Sara de Brito: a rainha do trail que gatinhou por um lugar na história

Aos 46 anos e na estreia internacional, a atleta amadora foi a melhor portuguesa no Campeonato do Mundo de trail running; um feito inesperado que a deixou no limite das forças
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A história de superação da mulher que, aos 46 anos, na estreia internacional, foi a melhor participante portuguesa no Campeonato do Mundo de trail running é a de uma imagem marcante: Sara de Brito a gatinhar, no limite das forças, para conseguir cortar a meta, ao fim de 85 quilómetros de corrida pelo Parque Nacional Peneda-Gerês. "Sou muito lutadora mas as minhas reservas tinham chegado ao zero", recorda ao DN a atleta amadora, figura improvável da competição do passado fim-de-semana, entre a elite mundial da modalidade.

Sara de Brito é uma mulher polivalente (professora de Educação Física, "mãe, esposa e dona de casa"), uma atleta tardia que já quarentona vai concretizando parte dos sonhos desportivos da infância. Mas, mais do que o percurso ascendente que a levou a um desempenho histórico na primeira edição do Campeonato do Mundo de trail running realizada em Portugal, o que colocou a rainha do ultra trail (atual campeã nacional) debaixo dos holofotes mediáticos foi a forma esgotada como cortou a meta, em Arcos de Valdevez, há uma semana.

"Fiz uma asneira nos últimos quilómetros. Como era a descer, pensei "ainda não fiz uma descida sem travões" e comecei a correr desalmadamente até onde julgava que estava a meta... mas ela só estava mais à frente e as pernas começaram a falhar. Fui ao chão algumas vezes... Deram-me a bandeira de Portugal para as mãos mas não a conseguia levantar. O organismo não estava a responder e não tive outra solução que não fosse gatinhar", descreve, ao DN, Sara de Brito.

Esse final em sofrimento não impediu a atleta, natural de uma aldeia do distrito de Castelo Branco e residente em Leiria, de garantir uma façanha histórica. O 21.º lugar do Mundial (entre 84 participantes), com um registo de 11:25:11 horas, foi o melhor desempenho entre as portuguesas e abriu caminho a um surpreendente 6.º lugar da seleção nacional feminina na classificação por equipas. "Temos muitos bons valores, uma equipa muito homogénea e fizemos uma preparação competente mas não estava à espera. Vínhamos para lutar mas nunca pensámos ficar tão à frente. O 6.º lugar coletivo é muito melhor do que o 19.º de 2015", nota Sara de Brito.

Contudo, a corredora do Clube de Atletismo da Barreira (Leiria) mal pôde celebrar, após cortar a meta de rastos. "Queria viver a parte final da festa, ver a chegada das minhas colegas, mas levantava-me e só via tudo a andar à roda", recorda. Resultado: teve de receber assistência médica logo ali. "Restabeleci-me passado uns minutos, depois de estar a soro", conta. E se o corpo lidou mal com o desgaste de 85 quilómetros de corrida, a mente não deixa de guardar boas recordações da prova que cruzou o Parque Nacional Peneda-Gerês no passado fim-de-semana: "Senti um envolvimento espetacular. Foi muito bem organizada e cativou os participantes estrangeiros por ter trilhos difíceis, muito técnicos e, ao mesmo tempo, muito bonitos. Não volta a haver um Campeonato do Mundo como este, porque foi no nosso país".

Para Sara de Brito a competição tornou-se "ainda mais especial" por significar a sua estreia internacional, poucos meses depois de ter conseguido a qualificação para esta edição [também já está apurada para o Campeonato do Mundo de 2017, em Itália] e após uma paragem por lesão. "Foi um grande orgulho mas também uma grande responsabilidade", para quem cresceu a vibrar com as façanhas desportivas de Carlos Lopes e Rosa Mota mas, morando longe dos grandes centros, demorou a seguir a carreira desportiva com que sonhava.

Sara licenciou-se (seguindo a paixão pela Educação Física), casou, foi mãe... e só em 2010, aos 39 anos, acedeu aos insistentes convites para se juntar ao Clube de Atletismo da Barreira. Na estreia a competir ficou logo nos primeiros lugares. Começou a somar pódios e entusiasmou-se. Depois de provas curtas de estrada, foi aumentado o número de quilómetros e o grau de dificuldade - ganhou a Maratona de Badajoz em 2012 - e chegou ao trail, onde agora se tornou a melhor portuguesa entre a elite mundial.

"Ainda não digeri bem isto. Foi tudo muito rápido e muito intenso", diz. E é natural que não tenha tido tempo, pois vive "com os minutinhos todos contados, sempre em contra-relógio": logo na segunda-feira a seguir ao Campeonato do Mundo, deu nove aulas (reparte o dias entre a Escola Secundária Rodrigues Lobo, um ginásio e o Estabelecimento Prisional de Leiria). O ritmo deve manter-se: o objetivo é voltar a brilhar no mundial de 2017.

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