Não é a primeira vez que trabalha em conjunto com o João Gil, seu marido. Quando começou esta "parceria"? Tenho a sensação de que desde que vivemos juntos, há 16 anos, começámos a trabalhar um com o outro de um modo espontâneo. Partilhamos a mesma visão em relação aos processos criativos, sejam eles da escrita - que ambos praticámos -, ou de cinema, e que de algum modo acabámos por fazer com a obra Viagem pelo Esquecimento (agora patente na Bienal de Cerveira), ou da música, que eu ouço mais e o João tem a felicidade e o talento para compor..Em 2016 criámos o espetáculo Casados de Fresco, no qual o João iniciou este processo de cantar as suas próprias canções, facto praticamente inédito, visto que até então tinha formado bandas com vocalistas e eram eles quem levava as canções ao público. Nesse ano fomos ambos para o palco, onde eu desenhava ao vivo, projetando em direto o que desenhava num tablet. Os desenhos criados no momento iniciavam-se com os primeiros acordes da canção e terminavam no último dedilhar. Fizemos sete espetáculos em Portugal continental e Madeira. Foi a minha descoberta sobre o impacto nas plateias das imagens em movimento. Diria que foi o embrião do trabalho cénico que agora iremos apresentar no Coliseu dos Recreios, dia 17 de setembro..Foi a música do João que inspirou as imagens? Preciso de música para pintar. Formei-me em Design e o mais atrás que me recordo de mim é a desenhar, sempre acompanhada por música - desde o tempo do rádio a pilhas, em Moçambique. Faço as minhas playlists no Spotify há muitos anos. Podem ouvir a que criei para a TSF em 2015 - está online -, perceberão de que modo sempre pintei ao som do fado de Amália (que tive o imenso privilégio de entrevistar para o Expresso, algures em 1995, na sua casa na Rua de São Bento). É nas metáforas das letras das canções que descubro motivos de interesse para me expressar plasticamente. E é também através das grandes canções que me mantenho ligada à poesia e ouço os novos e antigos poetas. Muitos dos grandes letristas atuais são os poetas do último século. Não é à toa que Bob Dylan mereceu o Nobel da Literatura. Chico Buarque devia recebê-lo também. Tudo para chegar ao João e à inacreditável facilidade com que trouxe os grandes poetas para a música popular portuguesa e como ele próprio sempre foi escrevendo letras. No caso do novo álbum, 46 JG 22, as letras são inteiramente escritas por ele. Por fim, eu sou uma esponja da música que ouço, e, vivendo mergulhada nas letras das canções, sabendo-as quase sempre de cor, sei que é na música que o meu subconsciente divaga para produzir imagens..São um casal de artistas em diferentes campos . Sente que cada um compreende bem aquilo que as obras do outro pretendem transmitir? Sinto que nos influenciamos e inspiramos mutuamente. Também discutimos, no sentido em que dissecamos e aprofundamos a arte que procuramos assimilar. Viajamos para feiras de arte para ver exposições. Mas não nos intrometemos na arte um do outro. Naturalmente, o nosso senso comum artístico funciona em paralelo e acabamos por nos encontrar com agrado nos resultados finais..Levo vantagem nos motivos de inspiração, porque o João tem 46 anos de produção artística intensa e profícua. O cancioneiro, o legado dele, toca nas rádios, nos supermercados, nos restaurantes! É uma espécie de omnipresença que me alegra a mim e a centenas de milhares de pessoas..O meu percurso artístico, que também dá alegria a milhares de pessoas visto que tenho obras públicas nos concelhos de Cascais e Oeiras (murais), tem 10 anos e está agora a consolidar-se. O tipo de arte que crio, apesar de pop, é menos tangível a um público vasto. Vai devagar. Mas vai! E por vezes perdura mais na história..Citaçãocitacao"Os cenários para o Coliseu cantam e dançam com as canções. São uma alegoria das letras e das melodias2. .Alguma das obras que propôs foi "vetada" pelo João? Quando dizia que discutimos, no bom sentido, é porque procuramos diariamente a opinião um do outro. Não há vetos de parte a parte. Somos muito senhores dos nossos narizes. Talvez seja eu a mais deliberativa. Tendo a rejeitar facilmente o que me parece já visto ou ouvido. Deteto defeitos e erros com uma quase obsessiva acuidade. Vivo profissionalmente para descobrir o novo, para experimentar, fazer, errar, aprender e seguir fazendo de novo. O que mais me fascina no processo criativo é o "durante", o testar de caminhos não percorridos, o risco, o convívio intelectual com aqueles de que me rodeio. Isso para um artista é que é viver..Este projeto foca-se no tema da sustentabilidade ambiental. Esse é um tema que tem peso na obra? A Viagem pelo Esquecimento aborda também a nossa pegada humana. O que fomos para o planeta, as mulheres, o amor, as cidades, os mares, os migrantes e os escravos. É uma obra de que muito nos orgulhamos, feita em estreita colaboração com o escritor moçambicano Mia Couto e um alargado grupo de músicos, fotógrafos e cineastas. Inaugurou no MAAT, em Lisboa, e está agora em Cerveira, como referi. Irá viajar um pouco por todo o mundo..Qualquer artista sensível ao seu tempo compreende que está nas nossas mãos criar obras que alertem no sentido que não nos tornemos numa espécie autofágica. É por demais urgente desenvolver uma consciência ecológica nos mais pequenos gestos diários, que vão da separação do lixo à utilização consciente da água que temos o enorme privilégio que nos corra nas torneiras..Seria ridículo, inglório, miserável mesmo se ao cabo de milénios de sobrevivência e de tamanha entreajuda para continuarmos cá, chegássemos a um ponto tal de evolução que nos desse para perder o juízo e nos extinguíssemos..Os cenários para o Coliseu cantam e dançam com as canções. São uma alegoria das letras e das melodias. Não sendo ilustrativos, eles criam imaginários paralelos, fruto das minhas abstrações dos temas e das músicas. O que posso garantir a quem, no dia 17 de setembro, esteja na plateia do Coliseu dos Recreios é que sairá da sala com olhos regalados e a alma desperta..Porquê a opção de ter imagens animadas durante o concerto? Pintura em movimento. É a melhor designação que encontro para o trabalho que tenho realizado nos últimos quatro anos. Embora hoje se defina como videoarte. Trabalho com uma equipa de audiovisuais que tem sido uma feliz descoberta: a ADLC. Gente nova e aberta a experimentar todo o tipo de imagens e animações que desenvolvo. Alguns cenários são mais animados do que outros. É estarem lá para ver..Que impressão espera causar no público durante o espetáculo musical com o seu trabalho? A melhor! Sei que será surpreendente..Uma pergunta para o João. O concerto marca os 46 anos de uma grande carreira. O que espera dos próximos 46? João Gil: Espero ter saúde!.filipe.gil@dn.pt