Saudades do Brasil

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Se fosse pelo ainda Presidente, não haveria agora democracia no Brasil. Para os populistas autoritários, os votos só servem para alcançarem o poder, nunca para os apear. Valeu a solidez das instituições e uma réstia de bom-senso dos seus principais aliados, que tornaram inviável qualquer tentação de Bolsonaro se manter no poder, apesar da derrota.

Em contraste, o discurso de vitória de Lula da Silva é um verdadeiro tratado de reconciliação nacional. "Vou governar para 215 milhões de brasileiros, e não apenas para aqueles que votaram em mim. Não existem dois Brasis. Somos um único país, um único povo, uma grande nação. Não interessa a ninguém viver numa família onde reina a discórdia. É hora de reunir de novo as famílias, refazer os laços de amizade rompidos pela propagação criminosa do ódio. A ninguém interessa viver num país dividido, em permanente Estado de Guerra. Este país precisa de paz e de união."

O país precisa e o povo também, mas será difícil unir este Brasil. Bolsonaro usou a estratégia básica de qualquer populista: dividir, antagonizar, colocar uns contra os outros. Os ódios que estimulou não serão fáceis de apaziguar.

Bolsonaro poderá sair de cena e deixar o palco a outros bolsonaristas, muitos dos quais alcançaram importantes vitórias. Ou, como Trump, manter-se na liderança da oposição, envenenando o ambiente político até que o ressentimento cresça e lhe traga nova oportunidade. Em qualquer dos casos, a governação do Brasil exigirá muita perícia e permanentes acordos entre fações desavindas. Uma tarefa hercúlea.

No palco internacional, o mundo respirou de alívio com a eleição. Como Lula disse no seu discurso, "o mundo sente saudades do Brasil" e o país vai voltar à cena mundial.

O mandato de Bolsonaro isolou o país e todos sofreram com isso - sobretudo o próprio Brasil, que deixou de ser um parceiro credível, com quem os outros líderes pudessem dialogar.

Esperam-se agora avanços na ratificação do importante acordo comercial entre a UE e o Mercosur, que ficou bloqueado durante o governo de Bolsonaro; a recuperação do seu peso nas instituições internacionais, incluindo a ONU e o G20; o reforço da relação entre a Europa, a América Latina e África, que permita contrariar a crescente bipolarização do mundo; e a participação ativa do Brasil nos compromissos para travar o aquecimento global.

De forma muito significativa, a primeira viagem de Lula será à Cimeira do Clima das Nações Unidas (COP27), no Egito, que se inicia dentro de poucos dias. Não tendo ainda tomado posse como Presidente, irá integrado na delegação do Consórcio da Amazónia, o que é muito revelador. Sem surpresa, Bolsonaro não deverá ir à COP27.

Os governos de Lula tinham conseguido reduzir a desmatação da Amazónia em cerca de 80%; o de Bolsonaro aumentou-a em 75%. Lula promete agora uma política de "desmatação zero".

Se o conseguir, ficará credor dessa realização perante todo o mundo e estará em condições de exigir contrapartidas em outros domínios das relações internacionais. Para já, reivindica acordos comerciais mais favoráveis, que não releguem o país à posição de eterno exportador de matérias-primas, para que consiga reindustrializar o Brasil e criar emprego e prosperidade partilhada.

A ambição de Lula é grande - do tamanho do seu país. Pelos brasileiros, por todo o mundo, oxalá a concretize.

A vitória do Partido Social Democrata (de centro-esquerda) na Dinamarca foi expressiva, obtendo o melhor resultado em 20 anos e mais do dobro dos votos do segundo partido mais votado. A primeira-ministra mantém a maioria parlamentar de esquerda, evitando que a extrema-direita chegue ao poder.

Eurodeputado

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