Saúde emocional e burnout

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Será que já parou para pensar o quão importante, rico e complexo é o nosso cérebro? Bem, se ainda não o fez, hoje é um excelente dia para isso. Hoje celebra-se o Dia Mundial do Cérebro, uma iniciativa da Federação Mundial de Neurologia, que teve início em 2014 e é comemorado anualmente no dia 22 de julho. Esta iniciativa tem como objetivo fomentar a discussão sobre a importância do papel do cérebro nas nossas vidas e na nossa sociedade. E neste ano de 2022, o Dia Mundial do Cérebro é dedicado ao tema "Saúde cerebral para todos".

Com um peso médio de 1400 g e cerca de 86 mil milhões de neurónios, o nosso cérebro continua a ser fonte de inúmeras descobertas. Hoje já sabemos que apesar de representar apenas 2% da nossa massa corporal, o cérebro consome em média de 20 a 25% da energia produzida pelo corpo. O principal combustível do nosso cérebro é a glicose, através da queima de calorias. Sim, eu imagino o que pode estar a pensar agora: "Hummmm... então se o cérebro queima tantas calorias, então pensar emagrece!" No caso, não é bem assim que funciona. Desculpe desapontar e desmontar a sua alegria momentânea, mas vários estudos mostram que esse consumo é o natural do organismo, então pensar só emagrece, mesmo, se estiver a pensar enquanto corre na passadeira, anda de bicicleta ou faz qualquer outra atividade física em simultâneo.

Para muitas pessoas, o cérebro é associado apenas à atividade de pensar, mas graças aos biliões de conexões entre os neurónios e à ação de diversas hormonas, o nosso cérebro permite-nos ler, ouvir, escrever, falar, aprender, pensar, planear, locomover, analisar, resolver problemas e sentir.

Mas e quando o cérebro começa a ter a função afetada devido ao stress? E é exatamente sobre isso que eu gostava de falar. Os últimos dois anos têm-nos mostrado o quanto o stress crónico pode ser prejudicial à nossa saúde física, mental e emocional. Ainda mais quando nos referimos ao ambiente de trabalho. Todas as adaptações, como novas rotinas, teletrabalho, as incertezas, o medo da covid e o desafio de conciliar as questões pessoais e profissionais nos afetaram a todos, dos funcionários da base até aos mais altos cargos de liderança das organizações. Mas todo esse stress crónico, que já atingia níveis alarmantes no período pré-pandemia, chega de forma avassaladora a Portugal. Como exemplo, uma pesquisa mostrou que um em cada cinco portugueses sofreu de sintomas de ansiedade e depressão durante a pandemia, tendo havido com isso uma explosão do consumo de ansiolíticos e diagnósticos de crises de ansiedade e depressão.

Os nossos cérebros são desafiados diariamente a gerir uma série de sentimentos devido à pandemia, guerras, crises económicas, mudanças climáticas, tudo isto a nível macro, a nível global. São muitos sentimentos vividos, sejam eles com impacto negativo ou positivo em nós. Mas e quanto falamos daqueles que são os nossos principais desafios? Sabe, aqueles mais quotidianos, que dizem respeito à nossa vida pessoal, bem próximos de nós, tais como o medo de perder o emprego, a ansiedade pela situação futura, a preocupação com o bem-estar daqueles que amamos, por não termos respostas para tudo. Como lidar com todos esses sentimentos?

Bem, vamos lá, como diria a minha mãe: "Vamos começar pelo começo?" Sabe a diferença entre emoção e sentimento? Sim, emoção e sentimento são coisas diferentes. Existem algumas teorias para esta diferenciação, mas basicamente podemos dizer que a emoção é uma reação imediata a um estímulo, mexe connosco mas não envolve pensamento. Já o sentimento envolve um alto grau de componente cognitivo, de perceção e avaliação de algo. Emoção é reação, enquanto sentimento é construção. Ou seja, o nosso cérebro é o centro das nossas emoções e sentimentos. Tudo o que sentimos está diretamente ligado aos nossos pensamentos.

E como fazer quando todo este stress crónico está diretamente ligado ao trabalho? Neste caso, estamos a falar do burnout, ou síndrome do esgotamento profissional, normalmente caracterizado pela exaustão emocional, diminuição da realização profissional e uma série de sintomas físicos, tais como: alteração no sono e tensão arterial, fadiga, enxaquecas, etc.

Há estudos que têm mostrado que o burnout afeta diretamente a nossa capacidade cerebral. A pesquisadora Amy Arnsten, professora de Neurociência da Escola de Medicina de Yale, que estuda os mecanismos neurais do esgotamento, alega que o burnout afeta negativamente a ação da região do cérebro chamada córtex pré-frontal. Esta região é responsável pela capacidade de raciocínio e análise cognitiva; desta maneira, o burnout afeta diretamente a capacidade de aprendizagem e manutenção do foco em atividades, aumentando o risco de erros. Outro ponto importante é que, além disso, este esgotamento também pode aumentar a amígdala. Calma, não estou a falar daquelas "bolinhas" que ficam na nossa garganta. Existe uma região no nosso cérebro também chamada amígdala. Ela é responsável por regular a resposta de "luta ou fuga" quando estamos em perigo. E quando ela aumenta, os circuitos responsáveis pelas emoções, como o medo, vão ficando mais fortes, influenciando a nossa forma de perceção, criando uma visão mais negativa dos cenários.

O burnout é uma doença de caráter social relevante, pois afeta não só o próprio indivíduo, mas também as pessoas ao redor, sejam familiares ou colegas de equipa, as empresas e a sociedade. Sem falar no impacto económico causado. Segundo a OPP, somente em Portugal, estima-se que o stress e o burnout, ao gerarem absentismo, erros e acidentes de trabalho e redução de produtividade, custem às empresas 3,2 mil milhões de euros ao ano.

Mas deve estar a fazer as seguintes perguntas: "Como acontece o burnout? O que contribui para o seu aparecimento?" Então vou referir os motivos principais, de acordo com as mais recentes pesquisas: aumento elevado da carga de trabalho, um baixo propósito ou significado nas atividades profissionais, excesso de carga horária, com pouca ou nenhuma pausa de descanso, conflitos de relacionamentos em equipa, execução de atividades/tarefas perigosas, ausência de uma liderança empática e dificuldade em gerir com equilíbrio a vida pessoal e a profissional.

Eu lembro-me quando, em 2013, trabalhava como bombeiro militar no Rio de Janeiro. Ser militar no Rio de Janeiro é uma atividade por si só perigosa, e apesar de ser uma belíssima profissão, não nasci para o militarismo e nem ele nasceu para mim. Eu não tinha nenhuma sensação de conexão com as atividades que desempenhava. Todos os dias acordava já cansado e com náuseas. No domingo à noite, já passava mal ao lembrar-me que teria de ir trabalhar no dia seguinte. Lembro-me de um dia acordar às 5 da manhã, vestir a farda e sair de casa para trabalhar. No trajeto para o quartel, senti o coração acelerar, um aperto no peito, falta de ar, e lembro-me perfeitamente de pensar: "Estou a ter um enfarte." Parei o carro no meio da rua, saí para respirar e decidi ligar para o quartel a pedir ajuda aos amigos. Ou seja, é isso mesmo, um bombeiro a pedir ajuda aos bombeiros. Ao chegar, fui atendido no posto médico e fui aconselhado a marcar uma consulta de psicologia. Mas assim como muitas pessoas, cheio de preconceito, disse: "Não sou maluco, para ter de ir a um psicólogo." Hoje tenho quase a certeza de que tive uma crise de ansiedade por estar a sofrer um burnout.

Hoje em dia, ainda há muitos portugueses que enfrentam estes desafios sozinhos, seja por medo, por vergonha ou por falta de apoio. Estamos em constante avanço, mas acho que muitas pessoas e empresas ainda alimentam alguns preconceitos. Hoje já está mais do que comprovado o quanto as empresas necessitam de implementar ações para o desenvolvimento de ambientes que gerem bem-estar para os seus funcionários. Seja através de eventos, de momentos em equipa ou oferta de apoio profissional. Mas que o verdadeiro foco seja na construção de um ambiente onde cada indivíduo se sinta seguro emocionalmente, onde cada um seja tratado como um ser único, longe do medo do julgamento punitivo.

Uma pesquisa na Universidade da Califórnia mostrou que um funcionário feliz é 31% mais produtivo e três vezes mais criativo. Não estamos a falar de um local de trabalho onde todos passem o dia a rir, mas de um ambiente onde cada um sinta que está seguro e se sinta à vontade e com desejo de usar totalmente a capacidade social, mental e emocional.

Assim, como é um problema que nos afeta a todos, a solução deve passar também pela ação de todos. Acredito que quanto mais aproveitarmos datas como a de hoje e eventos para falarmos sobre a importância de como funcionamos internamente, mais a sociedade e o mundo como um todo têm a ganhar. A célebre frase de Sócrates nunca se fez tão presente: "Conhece-te a ti mesmo!"

Fábio Borges, palestrante e mentor na área da saúde emocional

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