"Velhinho! Livra-nos desta enrascada do Salazar", terá dito uma mulher do povo, "paupérrima", metendo a cabeça no automóvel onde seguia o general Norton de Matos, no trajeto entre Évora e Beja, tão apinhado de gente como os comícios no Porto, recordaria Mário Soares em Portugal Amordaçado..Apesar de "um setor significativo [dos dirigentes do MUD], próximo do Partido Comunista - Mário Soares, Maria Isabel Aboim Inglês e Tito de Morais - tivesse começado por preferir Mário de Azevedo Gomes", como refere João Madeira em História do PCP, pois o "agrónomo seareiro" era "a nossa referência" (Ditadura e Revolução), a personalidade do ex-grão-mestre da Maçonaria impôs-se ao jovem político. "O general, apesar dos seus oitenta anos, conservava uma energia de ferro e uma lucidez admirável", enaltecia Soares quando, aos 46 anos, escreveu Portugal Amordaçado - sem imaginar que, também ele, na longevidade, imitaria o vulto que chamava aos políticos do regime "pigmeus"..Em finais de 1948, vencidas as resistências do Partido Republicano Português, do grupo de Cunha Leal e da opinião de António Sérgio, o general aceitava concorrer, pela oposição, às presidenciais de 1949, contra um já decrépito marechal Carmona - pois para Salazar, salientava Mário Soares, "uma simples figura de palha serviria para ocupar a Presidência da República" (idem). Na época, garante Pacheco Pereira na sua biografia de Cunhal, o jovem Mário, então com 24 anos, "movia-se com enorme habilidade nos meios oposicionistas lisboetas, beneficiando das relações sociais que o seu pai tinha em pleno coração da conspiração republicana. Através de uma ativa participação em tudo o que era tertúlia, movimento ou grupo, Soares dispunha já de uma invejável rede de amizades e de contactos, não só com as pessoas da sua geração, mas com oposicionistas mais velhos. Entusiasta, ativo e prosélito, o jovem comunista estava em todo o lado e ia a todo o lado" (Duarte - O Dirigente Clandestino)..Muito discreto na sua militância comunista, logo se tornou secretário de Norton de Matos na Comissão Central da candidatura. A "casa modesta", na Rua do Quelhas, onde o candidato vivia com uma "devotadíssima sobrinha", tinha sido transformada em sede e Soares "despachava diariamente com o general", que o recebia na cama, depois de ler o Times, "recostado numa série de almofadas" (Ditadura e Revolução). E foi ele que chamou o amigo Júlio Pomar para fazer o retrato que ilustraria os cartazes. "Em pouco tempo, e com uma economia de traços impressionante, fez um desenho que foi julgado por todos sensacional" (Portugal Amordaçado)..Os comunistas, ao tomarem conhecimento do facto, ficaram "encantados", mas o amigo do pai do seu secretário não suspeitava que o jovem que dinamizava a sede e a enchia com rostos do MUD Juvenil (as comissões distritais tinham sido transformadas em comissões de apoio à candidatura) se tornara, sustenta Pacheco Pereira , na "principal peça do PCP na candidatura" (idem). Nem tudo era unanimidade, chegando a haver até os que advogavam a ida às urnas e os que se mantinham contra qualquer colaboração numa previsível "fraude eleitoral"..Churchill proferira, três anos antes, a frase que, simbolicamente, inaugurou a Guerra Fria: "De Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente." E, agora, os setores moderados da Oposição "começavam a revelar-se mais anticomunistas do que antifascistas" e o próprio Norton, perante o fantasma que o regime agitava do perigo vermelho, até queria denunciar o compromisso unitário, mediante uma declaração pública anticomunista, mas seria dissuadido dessa posição (ibidem).."Neste contexto", frisa João Madeira, "à medida que crescia a tensão entre as correntes e os setores apoiantes do general, o PCP prefere impor a presença de um representante nos serviços centrais da candidatura. É em Mário Soares [até essa altura representante da Comissão Central do MUD Juvenil] que recai essa incumbência" (idem), com o Secretariado do partido, primeiro através do seu controleiro e depois num encontro com José Gregório, a comunicar-lhe que não só devia declinar a sua militância como comunicar que passava a ser o representante do PCP na candidatura. Após uma primeira fase em que recusou cumprir aquela diretiva - "quereriam atirar-me para a clandestinidade?", como avisavam os seus amigos (Um Político Assume-se) -, acabou por ceder, comunicando ao general, então com 82 anos, que resolvera aderir ao PCP. "Ah! Sim", estranhou o candidato, "[olhando-o] por detrás dos óculos" (Ditadura e Revolução) e "fixando-[o] com um olhar frio, impenetrável" (Um Político Assume-se).."A reação do general e do seu círculo mais próximo é devastadora face à revelação do próprio Soares, a meio da campanha, de que a partir daí seria o representante oficial do PCP. Não só seria desalojado do gabinete que ocupava, como proibido de aceder ao piso da sede da candidatura em que funcionava o general e o grupo mais chegado de colaboradores, e ainda proibido de participar visivelmente nas sessões e comícios públicos (História do PCP). "Nunca mais [o] recebeu", "estava banido" - e Norton de Matos até se foi queixar a João Soares que o filho, afinal, era um comunista. Depois, "foi um final de feira desagradável: por fora, a sede da candidatura, dia e noite cercada pela PIDE; lá dentro - onde [esteve] até ao fim - a Comissão queimando todos os papéis que pudessem ser comprometedores" (Ditadura e Revolução).