma maioria absoluta aos portugueses, Costa chegou a invocar o Presidente da República como garantia contra possíveis excessos de uma maioria absoluta. "Quem acredita que com um Presidente da República como Marcelo Rebelo de Sousa uma maioria do PS poderia passar a linha?", argumentava então Costa. Para surpresa geral - e até do próprio, que poucos dias depois desta frase deixava cair o pedido de uma maioria absoluta - o PS veio mesmo a vencer as eleições com maioria absoluta. pelo caminho, Marcelo já lhe devolveu o argumento mais do que uma vez: "Como é que é contrabalançada [a maioria PS]? No Parlamento, sim, mas no Parlamento há uma maioria muito clara. Qual é o órgão que realmente pode contrabalançar, quando faz sentido intervir? É o Presidente. E essa é a função do Presidente"..Com a inesperada maioria absoluta do PS, em janeiro de 2022, Marcelo foi vaticinado à quase irrelevância política, mas logo no discurso da tomada de posse do Executivo o Presidente da República deixou claro que essa é uma condição que lhe é estranha. Perante rumores de que Costa ambicionava um cargo europeu e admitia sair a meio do mandato, Marcelo usou o discurso da tomada de posse para amarrar o primeiro-ministro ao cargo até 2026. Cumprir o mandato "é o preço das grandes vitórias, inevitavelmente pessoais e intencionalmente personalizadas", avisou o chefe de Estado. Para o caso de alguém não ter percebido: "Agora que ganhou, e ganhou por quatro anos e meio, tenho a certeza de que Vossa Excelência sabe que não será politicamente fácil que essa cara que venceu de forma incontestável e notável as eleições possa ser substituída por outra a meio do caminho". E, pela primeira vez, logo ao primeiro dia, ficou a pairar sobre o Governo uma sombra velada de eleições antecipadas, com Marcelo a avisar que "se necessário", não hesitaria em "avançar para decisões mais arriscadas ou ingratas" - como fez ao marcar eleições depois do chumbo do orçamento.."Olhando para o pacote [o conjunto de medidas do programa "Mais Habitação"] que é muito grande, não é possível ter uma ideia clara do que lá está dentro. O povo costuma dizer só se sabe se o melão é bom depois de o abrir. É preciso abrir o melão". Esta foi a primeira apreciação de Marcelo sobre o conjunto de medidas apresentado pelo Executivo, em fevereiro, para fazer face à crise no setor da habitação. A primeira de muitas - esta é, seguramente, uma das propostas legislativas mais comentada por Marcelo, e isso já diz muito -, e sempre a elevar o tom da crítica. A 1 de Março manifestou preocupação sobre a exequibilidade das medidas, a 9 insistiu que "é muito bonito fazer leis, mas depois elas não se aplicam" e avisou que é preciso densificar conceitos. A 20, a dúvida tinha-se transformado em certeza: o programa "tal como está concebido, logo à partida, é inoperacional. Quer no ponto de partida, quer no ponto de chegada". Marcelo fala também em "leis cartazes" - "leis que aparecem a proclamar determinados princípios", mas a "ideia não é que passem à prática". Com a oposição a aproveitar a deixa do Presidente da República para criticar o programa, o PS veio a terreiro, pela voz do presidente do partido, Carlos César, que em declarações à Renascença fez notar que Marcelo "porventura sem se aperceber, tem prestado menos cuidado a algo que sempre acautelou nestes anos: o equilíbrio que o Presidente da República deve cultivar do sentido crítico com a cumplicidade institucional"..A 9 de março, em entrevista à RTP e Público, Marcelo Rebelo de Sousa fez um balanço da governação socialista pouco menos que arrasador - as maiorias "que não nascem de novo são maiorias cansadas", e a que deu o terceiro governo a António Costa é "uma maioria requentada, cansada, que demorou a formar-se". "Até setembro há um tempo perdido que depois se prolongou com as vicissitudes", dos "casos e casinhos", prosseguiu Marcelo, referindo em particular o caso TAP. E disse ainda que o país está a "gerir o dia a dia e a olhar para o curto prazo e não para o longo prazo"..Seria um cenário improvável à partida, face à maioria absoluta do PS - nunca um Governo de maioria deixou de terminar o mandato - mas a palavra "dissolução" entrou em força no discurso político. Em grande medida pela voz de Marcelo. No discurso do 5 de outubro do ano passado, Marcelo fez questão de recordar explicitamente que o Presidente da República "tem o poder de dissolver o Parlamento". Falando sempre num contexto de comparação com a 1.ª República, falou dos governos que "tendem quase sempre a ver-se como eternos" e das oposições "quase sempre a exasperarem-se pela espera", antes de acrescentar que "nada é eterno". Já no final do ano , num cenário já muito diferente - Pedro Nuno Santos tinha acabado de se demitir do Governo - Marcelo voltou a ao tema, mas para recusar a dissolução. Fá-lo-ia novamente várias vezes durante o mês de janeiro, repetiu-o na entrevista de março ao Público/RTP ("Não me peçam para dizer que renuncio ao poder de dissolver. Não renuncio") e voltaria a falar da dissolução em abril - com o pormenor de, neste caso, fazê-lo por iniciativa própria e não em resposta a perguntas. E para dizer que o cenário de dissolução do Executivo seria uma "má notícia" - mas "às vezes, tem de haver más notícias"..Foi já com este pano de fundo das críticas à maioria "cansada" e das sucessivas críticas ao programa "Mais Habitação" No final de março, há pouco mais de um mês, com a relação já desgastada por estas polémicas, Costa e Marcelo encontraram-se na República Dominicana e depois no Luxemburgo e garantiram a pés juntos que a coabitação São Bento/Belém continuava de boa saúde. Na versão de Costa: "Nestes quase 50 anos de democracia não deverá ter havido algum momento onde as relações entre Governo e Presidente da República tenham sido tão fluidas, tão escorreitas, tão normais, e eu diria, até, com progressiva amizade". Na versão de Marcelo: "Acho que nunca houve nenhuma zanga pessoal. Sabem que, muitas vezes, quem observa a realidade política observa a espuma dos dias, a superfície das coisas e não percebe que o papel de cada um de nós é diferente e que é nessa diferença que reside a riqueza do sistema português." Pouco mais de um mês depois, Marcelo ditou agora outro destino à coabitação com Costa.. susete.francisco@dn.pt