Sandy Denny. A trágica tímida que o tempo traiu

Gravou apenas quatro discos em nome próprio mas ainda é a rainha da folk-rock britânica. Morreu com 31 anos anos, há mais de três décadas mas continua a somar biografias.
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Há, no extenso e detalhado livro que Mike Houghton levou anos a escrever para aclarar a vida e avaliar a obra de Sandy Denny, um episódio - contado pela primeira vez - que ganha um tom premonitório. Um dos seus parceiros do circuito folk, dos tempos em que a fama ainda não a abraçava, deu com a cantora, desgrenhada e histérica, errante, a caminhar pelo meio de automóveis e autocarros em plena Picadilly Circus. Literalmente, mandou parar o trânsito, abraçou-a, conseguiu sentá-la num táxi e levou-a a casa. Depois de acalmar, Sandy, chorosa, agradeceu-lhe "a salvação". Esse momento, vivido ainda nos anos 60 do século passado, ilustra fielmente o perene desequilíbrio de uma mulher cujo talento nunca descobriu companhia à altura no equilíbrio.

Em abril de 1978, nove escassos meses depois de ter sido mãe de Georgia, Sandy tombava no abismo há muito desenhado. A digressão que apontava ao seu regresso aos palcos tinha falhado - o último concerto digno desse nome, a 27 de novembro de 1977, não enchera a sala reservada, o Sound Circus, curiosamente localizada numa Portugal Street. Chris Blackwell, patrão da editora Island, perdera a paciência com os desmandos e desvarios com quase todos os praticantes do folk-rock, antes olhados como figuras estruturantes do selo - Nick Drake já tinha morrido, os Fairport Convention, John Martyn, Richard e Linda Thompson viram cessar os respetivos contratos, tal como Sandy. O mundo musical estugava o passo em nome do punk e os mais ligados a uma qualquer raiz folk sofriam o desprezo dos compradores de discos e dos espectadores de concertos. Mais do que tudo isso, a cantora de Like An Old Fashioned Waltz convenceu-se da incapacidade para cuidar a filha, o que agravou o tenso ambiente familiar, já de si pouco agradável por causa das constantes discussões entre os pais, Neil e Edna, e o marido, o guitarrista Trevor Lucas. O álcool e as drogas - mormente o uso continuado de cocaína -, veículos para combater uma timidez patológica, também não contribuíam para a estabilidade de uma mulher que, segundo vários depoimentos recolhidos por Houghton, nunca soube criar o balanço entre a timidez e o desejo de uma carreira pública. A situação deteriorou-se a tal ponto que Trevor, temendo pela vida da filha, pegou nela e regressou à sua Austrália natal. Poucos dias depois, Sandy, também rendida a calmantes e analgésicos, foi encontrada em coma, na sequência de uma (aparente) queda nas escadas de casa. Não voltou a acordar.

Oiça aqui Sandy Denny ao vivo na BBC em 1971.

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