Quando a edição de 26 de janeiro de 1996 de O Independente chegou às bancas, numa daquelas sextas-feiras em que o semanário que provocou insónias a ministros durante o cavaquismo tentava causar igual efeito à governação socialista de António Guterres, ainda Paulo Portas não era presidente do CDS. Deixara a direção no ano anterior, para integrar as listas de deputados do partido do qual se tornaria líder histórico a partir de 1998, mas continuava a escrever todas as semanas uma página de opinião, mantendo-se presente para os mesmos leitores que dificilmente terão reparado que tinham ao dispor o primeiro texto publicado num jornal nacional por um jovem professor universitário de Relações Internacionais que ainda menos imaginaria que, 27 anos depois, disputaria a liderança do PS..Foi na página 45 dessa edição que José Luís Carneiro, atual ministro da Administração Interna e único socialista que se mostrou pronto a enfrentar Pedro Nuno Santos na inesperada sucessão de António Costa, iniciou quatro anos de colaboração jornalística, sempre dedicado a temas internacionais. Mais concretamente, assuntos africanos, justamente a área do seu mestrado, após concluir a licenciatura em Relações Internacionais. Na primeira de centenas de notícias, com o título Santuário de Jonas, descrevia como Savimbi, o líder da UNITA, exigia garantias de segurança pessoal para aceitar encontrar-se em Windhoek, na Namíbia, com o eterno inimigo José Eduardo dos Santos, presidente de Angola e do MPLA.."Os títulos e as entradas não era eu quem as escrevia", ressalva José Luís Carneiro, bem como preza "a alegria pelo primeiro texto publicado", em declarações ao Diário de Notícias. Sem nunca ter escondido que o seu currículo inclui a colaboração com O Independente, semanário fundado por Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas que agregou e modernizou a direita nos anos 90, mas teve o seu "Ponto Final" como manchete da derradeira edição, a 1 de setembro de 2006, o ministro da Administração Interna, de 52 anos, recua até 1996 para recordar como foi "recrutado na Universidade Lusíada" pelo semanário então dirigido por Isaías Gomes Teixeira. Aponta a esse e a outros textos que escreveu a característica de serem "académicos de mais", mas a verdade é que "Santuário de Jonas" citava fontes da UNITA..Dirigir-se à redação de O Independente na quarta-feira, dia de fecho das páginas de temas internacionais, passou a ser uma das rotinas do jovem professor universitário que deixou boas memórias àqueles que o conheceram no edifício da Rua António Pedro, mesmo atrás da Cervejaria Portugália. "O editor avaliava e os títulos nunca eram os meus", reforça quem ao longo de todo aquele tempo nunca chegou a habilitar-se à carteira profissional de jornalista e foi sempre pago a recibos verdes..Mas a falta de vínculo não impediu que a notícia escrita por José Luís Carneiro na edição seguinte, de 2 de fevereiro, tivesse direito a ser abertura de secção. "Mundo de Necessidades" revelava que o almirante Fuzeta da Ponte, então chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas, deveria visitar Angola no mês seguinte. Citando fontes diplomáticas e do MPLA, não mais identificadas pelo nome do que as que apareciam na esmagadora maioria das outras páginas do semanário, o texto revelava duas das constantes do percurso jornalístico do seu autor: a prevalência de cobertura da complexa realidade angolana, na ressaca do massacre de milhares de dirigentes, militantes e apoiantes da UNITA após as eleições gerais de 1992, e a conquista de uma rede de contactos nos meios diplomáticos e nos países africanos lusófonos que alimentaria muitas páginas..Houve também espaço para os "textos mais analíticos" expectáveis em quem dava prevalência à carreira académica. "Números negros", terceiro texto que publicou em O Independente, a 9 de fevereiro de 1996, dedicava duas páginas à realidade de Moçambique, explicando que "o país de [Joaquim] Chissano e [Afonso] Dhlakama vai continuar a pagar a fatura da guerra entre a Frelimo e a Renamo". Mas até neste registo havia menções a fontes do poder e da oposição..Partilhar a agenda do constantemente adiado conclave entre Dos Santos e Savimbi ou apontar o cenário do então presidente sul-africano Nelson Mandela aproveitar uma visita a Luanda para juntar "os dois irmãos inimigos"estiveram entre as cachas jornalísticas do futuro governante, que admite ao Diário de Notícias ter a cooperação e desenvolvimento como "uma vocação que tinha". A mesma que o conduziu para se especializar em assuntos africanos..Estando longe de ser um segredo para aqueles com quem trabalhava que a orientação política de José Luís Carneiro - o também colaborador do semanário Vasco Rato, seu professor na licenciatura de Relações Internacionais, sabia que ele era do PS, "mas era bom aluno e isso era o importante" -, nas colaborações semanais também abordou a atuação dos correligionários que então se encontravam no Palácio das Necessidades. A 15 de março de 1996, voltava a ter a abertura de secção com "Gama protagonismo", noticiando que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Jaime Gama, tinha aberto portas à visita do secretário de Estado, José Lamego. "Mas Portugal participa pouco no esforço de paz em Angola", lia-se no seu texto, explicando que ficava em sétimo lugar no que tocava à colaboração militar..Destaca-se ainda nas memórias de quem procura tornar-se o segundo líder partidário saído das páginas de O Independente, precisando para tal de conseguir desmontar o favoritismo de Pedro Nuno Santos nas eleições diretas que o PS tem marcadas para 16 e 17 de dezembro, ter sido um dos primeiros a dar destaque na imprensa nacional à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A 12 de julho de 1996, deixava um aviso na notícia "Portugal ultramarino", num daqueles títulos aos quais terá sido alheio: "A CPLP vai nascer na próxima quarta-feira. Falta porém saber quem a vai pagar, já que ninguém parece disposto a abrir os cordões à bolsa"..Para quem ainda chegou a fazer algumas entrevistas, sendo a mais memorável ao dirigente da UNITA Isaías Samakuva, o fim da colaboração deu-se em 1999, altura em que as visitas à redação para escrever os textos passaram para a delegação do Porto, onde também fez amizades que mantém até hoje. Com o semanário, então dirigido por Inês Serra Lopes, que sucedera a Constança Cunha e Sá, agora em formato broadsheet e com um suplemento Internacional, José Luís Carneiro continuava especializado em assuntos africanos, complementando as reportagens de enviados especiais a Angola. E mantinha fontes bem informadas o bastante para lhe permitir escrever, a 4 de dezembro de 1998, que "o Congresso do MPLA poderá dar luz verde ao presidente José Eduardo dos Santos para desencadear o "ataque final" às forças de Jonas Savimbi nos bastiões do Andulo e do Bailundo"..A aventura jornalística chegou ao fim quando José Luís Carneiro se tornou assessor de Manuel Diogo, então secretário de Estado-adjunto do ministro da Administração Interna, Fernando Gomes. Um ano antes, em 1998, fora eleito vereador sem pelouro na Câmara de Baião, assim se mantendo até conquistar a autarquia, presidindo-a de 2005 a 2015. Cada vez mais empenhado na vida partidária, presidiu à Federação do Porto do PS e à Associação Nacional dos Autarcas Socialistas. Na área dos Negócios Estrangeiros, sobre a qual tantas vezes escreveu, foi secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, entre 2015 e 2019. Antes de chegar a ministro da Administração Interna, e agora procurar ser o nono secretário-geral do PS.