Rússia abre a porta aos soldados acima dos 40 anos

Deputados do partido de Putin propuseram legislação que eliminaria o atual limite de idade para a contratação de militares. O argumento é que é preciso a experiência de profissionais mais velhos, mas para os observadores é resultado das perdas sofridas no terreno.
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Dois deputados da Rússia Unida de Vladimir Putin apresentaram uma proposta para acabar com o limite de idade à contratação de soldados para o exército, abrindo a porta a um primeiro contrato para quem tem mais de 40 anos. A proposta surge com o argumento de que são necessárias pessoas com experiência, mas para os analistas é uma prova das perdas que a Rússia tem sofrido no terreno na Ucrânia. Fontes ocidentais estimam que cerca de 12 mil soldados russos terão morrido desde a invasão, com Kiev a alegar que já serão mais do dobro as baixas.

De acordo com a informação no site do Parlamento russo, a atual lei só prevê um primeiro contrato de serviço para os russos com idades entre 18 e os 40 anos e para os estrangeiros entre 18 e 39. A ideia da proposta é acabar com esse limite. "Para o uso de armas de alta precisão, operação de armas e equipamento militar, são necessários especialistas altamente profissionais. A experiência mostra que eles se tornam assim aos 40 ou 45 anos", segundo os autores da proposta, o responsável pela comissão de Defesa, Andrey Kartapolov, e o seu número dois, Andrey Krasov. Esta medida facilitará também o recrutamento de especialistas em áreas como apoio médico, engenharia, manutenção ou comunicações, para o serviço militar.

"Claramente os russos estão com problemas. Esta é a última tentativa de lidar com a falta de pessoal sem preocupar a sua própria população. Mas está a tornar-se cada vez mais difícil para o Kremlin disfarçar os seus falhanços na Ucrânia", disse à Reuters o general na reforma norte-americano Ben Hodges, antigo comandante do exército norte-americano na Europa. Além das baixas sofridas, Moscovo enfrenta a falta de moral entre as tropas, segundo os analistas.

Quase dois mil soldados ucranianos que estavam na fábrica da Azovstal, em Mariupol, já se renderam aos russos - a Ucrânia não usa a expressão rendição, mas fala em "salvamento dos heróis", que espera trocar por prisioneiros russos. Moscovo não tem falado desta possibilidade.

O comandante do batalhão de Azov, Denys Prokopenko, disse ontem num vídeo publicado no Telegram que "o comando militar superior deu ordens para salvar as vidas dos militares da nossa guarnição e parar de defender a cidade". Não é claro quantos combatentes ainda estão na siderurgia, nem se ele próprio está lá. Prokopenko não deu mais pormenores, indicando que estava a decorrer o processo de remoção dos mortos dos túneis e bunkers subterrâneos da Azovstal. "Espero que num futuro próximo, os familiares e a Ucrânia possam enterrar os seus soldados com honras", disse.

Os combates concentram-se agora na região de Donbass, onde o presidente ucraniano disse que "os ocupantes estão a tentar aumentar a pressão". Volodymyr Zelensky comparou a situação a "um inferno", dizendo não estar a exagerar. Ontem, pelo menos 12 pessoas morreram e 40 ficaram feridas em bombardeamentos na cidade de Severodonetsk, em torno da qual se intensificam os combates numa tentativa de bloquear os soldados ucranianos que a defendem.

Esta e a última área de resistência ucraniana na região de Lugansk, que o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, diz estar quase totalmente sob controlo. "A libertação da República Popular de Lugansk está quase completa", afirmou. A independência desta república, assim como da vizinha República Popular de Lugansk, foi reconhecida por Putin dias antes da invasão da Ucrânia. Assumir o controlo do Donbass permitiria a Moscovo declarar a vitória, tendo estabelecido no mês passado que este era o seu objetivo.

Mas os ataques russos não se limitam a esta área. Ontem, Zelensky condenou a destruição de um centro cultural que tinha sido renovado em Lozova, na região de Kharkiv, junto a uma zona residencial. "Os ocupantes identificaram a cultura, a educação e a humanidade com os seus inimigos. E não poupam mísseis ou bombas", escreveu no Facebook, partilhando um vídeo do ataque, dizendo que sete pessoas morreram, incluindo uma criança de 11 anos.

susana.f.salvador@dn.pt

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