"Sem política de habitação de apoio aos jovens, corremos o risco de perder alunos e novos médicos"

João Eurico da Fonseca e Luís Graça são ex-alunos da FML e um exemplo de quem optou por seguir três vertentes do curso: Medicina hospitalar, docência e investigação no iMM. No início de mais um ano, e perante tantas adversidades no Serviço Nacional de Saúde (SNS), dizem ao DN que a falta de motivação não é um problema para os alunos, nem faz parte das suas preocupações. Estas centram-se, sim, em fazer tudo para que eles se sintam "integrados".
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Faltam dois anos para que a Faculdade de Medicina de Lisboa (FML) complete 200 anos, desde que foi fundada em 1825, ainda como Real Escola de Cirurgia. Segundo reza a História, só em 1936 passou a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, e, em 1906, a Escola Médico-Cirúrgica, já com edifício no Campo de Santana. Mas só, em 1911, é que passa a ter a designação de Faculdade de Medicina de Lisboa. Em 1933, começa a ser pensado o projeto de construir um edifício que integre um hospital e uma faculdade, o que veio a concretizar-se em 1952, ano em que a faculdade inicia o novo ano escolar já no Edifício Egas Moniz, Hospital Santa Maria, um ano antes de o próprio hospital começar a funcionar.

Desde essa altura até agora, passaram-se 70 anos, com uma boa parte das gerações médicas da capital e do país a formarem-se ali. Hoje, continua a ser uma das faculdades preferidas dos alunos, precisamente por integrar um polo que reúne faculdade, hospital e um centro de investigação. E para fazerem jus a esta expectativa dos alunos, o diretor da FML, João Eurico da Fonseca, médico hospitalar, professor e investigador, assume que a missão está há muito definida: "Conseguirmos uma plataforma de excelência de ensino pré e pós-graduado, ao mesmo tempo que se dá investigação de excelência e se envolve a comunidade."

O subdiretor, Luís Graça, professor e investigador do iMM, relembra que "a faculdade tem História ligada à investigação, desde que foi criado o Gabinete de Apoio à Investigação, pelo professor David Ferreira, que permite aos alunos, a partir do 2.º ano, gerarem projetos de investigação". E João Eurico Fonseca reforça mesmo: "Uma parte motivacional importante para os novos alunos é a nossa ligação umbilical entre o hospital, faculdade e iMM. É o facto de integrarmos o Centro Académico de Medicina de Lisboa. E todos nós temos procurado ao máximo que esta articulação seja motivadora para todas as partes e para que se melhore cada vez mais as instituições."

É para esta ação articulada entre escola, prática clínica e investigação que a FML procura sensibilizar os alunos desde o primeiro momento - aliás, João Eurico da Fonseca e Luís Graça são exemplos das três versões: médicos, professores e investigadores -, com a missão de garantir aos alunos que "não vamos perder o seu potencial".

Ou seja, "nem todos vão querer as mesmas coisas, mas se há um que vai ser um brilhante neurocientista, cirurgião ou cardiologista queremos dar-lhe todas as ferramentas para que, durante a sua trajetória formativa, possa ver o seu potencial realizado". Uma trajetória que condiz com a missão de transformar este polo num com a marca de "excelência" da Europa.

Quanto a motivação, esta não falta. Nem a esta equipa, nem aos alunos, dizendo o diretor que esta "não é uma das nossas preocupações iniciais". "Se falar com os alunos vê que eles têm uma motivação enorme de estarem envolvidos na Medicina. É a primeira escolha de todos. O grande desafio é manter essa motivação ao longo do tempo", embora sabendo que é preciso também o contexto necessário, como condições para não se perder alunos ou novos médicos.

Segundo diz o diretor da FML, "todos os anos desistem 10 a 20 alunos do curso até ao 2.º ano". As razões não estão registadas, mas, hoje, quem vem estudar para Lisboa, tem de lidar com outros contextos, nomeadamente com o da integração e do alojamento, sendo que este último é mais elevado do que em qualquer outra região do país. Portanto, é preciso garantir que alunos e médicos recém-formados não abandonam a cidade, a profissão e nem o país por não terem o contexto necessário", refere João Eurico da Fonseca.

Sublinhando: "Há que olhar para um lado mais político da questão. Se não tivermos uma política de apoio aos jovens, em termos de habitação, corremos o risco de perder alunos durante o seu trajeto e os novos médicos. Em parte, porque depois não querem ficar numa estrutura que lhes exige imenso e lhes paga pouco. Depois, porque não têm dinheiro para pagar as suas despesas. E, desta forma, mais facilmente vão para fora de Lisboa, depois para outras profissões, que não médicas, e depois para a emigração", o que não é assim tão difícil, porque "os nossos estudantes são reconhecidos em todo mundo há muitos anos".

Para o diretor da FML "a primeira preocupação é a integração dos alunos. Daí, esta Semana de Acolhimento ser tão importante". "Temos de garantir que eles entendem bem ao que vieram e que se sintam o melhor possível dentro deste campus. Depois, é garantir que lhes damos todas as ferramentas para não perderam o seu potencial", incluindo nestas "a manta de colaborações que temos com todos os parceiros. O principal é o Hospital de Santa Maria, mas também temos outros, como o Beatriz Ângelo, Fernando da Fonseca, Garcia de Orta, IPO de Lisboa, ou os hospitais da Luz, CUF e Lusíadas, como os centros de saúde com quem colaboramos."

Ao todo, e tendo em conta os seis anos de curso, a FML ensina cerca de 2400 alunos. "A maior parte das aulas são neste campus, mas há várias áreas em que algumas são noutros locais, proporcionando aos alunos a abertura para outras experiências, outras realidades hospitalares, que estão a uma distância aceitável e para que possam fazer a sua deslocação sem grande complexidade."

Não há dúvida, no entanto, e por mais estratégias de motivação que a faculdade tenha, sobretudo para os alunos que escolherem a vertente médica, que "se o SNS não conseguir dar passos em frente, o trabalho em conjunto entre instituições que se fez desde o início da faculdade, pode esboroar-se. Portanto, se me perguntar o que é preciso o SNS fazer para prender estes jovens, direi que têm de ser criadas condições para que eles possam continuar a trabalhar em determinado local e condições para que possam ter acesso à habitação, a um preço razoável".

Esta, sim, é uma preocupação da faculdade, mas transversal a quem está no SNS, porque motivação não falta aos alunos. E quanto à pressão e à exigência do curso, os professores concordam que é assim em todos. "Os alunos têm de se dedicar", mas talvez Medicina crie um pouco mais de stress, porque, afinal, é preciso dar aos alunos a consciência de que estão ali para mais tarde cuidar dos outros.

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