Certa manhã, ao despertar após sonhos agitados, Gregor Samsa acordou transformado num stick de selfie. Estava deitado de costas, embora o seu novo formato, cilíndrico, não lhe permitisse saber muito bem onde se encontrava. Manteve-se quieto, os olhos sondando o quarto. Onde estava? Era uma divisão pequena, atafulhada de mercadorias. O sol nascia e homens negros, tão escuros e cintilantes como couro molhado, ajoelhavam-se e entoavam Allahu Akbar..Um dos negros pegou em Gregor, juntou-o a outros cilindros metálicos e saiu para as ruas de uma cidade de árvores em flor e sol a pique. Durante toda a manhã, Gregor pôde ouvir o negro ensaiando palavras em inglês diante de turistas indecisos. Um casal de chineses chegou a pegar em Gregor, olhou-o com displicência, disse que não com a cabeça. Gregor não estava desassossegado ou sequer teve medo, afinal, até esse momento - em que se metamorfoseou num acessório do ego -, a sua vida tinha sido um desfiar de previsibilidade e aborrecimento. Ainda vivia com os pais. Não tinha mulher ou filhos, embora prolongasse a acne juvenil na cara enrugada, de homem feito e acima do peso. No emprego - repunha as prateleiras de um hipermercado - era conhecido como "Badocha"..Sempre que o africano passava o stick para as mãos de um possível comprador, Gregor sentia-se exatamente como nas poucas vezes em que os clientes do hipermercado lhe pediam ajuda para encontrar as secção das pizas congeladas - pela primeira vez, em muito tempo, alguém lhe prestava atenção..Por fim, quando o sol começava a baixar e o africano parecia cansado, um grupo de rapazes aproximou-se e, depois de pagar, levou Gregor a sair à noite. Foi usado, mas gostou. Serviu para que fizessem fotos ao lado de estátuas, documentassem pratos de comida e o vómito de quem não aguentou a tequila. Em determinado momento, testemunhou a excitação dos rapazes com a presença de um famoso, e também ele experimentou a mística de estar perto de um deus da TV, de participar de uma celebrity selfie..Quase ao raiar do dia, quando o grupo devorava hambúrgueres de rulote para saciar a larica, apareceu um par de miúdas de maquilhagem estiolada, vacilantes na língua, mas seguras nos saltos. Fizeram selfies com os rapazes e trocaram números de telefone. Na despedida, em vez de flores, foram presenteadas com Gregor. "Para que te lembres de mim quando fizeres uma selfie", disse o mais romântico..As raparigas levaram Gregor para o quarto de hotel onde estavam hospedadas e, bêbedas, fotografaram-se em roupa interior, no espelho da casa de banho, sonhando com cirurgias corretivas e simulando beijos na boca, um espetáculo privado que Gregor, com a pulsação a galope, só tinha visto em sites da especialidade..A televisão estava ligada quando elas adormeceram e, como fazia em casa, Gregor passou horas diante dos reality shows: programas sobre lojas de penhores, cônjuges infiéis, swingers sexuais, mães adolescentes, cozinheiros amadores, obesos com mais de 200 quilos, restaurantes falidos, nudistas que compram casas, ingleses de férias na costa de Newcastle, tatuadores, operações plásticas, crianças em concursos de beleza e casos estranhos nas urgências de um hospital. A lista era infindável, mas em todos eles Gregor invejava o protagonismo dos participantes, mesmo dos pobres, dos gordos, dos desfigurados por injeções de colagénio. Eles estavam na TV, eles apareciam, tinham milhares de seguidores no Twitter, a vida estilizada, com banda sonora e efeitos especiais..Gregor rolou para o chão, para fora do quarto e pelas escadas abaixo. Preso numa das suas extremidades, levava o telefone de uma das raparigas. Pôs uma playlist a tocar e ligou-se à internet, avançando pela cidade como se num videoclip. Ninguém reparava nele, afinal, havia sticks de selfie por todo o lado e as pessoas caminhavam, olhando para os seus telefones, com a cabeça apontada ao chão..Numa cidade nova, com um formato novo, Gregor convocara a coragem que sempre lhe faltara e, elegante como pau que era, decidiu que também a sua vida daria um filme ou pelo menos um post no Facebook com milhares de likes..Nesse mesmo dia inscreveu-se num reality show de talentos. Os participantes tinham de ser coisas inúteis, que os homens não dispensavam. No dia das audições, estavam lá tamagochis, bancos de papelão oferecidos em festivais de música por uma marca de cervejas, dois Apple Watches, que um milionário chinês oferecera ao seu cão, e, pelo menos, uma centena de brindes de jornal..Quando o júri perguntou o que ele fazia, Gregor respondeu:."Autorretratos."."Como um pintor."."Não, como a Kim Kardashian."."E qual é o teu sonho?"."Ser viral."