"Se não houver fraude do povo do mal, Bolsonaro ganha dia 30"

Como Jair Bolsonaro, com taxas de rejeição tão altas no país e tão mal visto no estrangeiro, conseguiu convencer 43% dos compatriotas, no dia 2? O DN ouviu as explicações de eleitores e de especialistas.
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Enquanto o PT estiver do outro lado, serei por quem for o seu maior inimigo", diz Thais Menegucci, personal trainer, atleta e professora de beach tenis, ao DN, ainda nem a reportagem tinha perguntado nada mas já adivinhando a razão do contacto. "Como, no caso, o maior inimigo do PT é o Bolsonaro, o maior combatente do crime é o Bolsonaro, terá o meu apoio", acrescenta.

Ela, moradora da região de Ribeirão Preto, interior do estado de São Paulo, onde Jair Bolsonaro teve votações muito acima da média nacional, atribui ao PT, de Lula da Silva, a razão do seu voto no rival. Mas há mais explicações. Outros ouvidos pelo DN falam em "valores cristãos", em "defesa da família", em "amor à pátria", em "luta do bem contra o mal". E não têm dúvidas de que Bolsonaro, que somou 43% contra 48% de Lula na primeira volta, vencerá dia 30 - caso contrário, será fraude.

"Eu voto Bolsonaro porque não existe corrupção no governo; porque ele cortou o dinheiro de gente vagabunda, como esses artistas que querem captar dinheiro do estado para fazer o que bem entenderem, sendo que eu aqui tenho que trabalhar como uma louca para pagar contas e porque ele é o maior símbolo contra a esquerda, em especial o PT, que destruiu a economia do país com tanta roubalheira", continua Menegucci.

"Eu sou trabalhadora autónoma, preciso que as pessoas tenham emprego para que eu tenha trabalho, porque se ficarem desempregadas, e isso vai acontecer se o PT voltar, a primeira coisa que eles cortam no orçamento sou eu, e eu sem trabalho deixo de ir fazer a unha, deixo de ir fazer cabelo, e por aí vai, deixando outros profissionais também sem trabalho, não tem como querer isso para a vida!".

Ao longo do mandato de Bolsonaro, nada abalou o apoio de Thais ao presidente, nem a condução da pandemia. "É curioso citarem "a condução da pandemia" como se tivesse sido ele o criador do vírus, ele esteve certo o tempo todo ao dizer que todos deveriam ter a liberdade para sair de casa, ir trabalhar, o Supremo Tribunal Federal tirou essa prerrogativa dele e jogou-a para os governadores", sublinha. "O meu governador [de São Paulo] era o [João] Doria, que conduziu tão mal a pandemia que sumiu da vida pública porque não pode dar um passo sem ser hostilizado em qualquer lugar do mundo".

"Querem jogar a culpa no presidente pelas mortes no país pela covid, mas e no resto do mundo, é culpa dele também? Esse povo é lunático e hipócrita. Na pandemia, ia pegar quem tivesse que pegar, ia morrer quem tivesse que morrer. Eu andei sem máscara praticamente o tempo todo, do início ao fim, estive com pessoas contaminadas, e não peguei nenhuma vez".

A arquiteta Andreia Baratella, amiga de Thaís, acrescenta outras motivações para o apoio ao atual presidente. "Já acompanho o Bolsonaro desde os tempos de deputado, ele não se envolve em corrupções, privilegia os valores cristãos e o amor à pátria, preocupa-se com o potencial do nosso país, acredito que os seus valores, de defesa da família, traduzem os valores dos cidadãos de bem".

"O meu apoio jamais foi e jamais será abalado. Pelo contrário. Só cresce", afirma.

"E ele tem tudo para ganhar no dia 30, a não ser que o povo do mal continue burlando todas as regras possíveis para passar por cima de tudo e todos, os candidatos que Bolsonaro apoia foram eleitos em massa graças à população que defende o bem acima de qualquer coisa".

O líder evangélico Gladiston Amorim, conhecido como Pastor Dinho, esteve internado por 53 dias, 52 dos quais nas urgências de um hospital de Campo Grande, a capital do Mato Grosso do Sul, onde chegou a ser dado como morto na sequência da covid. "Respirava, o coração batia, os rins ainda funcionavam, mas os outros órgãos estavam parados", contou ao DN, em 2021.

Mudou, por isso, radicalmente a sua perceção em relação à doença naquela altura - "chamar-lhe gripezinha é uma bobagem" - mas poupava o autor da expressão - "ele está aprendendo a lidar com a pandemia, como outros políticos de outros países, como Portugal, estão aprendendo, não é justo responsabilizá-lo".

Um ano e nove meses depois, o Pastor Dinho segue bolsonarista, sem hesitações. "Continuo a apoiá-lo, com certeza, não existe nenhum facto novo que o descredibilize, pelo contrário, mais do que nunca o Brasil precisa dele para não incorrer em coisas perigosas do passado que tanto prejudicaram a pátria".

"Ele, apesar de ser impetuoso e um pouco desrespeitoso no discurso, nem sempre concordo com a forma como fala, respeita a Constituição e a lei, apesar, repito, de, pelo jeito como ele fala, às vezes parecer meio ameaçador".

Ao longo do mandato, o religioso tremeu no seu apoio apenas numa ocasião. "Houve um momento em que tive um choque, quando o ministro Sergio Moro abandonou o governo, mas depois o presidente apaziguou-nos o coração ao falar daquela forma verdadeira e franca dele, expondo os factos". "Foi só um susto", remata.

O pastor não ficou surpreendido com a votação de Bolsonaro, dia 2. Pelo contrário: ficou chocado com a de Lula: "Não acho que tenha sido expressiva a votação no Bolsonaro, não. Eu esperava que ele fosse eleito já à primeira volta. O que é expressivo é a manifestação popular nas ruas a favor dele, nunca houve um presidente na história que movesse tantas multidões. Para mim, surpreendente foi a votação do Lula, que nem sequer consegue estar em lugares públicos sem ser vaiado por culpa do seu histórico".

"Se a eleição dia 30 for limpa, se não houver manipulação nem fraude, as ruas já manifestaram a sua escolha. Só os institutos de sondagem não querem admitir a vitória com folga de Bolsonaro", continua.

E os evangélicos, como ele, podem ser decisivos. "Somos 30% da população brasileira e a fé cristã é a favor da família tradicional, das liberdades individuais, da propriedade, o povo brasileiro é conservador, já a esquerda, por princípio, é ateísta e pela desconstrução da família, os progressistas o que querem é destruir a cultura judaico-cristã, por isso, pouquíssimos evangélicos apoiam o programa da esquerda e, por isso, eles podem ser essenciais nesta eleição".

Fábio Baldaia, investigador do Instituto Federal da Bahia, disse que "existem elementos de longa duração na forma de ser brasileira que explicam a ascensão e a resiliência política de Bolsonaro mesmo após a pandemia e uma gestão com pouco êxito da economia nesse período".

"Eu não diria que há uma essência conservadora no brasileiro, mas sim elementos daquilo que a gente chama de "Brasil profundo" que podem ser traduzidos como uma ideia de conservadorismo", disse à BBC Brasil. "São elementos relacionados à manutenção da ordem, à família, a uma certa visão da segurança pública que ainda existem no Brasil com bastante força".

Camila Rocha, cientista política e investigadora do Centro Brasileiro de Análise e Planeamento, fala em "purificação" do eleitorado bolsonarista. "Nas pesquisas qualitativas, observamos ao longo do tempo que o eleitorado do Bolsonaro foi se purificando, se decantando e ficando cada vez mais homogéneo, no sentido de reproduzir o discurso do núcleo duro do bolsonarismo", afirmou em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

"As pessoas reproduziam ipsis litteris o discurso do Bolsonaro nas lives e nas redes sociais (...) e dos canais bolsonaristas, como a [rádio e tv] Jovem Pan. Todos são ferrenhamente anti-PT, contra a ideologia de género, contra a possível legalização do aborto, por essa coisa de Deus, família e liberdade, enfim, todos esses temas clássicos do bolsonarismo, podia só haver eventualmente diferenças em relação às armas", diz.

O cientista político Alberto Carlos Almeida, autor do livro recém-publicado "A mão e a luva: o que elege um presidente", ainda vê Lula como favorito dia 30. "Mas o bolsonarismo mostrou muita força elegendo figuras ligadas a Bolsonaro com votações muito grandes".

"Porém alguém que disputa a reeleição ficar em segundo lugar e o seu adversário quase vencer à primeira volta também expõe fraquezas nele, o desempenho do Lula foi excelente e, teoricamente, é muito mais fácil para ele ganhar dia 30 do que para Bolsonaro".

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