Com o último incidente - o ataque a uma esquadra de polícia - registado há dois dias, as autoridades de São Paulo consideravam ontem definitivamente sob controlo a onda de violência que varreu o estado desde dia 12, causando 170 mortos e um novo abalo na confiança nas instituições..Mesmo assim, as cautelas são evidentes: este fim-de-semana, por questões de segurança, foram suspensas as visitas de familiares aos presídios do estado. Durante a semana de distúrbios, houve motins em 82 das 144 prisões de São Paulo, onde morreram 17 presos..Advogados e activistas dos direitos humanos exigiram ontem a divulgação dos nomes de todos os 107 alegados criminosos mortos nas ruas na última semana, em confrontos com a polícia (morreram também 41 agentes e quatro civis). O Ministério Público de São Paulo já recusou avançar essa informação, invocando a privacidade das famílias, mas promete que todas as mortes serão investigadas..Guerra de palavras.Entre a classe política, os acontecimentos dos últimos dias têm servido de pretexto para uma espécie de ensaio geral da campanha das próximas eleições presidenciais, onde a segurança será um tema obrigatório..O Presidente Lula rejeitou ontem responsabilidades pela violência, explicando que o seu Governo "tem 41 meses" e culpando anteriores executivos pela ausência de políticas de inclusão social. "Aqueles que estão detidos tinham quatro ou cinco anos de idade na década de 80, e se nós tivéssemos investido em educação, em emprego, naquela época, muitos dos que hoje são bandidos seriam pessoas de bem, trabalhadoras", disse..Um dos alvos desta acusação era Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo e principal adversário de Lula nas eleições. Alckmin retorquiu acusando o Presidente de "ofender" os brasileiros ao desresponsabilizar o seu Governo pelo que aconteceu em São Paulo. "O Lula já teve a sua oportunidade e agora é hora de ele ir para o banco de reservas. O Brasil não aguenta mais quatro anos com este Governo", considerou..Entretanto, o Governo central vai anunciando medidas destinadas a controlar as chefias do crime organizado, nomeadamente do Primeiro Comando da Capital (PCC), que alegadamente orquestraram todos os acontecimentos dos últimos dias a partir das prisões..Segundo revelava ontem o jornal Folha de São Paulo, o Governo tenciona terminar, até 2007, a construção de cinco estabelecimentos de segurança máxima, onde serão albergados os prisioneiros mais perigosos do país. Detidos "com valor estratégico" na hierarquia do crime organizado, segundo precisou o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos..A primeira prisão, a concluir já em Junho deste ano, vai funcionar em Catanduvas, no estado do Paraná. Segue-se, no mês seguinte, a inauguração de uma unidade em Mato Grosso do Sul. Três outros estabelecimentos vão nascer nos estados do Rio Grande do Norte, Rondónia e Espírito Santo..O poder do PCC.A medida não deixa de implicar uma boa dose de risco já que os tumultos da última semana começaram precisamente depois de 765 reclusos de São Paulo, muitos deles líderes do crime organizado, terem sido transferidos para uma prisão de segurança máxima na cidade de Presidente Venceslau..Dados divulgados recentemente mostram que os líderes do PCC, muitos deles detidos, controlam um negócio que gera vários milhões de euros anuais, obtidos através de raptos, extorsão, tráfico de droga, e as próprias contribuições dos seus elemento. Esta organização clandestina foi fundada em 1993, alegadamente com o objectivo de reclamar "justiça" no tratamento dado à população prisional.. O líder do PCC, Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcolla, de 35 anos, encontra-se a cumprir um período de isolamento total por 90 dias, depois de ter ameaçado o governador de São Paulo. PST