Sejam bem-vindos à arte da coligação

Existe um padrão de alianças na União Europeia e estas, na sua maioria, são do centro-direita <br />
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Ao precisar de formar coligação de governo, o Reino Unido mudou a política interna de maneira radical e ficou mais parecido com os restantes países europeus. Entre os 27 Estados da UE, só há cinco governos com um único partido no poder e, talvez por coincidência, pertencem a países afectados pela crise económica: Grécia, Portugal, Espanha, Malta, Bulgária. Na Europa fora da UE, apenas a Turquia.

No continente politicamente mais estável do mundo, a coligação é a norma, embora as alianças sejam diversificadas, do bloco central a uniões insólitas, com domínio para o centro-direita.

Na Bósnia existe um governo de unidade, e a Suíça tem tradição do consenso. A Bélgica é um caso à parte. Trata-se de um país tão federal que a formação de coligações se torna um verdadeiro quebra-cabeças de equilíbrio entre sensibilidades e línguas. Estes três Estados foram classificados no gráfico como tendo governos de bloco central, mas a definição é imprecisa. A Áustria é a única verdadeira grande coligação do lote.

Foi também incluída uma classe de países onde o Governo é dominado pelo que alguns politólogos classificam de partidos pós-comunistas, quase sempre em coligações. Trata-se de democracias onde a formação dominante resulta de uma evolução com origens no partido único do anterior regime comunista. No Leste da Europa é ainda o tipo de combinação mais usual. A Eslováquia é um caso particular de coligação entre pós-comunistas e neofascistas. E na vizinha Hungria, que se desembaraçou dos seus pós-comunistas, o centro-direita ganhou dois terços do Parlamento, mas concorria em coligação, pelo que há dois partidos no bloco vencedor.

Basta olhar para o gráfico e torna-se notável como o centro-direita domina as coligações no poder na Europa. Ao todo, 15 países da União Europeia e mais cinco do resto do continente. Chipre Norte foi incluída na lista, como território onde há eleições separadas. Na realidade, não é uma nação internacionalmente reconhecida e faz parte da República de Chipre.

No que respeita à UE, a 16 coligações de centro-direita é preciso juntar três países em situação de bloco central (dois deles com primeiros-ministros de direita) e ainda um com governo de maioria absoluta (Malta).

O somatório dá 19 à direita contra oito à esquerda e, entre estes, um tem bloco central e três são pós-comunistas. Chipre é um caso particular: trata-se do único país europeu com um governo de coligação dominado pelo Partido Comunista.

A tradição de coligações tem raízes mais fortes no Norte da Europa. A Alemanha é o grande modelo, com larga tradição baseada na complexidade do seu sistema federal. No domingo, houve eleições na Renânia do Norte-Vestefália e a coligação nacional (entre conservadores e liberais) foi derrotada. A aliança constituída a nível estadual servira de ensaio para aquela que foi criada a nível nacional em Setembro passado. Por isso, a derrota na Renânia teve impacto em Berlim. Os liberais já abandonaram uma das suas propostas emblemáticas.

O Reino Unido não tem tradição de coligações, excepto em tempo de guerra. O seu sistema eleitoral (que poderá ser reformado) beneficia o equilíbrio bipartidário e a formação de maiorias estáveis com parcelas de voto bem inferiores a 50%. Por isso, os governos são geralmente de um único partido.

Em 1915, liberais e unionistas formaram uma coligação para gerir a intervenção na guerra mundial. E em 1940 Winston Churchill formou nova coligação de guerra com os trabalhistas. Estas foram as excepções. Em tempo de paz, a combinação podia ser dispensada e, com parlamento suspenso, acreditava-se nas virtudes do governo minoritário. É por isso que a adesão dos ingleses à arte da coligação governamental constitui um acontecimento tão invulgar.

Portugal também terá de aprender. Em 36 anos de democracia, a norma foi de governos de um único partido, de preferência com maioria absoluta.

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