São José Correia: "Ser atriz é uma maldição"

Foi num ambiente de sensualidade que a atriz falou da importância que "O Sexo e a Cidade" teve na forma como se fala de sexo no pequeno ecrã. Aponta o dedo à sociedade machista, mas considera que a liberdade está dentro de cada um de nós. Diz ainda que a televisão é "um meio perigoso" que sobrevaloriza a beleza.
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O primeiro episódio da série O Sexo e a Cidade foi exibido há 15 anos. Quando se lembra deste programa qual é a primeira coisa que lhe vem à cabeça?

Essa série tem duas características que destaco, uma que me atrai muito e outra que não me atrai rigorosamente nada. A característica que me agrada tem que ver com a liberdade do texto que a autora teve de falar sem pudores de sexo, que normalmente não se fala. As mulheres falarem de sexo, como habitualmente só se veem homens falar, faz sentido porque elas pensam tanto ou mais em sexo do que os homens. Têm os seus problemas e têm os seus desejos, que normalmente são reprimidos, não se fala muito nisso.

Ao contrário do que acontece com os homens...

É difícil uma mulher ter a coragem de dizer que quer fazer amor com um homem pelo qual não está apaixonada, e isto leva as mulheres a terem algum pudor. Se um homem fizer amor com duas mulheres na mesma semana é o máximo, se uma mulher fizer amor com dois homens diferentes na mesma semana o nome já não é tão bonito. E esta série veio desmoronar um bocadinho essa postura.

E qual é, então, a parte que não gosta?

O que não me atrai é o consumismo desmedido que propõe como se o feminino só existisse quando uma mulher está vestida com roupa de marca ou troca de sapatos. Essa perspetiva não me agrada nem tem a ver comigo.

Por norma todas as mulheres que viam esta série identificavam-se com alguma das personagens. No seu caso com quem é que se identificava mais?

[risos] Provavelmente, com a Samantha porque é a que usufrui de mais liberdade, é a personagem mais livre das quatro. Todas elas vivem presas a determinados princípios e o princípio dela é o prazer dela e eu acho que isso é o que está certo.

Enquanto atriz considera que a ficção tem também este papel de tentar mudar mentalidades e de gerar discussão em torno de alguns temas?

Sim, sim. A televisão tem um papel muito importante. Tem um lado de pedagogia e sobretudo de passar a informação. Falar de coisas que ouvimos e que se calhar temos algum receio de falar sobre elas e quando vemos alguém na televisão falar de um tema acabamos por ganhar essa liberdade. "Espera aí, se elas falam então eu também posso falar. Afinal, não tenho de me sentir culpada por me sentir atraída por dois homens ao mesmo tempo".

Acha então que esta série conseguiu cumprir esse papel e abordar o sexo de uma forma mais natural e sem tabus?

Não só nos adultos, como também nos jovens acho que foi um trabalho muito bem conseguido. Acho que de alguma maneira houve alguma mudança na televisão com esta série. E volto a frisar que o importante é passar informação, depois o consumidor é que escolhe o que quer.

"Não sou uma pecadora por desejar ser feliz"

E enquanto mulher portuguesa, já alguma vez se sentiu castrada e/ou moralmente impedida de exprimir aquilo que pensa, os seus desejos?

Não, de todo. É verdade que vivemos numa sociedade machista, não tenhamos ilusões. A questão é que eu felizmente não precisei de ver O Sexo e a Cidade para dar essa liberdade a mim própria. Antes de ver a série já falava dessa maneira e agia dessa maneira. E também não posso dizer que me senti reprimida de alguma forma, mas essa liberdade que tenho é algo que procuro e sempre procurei.

Acha então que essa liberdade é algo que está nas nossas mãos...

As pessoas para serem livres também têm de procurar essa liberdade porque a sociedade está construída nesse sentido: o homem manda, o homem escolhe, o homem toma a iniciativa, o homem pode tudo. E a mulher pode algumas coisas. E a mulher não pode ter medo de sair do padrão e isso só depende de si própria.

E a São sente-se uma mulher livre?

E eu acho que sempre consegui ser relativamente livre sobretudo na minha posição em relação aos homens, ao meu trabalho, às outras mulheres. Há um lado na ficção que não se fala muito que é a homossexualidade. Fala-se muito mais no caso dos homens do que no caso das mulheres. Até parece que não existem mulheres homossexuais.

E quando se pensa na homossexualidade feminina ela costuma até estar associada à fantasia sexual dos homens de estarem acompanhados por duas mulheres...

Exatamente, é sempre na perspectiva do homem. Nunca ninguém fala que a fantasia de uma mulher é estar com uma mulher, ver duas mulheres ou ver dois homens, porque há mulheres que têm essa fantasia e nunca se fala nisso. É como se não existisse, não entendo porquê.

E já que a culpa não morre solteira, como se costuma dizer, o que contribui para este tipo de mentalidade predominante? A cultura, a religião, a educação?

É tudo isso junto, não dá para separar. Tem a ver com a nossa educação católica, com a sociedade machista em que vivemos. É uma questão cultural e quando assim é tem a ver com muitas coisas. O que tem de acontecer é a vontade de ser livre dentro de cada um e perceber que não há erros. Não sou uma pecadora por desejar ser feliz, mas isso faz parte de cada um porque a sociedade ensina precisamente a sermos bem educados para não incomodarmos os outros. E isto não tem que ver com a vontade que as pessoas têm de chocar os outros, de ser diferente só por ser. Tem de ser uma busca pela felicidade, a nossa felicidade, que é o mais importante.

Em nenhum momento sentiu que devia lutar contra essa sua liberdade e fazer o que a sociedade dita?

Não, não. Eu não luto contra a minha felicidade, pelo contrário. E a minha felicidade é ouvir-me a mim própria. Se me apetece fazer uma coisa, analiso e tento perceber se faz sentido para a minha vida. Não é se faz sentido para a minha amiga ou para a minha mãe. É se faz para mim. Porque a minha vida só eu é que a vivo.

No entanto há muita gente que parece viver preocupada com a felicidade dos outros...

É verdade, há muita gente mesmo. Ainda há pouco tempo fizeram o primeiro casamento homossexual em Paris e houve uma manifestação de não sei quantas mil pessoas e eu pergunto: Mas o que é que aquelas pessoas estavam ali a fazer? Não há coisas mais graves no mundo? Há violações, há escravatura no século XXI. Ninguém se preocupa com isso, preocupam-se com o casamento de duas pessoas do mesmo sexo? Isso não será uma coisa de há dois séculos atrás? Também não percebo o porquê de um casamento entre duas pessoas do mesmo sexo ou de sexo diferente ter tanta importância. E faz-me confusão as pessoas darem tanta importância a esse rótulo, a esse negócio.

Em Portugal tem havido muita discussão em torno da coadoção por casais homossexuais cuja proposta de lei foi aceite no Parlamento e aguarda pela decisão do Presidente da República...

Conheço pessoas que já adotaram e que tiveram a vida facilitada e eu acho bem. O maior direito de uma criança é ter amor e ser protegida. Este é o primeiro direito de uma criança. É ter ao seu lado uma pessoa que a proteja e que a ame, isso independentemente do sexo. A ideia de família é um pai, uma mãe e um filho, mas isso nem sempre acontece. As crianças que não têm pai e mãe vivem numa realidade diferente e se assim é vamos arranjar uma realidade alternativa onde possam ter amor, proteção e carinho. E qual é o problema se for por duas pessoas do mesmo sexo?

"A SIC melhorou bastante. A TVI tem de tomar atenção"

Na novela Mundo ao Contrário dá vida Amélia, novela essa que tem temas muito fortes como o tráfico de droga, o desemprego e onde também há espaço para cenas bastante ousadas. Como tem sido participar neste projeto?

Gosto muito da minha personagem que é uma mulher muito interessante, apesar de parecer um bocadinho fútil e vulgar. É uma mulher que construiu a sua própria vida, vem do bairro, passou muito mal na adolescência e que lutou por si e tal como qualquer outra pessoa traumatizada não consegue parar, porque tem medo. No fundo o que está por detrás desta atitude ambiciosa é o medo de voltar ao que era. E ela é apaixonante porque é muito verdadeira, é uma pessoa do povo o que me agrada muito.

Esta novela é muito diferente da última que fez, Doce Tentação, onde havia um universo mais fantasioso. Em Mundo ao Contrário há uma abordagem mais nua e crua da realidade. Prefere um Mundo ao Contrário ou uma Doce Tentação?

Prefiro o Mundo ao Contrário, até porque a outra novela foi completamente ao lado. Foi um universo completamente falhado no que toca à minha personagem, portanto nem tenho muito a dizer. Agrada-me muito mais este realismo, esta linguagem. As personagens têm vida, os núcleos são muito fortes, as personagens não vivem agarradas à história de ninguém e isso é muito interessante para o espectador. É um trabalho muito mais acertado do que a última sem desmérito para ninguém.

A personagem de Margarida Marinho, a Constança, costuma chamar-lhe de "rainha dos frangos". É caso para dizer que já vira frangos nesta profissão há muito tempo?

[gargalhada] Não sei, se quiser fazer essa analogia. Mas eu ainda não consegui perceber bem porque é que elas têm uma inimizade tão grande, provavelmente é uma coisa que se vai descobrir mais para a frente. Mas provavelmente tem a ver com as trocas amorosas. Se elas se dessem bem era uma seca. Tem de haver atritos, a vida é isso mesmo. E se ela tem mais de cem lojas de frangos é natural que lhe chamem de rainha dos frangos.

A novela é exibida já perto da meia-noite. Preferia que fosse para o ar mais cedo?

A questão do horário a mim não me perturba nada, até porque quando a novela estreou já sabíamos que seria exibida no segundo horário.

E o facto de Mundo ao Contrário perder para o programa da concorrência, Páginas da Vida (SIC) que é uma novela em repetição, deixa-a preocupada?

As audiências não sou eu que tenho de me preocupar, há outras pessoas que têm essa função. Claro que eu gosto que o produto onde eu estou seja visto por muita gente, quanta mais gente melhor, agora isso não pode ser a minha primeira preocupação. Se tiver pouco público não posso ceder ou ir abaixo, tenho de trabalhar como se tivesse a maior audiência de sempre.

Tem estado atenta à concorrência, nomeadamente à SIC, que tem a novela Dancin" Days e que tem sido líder de audiências?

Não estou muito atenta, mas sei que têm tido belíssimas audiências com Dancin" Days e também com a Avenida Brasil. De vez em quando faço zapping, mas não acompanho. Mas acho ótimo que a SIC tenha audiência porque isso exige muito mais de toda a gente. Se a SIC está a ter audiências é porque as pessoas se interessam pelos seus produtos, independentemente se é um remake ou uma novela brasileira.

E acha que esta mudança nas audiências deve-se ao facto de a TVI ter perdido qualidade ou foi a SIC que melhorou?

A SIC melhorou bastante e acho que a TVI tem de tomar atenção.

"Não me considero um símbolo sexual"

Na série da RTP1 Sinais de Vida, que terminou há pouco tempo, deu vida à veterinária Simone. Como foi fazer este papel que é um pouco diferente daquilo que costuma fazer?

A Simone enganou-me bem [risos]. No início parecia-me uma mulher superinteressante e até que tinha alguma coisa a ver comigo porque era uma mulher muito ligada à natureza e dedicada ao seu trabalho, mas depois enganou-me bem porque a atitude dela quando descobre que o marido tem outra mulher... Aquele jogo sujo que faz com os filhos isso não tem nada a ver comigo. Acho que as mulheres que fazem isso humilham-se a si próprias e chegou a uma altura que foi muito desagradável fazer a Simone.

Porquê? Sentia que havia ali uma carga negativa?

Sim, sim. Havia uma carga negativa. Cheguei a ter dias que dois ou três técnicos vinham dizer-me: "Bem, tu pareces a minha ex-mulher." Há muitas mulheres assim, que usam e brincam com os filhos e isso é terrível. Foi duro, não foi muito agradável fazer de Simone. Mas eu faço todas as personagens e mesmo que soubesse isto desde início teria feito à mesma. São sempre desafios. Não me arrependo nada.

Por norma, as personagens de São José Correia transpiram sensualidade por todos os poros. Sente-se cansada de ser sempre a mulher fatal?

Não, não me aborrece nada [risos]. Gosto muito. Eu também gosto muito da sensualidade, gosto de mulheres bonitas, homens bonitos. Portanto, sinto-me bem. Mas não me desagrada nada, pelo contrário.

E considera-se um símbolo sexual?

Não, isso não vejo. É uma coisa inventada pela imprensa [risos]. Eu sou mais simples. Há uma diferença entre pessoas que constroem e cultivam uma atitude de sedutora perante os outros e eu não tenho essa atitude de forma consciente. Acho que isso são os olhos dos outros. Eu quando acordo e me olho ao espelho não tenho essa sensação, não penso: "Eh pá! Que bonita, que sensual".

Mas permita-me que lhe diga que quase todas as mulheres sentem isso quando se veem ao espelho de manhã...

[gargalhada] Também é verdade. Mas acho graça pensaram isso de mim e mais ajuda a minha autoestima, como é evidente.

Dizia-me há pouco que é uma mulher simples. Como é então São José Correia quando está longe dos holofotes e das câmaras?

Sou isto que está a ver. Sou uma pessoa bem-disposta, trabalho muito, tenho este defeito de a minha vida pessoal ser o meu trabalho porque não me sobra muito tempo. A minha vida pessoal é das 00.00 à 01.30. Sou completamente apaixonada pela minha profissão. Sinto-me muito feliz por ter trabalho regular e não tenho medo de lutar por aquilo que quero.

"Tenho saudades dos textos do Rui Vilhena"

No filme Inimigo sem Rosto deu vida a Paula, uma acompanhante de luxo, trabalho esse que valeu-lhe o prémio de Melhor Atriz Secundária atribuído pela GDA (Cooperativa de Gestão dos Direitos dos Artistas). Como preparou este papel?

Não foi necessário grande coisa porque todas essas personagens estão muito presentes na nossa cabeça. No fundo ela tinha de ser sensual, misteriosa, frágil, apaixonada e dependente do amante.

Não chegou a falar com estas profissionais ou observar o seu trabalho?

Para este filme não, mas quando fiz de Ivete na peça de teatro Mãe Coragem fazia de prostituta do regimento e aí sim fiz esse trabalho. Andei por aqui [Cais do Sodré] fui ao Intendente porque eram prostitutas de rua mesmo.

E chegou a abordá-las, a falar com elas?

Não, até me assustei um bocadinho no Intendente. Não é um ambiente em que podemos entrar e falar com alguém. E a minha atitude era mais de observadora. Aprendemos muito a observar. São mulheres muito castigadas pela vida, sem glamour nenhum, todas dependentes da droga ou do álcool. É uma realidade muito dura, mas ajudou-me a recriar a decadência da mulher que aos 18 é maravilhosa, mas aos 30 está completamente destruída.

Na novela Olhos nos Olhos fez um dos seus papéis mais marcantes ao dar vida a um transexual. Nos dias de hoje a homossexualidade já começa a ter cada vez mais presença na ficção, mas o mesmo não acontece com os transexuais...

Com esse papel fiquei a saber que há mais de 30 mil transexuais em todo o mundo, com profissões normais, de sucesso. Tive uma conversa com um transexual, mas sem ser propositada. Tive um encontro com ele fingindo ser um encontro casual, falámos sobre uma série de coisas e observei o comportamento dele que era ela [sorriso]. Foi o grande papel que o Rui Vilhena escreveu para mim e que adorei fazer. Foi provavelmente o melhor papel que fiz.

Tem saudades de trabalhar com o guionista Rui Vilhena?

Tenho saudades dos textos dele. Há dias estava a ver a novela Ninguém como Tu e ouvi esta frase brilhante: "Depois do futebol quem tem mais adeptos é a inveja." Isto é maravilhoso, tem um sentido de humor extraordinário. Não sei por onde ele anda, mas espero que volte.

"Há mais beleza do que talento na televisão"

É uma atriz que trabalha em teatro, cinema e televisão. Qual destes meios é o mais perigoso?

É a televisão. A televisão é muito perigosa porque faz esquecer uma série de coisas essenciais a um ator. É muito fácil cair no facilitismo, é um sítio onde se exige muito pouco e se não trabalharmos muito não aprendemos nada. E não me quero alongar muito mais nisto.

Mas isso tem a ver com o quê, com o ritmo intenso de gravações, com a falta de tempo?

É tudo, por isso é que não quero falar, senão tínhamos de estar aqui a falar o dia todo. É o ritmo, são os temas, é o facilitismo da câmara. Às vezes é a nulidade dos colegas, dos textos, a pressa com que se faz tudo. A pressa é inimiga da perfeição.

Não vou ser politicamente correta e voltar ao velho clichê de perguntar se em televisão a beleza é importante. Sabemos que sim. Mas perguntava-lhe antes se acha que a balança entre beleza e talento está equilibrada na televisão portuguesa?

Não, de todo.

Isso significa que há mais beleza do que talento ou mais talento do que beleza?

Na televisão há mais beleza do que talento. Beleza segundo o padrão de alguém, não é segundo o meu padrão. O importante na televisão não é o talento, de todo, e isso todos nós sabemos.

E por que motivo vemos quase sempre as mesmas caras nas novelas?

Obviamente que as pessoas não têm todas a mesma oportunidade. Não sei mais que lhe possa dizer.

Tem que ver com quem faz os castings, com quem escreve as novelas que escolhe quase sempre os mesmos atores?

Está a fazer uma pergunta à qual não me quero alongar porque não sou eu que decido. Se fosse eu a decidir podia responder, mas já estou a falar sobre o trabalho dos outros.

Sem querer aprofundar muito o tema da crise que já está mais do que presente no dicionário de todos os portugueses, pergunto-lhe de que maneira viu, se é que viu, o seu trabalho e o seu cachê afetados?

Claro, todos nós estamos a trabalhar mais e a ganhar menos.

Suponho que tenha colegas que estão a atravessar muitas dificuldades...

Sim, muitos. Mas isso já acontecia antes da crise. Ou porque não conhecem as pessoas certas, ou porque não têm o padrão de beleza que a televisão exige.

É preciso muito amor à profissão para se ser ator?

É preciso paixão. Nesta profissão não se sobrevive sem paixão.

Já equacionou deixar de ser atriz?

[risos] Isto não é uma profissão, é uma maldição. Ser ator é uma maneira de estar na vida. É o que sou, é a forma como eu penso. Eu sou atriz, não é uma escolha. Nasci assim. E isto não se muda, só muda quando eu morrer. É quase como ser do Benfica. E é preciso trabalhar muito para nos destacarmos.

Ao contrário do que muita gente idealiza ser a profissão de um ator...

A nossa profissão é das mais devassadas. Como para os ignorantes ser ator é dizer uns textos, grande parte dos ignorantes que trabalham em televisão acham que por dizerem três fases já são atores. Estão completamente fora de qualquer realidade. Qualquer pessoa que fale acha que pode ser ator. Há pessoas que fazem um papel numa novela e dizem que são atores. Ainda bem que isso não acontece com os médicos porque não se pode operar sem ter-se estudado primeiro. Se bem que há por aí uns charlatões...

E depois também há o jogo de ir às festas e aparecer...

Ui, isso então. Há pessoas que a quantas mais festas vão, mais atores são. Só me rio, nem há comentários a fazer.

"Na minha infância tinha de andar à porrada para andar de skate"

Há pouco disse-me que ser atriz era uma maldição. Quando é que se sentiu amaldiçoada?

Fui amaldiçoada quando nasci [risos]. Mas escolhi esta profissão aos 16 anos, quando tive teatro pela primeira vez na escola. Percebi nitidamente que estava num beco sem saída. Depois, aos 19, tive a minha estreia no Teatro de Almada.

Recuando à sua infância. Era a menina que passava as tardes em casa sossegada a brincar com as bonecas ou chegava a casa depois de um dia intenso de traquinices com a roupa suja e os joelhos esfolados?

Estava sempre na rua, até porque a minha casa era muito pequenina. Tinha sempre de andar à porrada para conseguir andar de skate, porque só havia um na rua e era de um amigo meu. Eu brincava de skate, depois, quando me cansava, vinha outro e brincava. E andei algumas vezes à porrada.

Teve uma infância feliz?

Sim, guardo muitas e boas recordações. Tive uma infância muito feliz com os meus três irmãos e com os meus amigos.

A vida que tem hoje é aquela que idealizava quando era criança ou está surpreendida com o que a vida lhe proporcionou?

Nunca idealizei grande coisa. As coisas têm vindo a acontecer e tento aproveitar. Mas nunca tive uma projeção a médio e a longo prazo. As coisas são tão efémeras e eu vivo muito do improviso. A minha vida tem sido assim e acho que vai ser sempre assim. Vou tendo oportunidades, umas aproveito outras não aproveito.

Tem algum medo?

Sim, tenho. Tenho medos de que me estimulam, não me centro muito nos meus medos, acho que isso não é uma coisa boa. Devemos centrar-nos na nossa coragem, nos nossos desejos e nas nossas vontades. Eles existem, não podemos é dar-lhes muito espaço.

E considera-se uma mulher feliz?

Às vezes sou feliz. A felicidade são momentos.

"Jorge Jesus não conseguiu gerir um dos pecados mortais: a vaidade"

Há pouco disse-me que era benfiquista. Como é que viveu esta época?

Posso estar superchateada por não ter ganho títulos nenhuns como foi a vergonha deste ano, mas não posso acabar com o Benfica porque eu sou Benfica. Não é possível quebrar esta relação.

Já que vive o futebol de forma intensa não resisto perguntar: o que acha do treinador Jorge Jesus?

Já no ano passado achei que ele devia ter saído do Benfica. Fez uma excelente época, mas no final do campeonato oferecemo-lo ao Porto por um ponto. Ele não conseguiu gerir a vaidade, é um dos pecados mortais. A vaidade... a gula é outro pecado mortal. A soberba é outro. Portanto cheio de pecados mortais e pagou por tudo. Tem uma grande vantagem que é ganhar dinheiro para o clube. Mas como eu não faço parte do clube, sou apenas adepta, a mim o que me sustenta são títulos e ele não ganhou sequer um este ano. Por isso estou-me a marimbar para os euros que ele mete no Benfica.

Mas já é oficial que Jorge Jesus vai continuar no Benfica...

Já sei que vai ser mais uma época a ganhar muito dinheiro. E espero que ganhemos algum título para o ano. Espero que esta lição tenha servido para alguma coisa.

É aquele tipo de adepta que vai ao estádio ou vê em casa?

Vejo em casa com os meus amigos. No jogo com o Chelsea fui dispensada do ensaio e até me vesti a rigor. Comprei cerveja e tremoços, mas não serviu de nada. Temos pena.

E gosta de uma boa discussão sobre futebol com os amigos?

Adoro. Mando mensagens aos meus amigos que são de outros clubes, é terrível. Quando o Benfica perde já sei que vou levar com eles. É uma picardia saudável e é isso que dá piada ao futebol.

A paixão pelo Benfica é uma coisa de família?

Não. O meu pai era do Benfica, mas houve uma altura lá em casa em que todos decidimos de que clube éramos e eu decidi ser do Benfica. Não me pergunte porque é que decidi ser do Benfica, provavelmente por ser vermelho e ter águia. Mas sei uma coisa: a partir do momento em que escolhi esta equipa é com ela que vou até ao fim. Os treinadores vão e vêm, os jogadores também. O clube é que importa e neste caso o Benfica é o clube do povo e eu faço parte do povo. Eu sou o povo.

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