Nuno Tiago Pinto, diretor da Sábado, publicou há dias o livro "Rui Pinto: o hacker que abalou o mundo do futebol", que parte de uma investigação jornalística da revista em setembro de 2018, ao divulgar a identidade de Rui Pinto, e que é o resultado de cerca de quatro anos de investigação sobre o terramoto mediático causado pelo Football Leaks, através do cruzamento de milhares de documentos judiciais e audição de vítimas. Como o próprio diz, o caso vai muito além do futebol. No livro são ainda relatados factos do Luanda Leaks, que envolve Isabel dos Santos, e feitas revelações de novos processos que poderão surgir contra o hacker português que foi detido em Budapeste em janeiro de 2019.. A sentença de Rui Pinto no processo em que está a ser julgado será conhecida sexta-feira. De toda a investigação que fez, em artigos publicados na Sábado ao longo de anos, e agora neste livro, qual acha que será a decisão?.Há uma coisa clara, o próprio advogado do Rui Pinto disse que não fazia sentido pedir a absolvição, ou seja, a defesa dá como um dado adquirido que vai ser condenado. Não podia deixar de ser porque ele confessou a maioria dos crimes de que era acusado, em outros disse que não foi ele, que foi um amigo, mas isso transforma o crime em coautoria. Tal como não faz sentido pedir a absolvição. A dúvida é se será condenado a uma pena efetiva ou suspensa. E isso vai depender muito do entendimento do tribunal sobre se houve ou não uma tentativa de extorsão, que é o crime mais grave de todos..Refere-se à tentativa de extorsão a Nélio Lucas, da Doyen... Sim, a tentativa em que ele pede meio milhão e um milhão de euros em troca de parar de divulgar informação. Este é o crime mais grave, apesar de ser só um. Ele pediu uma quantia em dinheiro para parar de divulgar documentos da Doyen. Depois disse que era uma brincadeira para testar se os documentos eram verdadeiros, mas isso não faz sentido. Se ele os tirou dos servidores de origem, sabia que eram verdadeiros. Depois também há o período de tempo que a tentativa de extorsão demorou. No livro eu mostro emails e mensagens trocadas, encontros entre advogados, uma coisa que dura trinta e tal dias, onde o Rui Pinto até diz que pretende receber o dinheiro através de Malta para não pagar impostos. Não foi uma brincadeira. Os outros crimes também são muito graves, mas no nosso ordenamento jurídico não são assim tão graves, apesar de serem muitos..Citaçãocitacao"A dúvida é se será condenado a uma pena efetiva ou suspensa. E isso vai depender muito do entendimento do tribunal sobre se houve ou não uma tentativa de extorsão, que é o crime mais grave de todos".As opiniões divergem. Rui Pinto é afinal um herói ou um vilão? É uma boa questão. Há aqueles que acham que é um herói porque divulgou muita coisa importante, mas não ligam aos crimes que ele cometeu para obter a informação e os documentos. Depois há os que defendem que ele é um bandido porque roubou informação, e não olham para a parte das revelações importantes. Isso é o que torna toda esta história fascinante..Este livro é o resultado de quantos anos de investigação? Isto começa antes, mas o momento chave é quando a Sábado revela a identidade do Rui Pinto, em setembro de 2018..E como chegaram à identidade do Rui Pinto? Quando foi conhecida a acusação do processo E-toupeira, de um funcionário judicial que passava informações ao Paulo Gonçalves, do Benfica, nós recebemos uma dica de alguém que nos disse: "a pessoa que vocês procuram está nos apensos do E-toupeira". Fui consultar o processo. Além de estar a ver o processo E-toupeira, estava à procura de uma coisa muito específica, que acho que mais ninguém estava. E num determinado apenso estava a queixa original do Sporting, da Doyen e do Nélio Lucas, sobre o Football Leaks, que tinha um despacho manual de uma procuradora que dizia que estava identificado um suspeito cujo nome era Rui Pinto. A partir desta confirmação documental, decidimos avançar e publicar. Quatro meses depois, em janeiro, o Rui Pinto foi preso em Budapeste. Mas eles já sabiam há muitos anos onde é que ele estava..Porque demorou tanto tempo até à detenção se já sabiam onde ele estava? Há várias coisas que o explicam. Logo à partida uma falta de colaboração das autoridades húngaras, que acharam que aquilo não tinha muita importância. Conto no livro que a determinada altura houve uma tentativa de criar uma operação conjunta entre Portugal, Espanha e Hungria, porque o Rui Pinto também tem um processo em Espanha, relacionado com uma firma de advogados. Marcaram uma reunião na Europol e expuseram o caso. Mas o húngaro levantou problemas e disse que não tinham interesse nisto. Ou seja, uma operação que podia ter sido feita em 2015 ou 2016, morreu à nascença por falta de colaboração das autoridades húngaras. Depois se calhar surgiram outras prioridades e o caso arrastou-se..O Rui Pinto sabia que estava a ser investigado mas continuava a divulgar documentos, dava a sensação que achava que era impune... Ele próprio o admite, achava que tecnicamente a polícia não conseguia chegar a ele, porque utilizava várias ferramentas de anonimização na internet, e é verdade que tornam difícil a identificação. O Rui Pinto não era no início um génio da informática. Foi aprendendo à medida que o tempo foi passando. O processo das Ilhas Caimão [anterior ao Football Leaks] mostra erros de principiante. Ele tirou dinheiro de uma conta e transferiu para a sua própria conta. Parece uma coisa quase infantil. Depois o IP para entrar no Sporting e em Espanha era da casa dele. Não houve qualquer tipo de cuidado. Mais tarde sim, começou a utilizar os chamados phishing, emails fraudulentos. Pensamos às vezes nos hackers um pouco em termos cinematográficos, um tipo que está isolado numa cave, cheio de computadores, a entrar em sistemas informáticos. O que Rui Pinto fazia era mais simples: aproveitava-se das fragilidades das pessoas, do utilizador. Não era dos sistemas. Muitas vezes os acessos não deixavam rasto de ataques informáticos. No Sporting, por exemplo, adivinhou as passwords, que eram muito fáceis, tipo SCP12345..Citaçãocitacao"O Rui Pinto não era no início um génio da informática. Foi aprendendo à medida que o tempo foi passando".A determinada altura, em março de 2018, a procuradora Joana Marques Vidal criou uma equipa especial para investigar casos relacionados com o futebol. E a partir daí parece que a investigação acelerou, concorda? Sim, teve um papel muito importante na dinamização de um determinado número de processos de crimes ligados ao futebol, sendo o Football Leaks o mais visível de todos. As escutas começaram a ser transcritas, outras coisas a andar. Mas é mais depois da publicação da notícia da Sábado que as coisas aceleram..No seu entender, quem saiu mais prejudicado com as revelações feitas a partir dos documentos obtidos pelo Rui Pinto? Claramente a Isabel dos Santos. Isto vai muito além do futebol. Percebemos pelo material que foi encontrado dentro dos dispositivos do Rui Pinto que houve intrusões no Ministério Público, na Procuradoria Geral da República, Autoridade Tributária, tentativas de phishing ao Governo, inclusivamente ao primeiro-ministro, ao ministro dos Negócios Estrangeiros, da Defesa, ataques ao Estado, a escritórios de advogados. A ideia era fazer uma espécie de pesca de arrasto para ver o que ali havia. Os escritórios de advogados lidam com muitas empresas, muitas pessoas, com contratos, escrituras, heranças. O universo empresarial de Isabel dos Santos foi muito visado e o caso dela foi provavelmente o que teve mais consequências. Quando se divulga, por exemplo o contrato do Jorge Jesus, OK, ficamos a saber quanto ganha. A maior parte dos documentos ligados ao futebol eram entre duas partes que decidem livremente entre si fazer um contrato. Obviamente que há curiosidade. Mas não passa disso, não revelam crimes. Há de facto coisas importantes que foram reveladas e outras que satisfazem a curiosidade. Por exemplo, é giro sabermos que o Real Madrid mentiu ao não divulgar os números reais da transferência do Gareth Bale para não ferir os sentimentos do Cristiano Ronaldo..À medida que ia investigando, aumentou as suas preocupações relativamente a proteger-se de algum ataque ou intrusão? Sempre fui cauteloso com as comunicações, mas claramente que passei a ser mais, comecei a perceber a nossa grande fragilidade. Falava com algumas pessoas e apercebi-me que este tipo de intrusões é muito fácil. Comecei a ter mais cuidados nas passwords, por exemplo..Citaçãocitacao"Houve intrusões no Ministério Público, na Procuradoria Geral da República, Autoridade Tributária, tentativas de phishing ao Governo, inclusivamente ao primeiro-ministro".Alguma vez falou pessoalmente com o Rui Pinto? Não, nunca. Na altura quando divulgámos a identidade dele, tentei um contacto. Mas não obtive resposta. Depois quando estava a escrever o livro contactei centenas de vítimas, nacionais e internacionais, e tentei falar com os advogados dele, mas disseram-me que não iam falar com ninguém até o julgamento estar terminado. Mas também aqui não há garantias, porque há outro processo a correr contra o Rui Pinto onde é suspeito de muitos outros crimes graves e pode ser bem mais complicado..Quem envolve e porquê mais complicado? Em termos de intrusões informáticas, se forem ver a dimensão... repare, neste processo que está a ser julgado temos como queixosos o Sporting, a Doyen e o Nélio Lucas, a PMLJ (sociedade de advogados), a Federação Portuguesa de Futebol e uma parte da Procuradoria Geral da República. Ele disse que tentou entrar na PGR para tentar descobrir as fontes da Sábado. Mas não conseguiu. Neste novo processo, se formos ver as potenciais vítimas que foram identificadas nos dispositivos, o universo é muito maior. Excluindo as internacionais, as vítimas nacionais são mais de 600. São dezenas de pessoas do Benfica, algumas pessoas do FC Porto, inclusivamente a ex-mulher e a filha de Pinto da Costa, depois há magistrados do Ministério Público, juízes, funcionários judiciais, Autoridade Tributária, uma série de escritórios de advogados que não a PMLJ, as empresas de Isabel dos Santos. São muitas entidades e pessoas que podem vir a ser chamadas a este novo processo, o que pode tornar isto muito maior em termos de crimes informáticos. Nestes casos, porém, não parece existir qualquer tipo de tentativa de extorsão, pelo menos ninguém falou nisso. Depois há os crimes internacionais, em França, na Alemanha, Qatar, EUA, por aí fora..Fica a dúvida em quem lê o livro se é contra ou a favor de Rui Pinto... Digo que não é contra nem a favor, é um relato desapaixonado, objetivo e sobretudo assente em factos, para que quem leia tire as suas conclusões sobre se Rui Pinto é um herói ou um vilão. Esforcei-me por não fazer juízos de valor, os factos são estes, as minhas conclusões e dúvidas são estas, agora os leitores decidem. Hoje em dia parece que temos de ser muito a favor ou muito contra. Mas não. Não é contra nem a favor de ninguém. É apenas um retrato o mais objetivo possível sobre o caso.