Como se tivéssemos os três relógios sincronizados (e temos, de facto, porque a tecnologia não admite desfasamentos, mas não é disso que estou a falar), chegamos todos ao mesmo tempo ao terraço do Centro Cultural de Belém - o entrevistado, o fotógrafo, a jornalista. Rui Lopes Graça, 50 anos, três filhos, conta sem hesitar a história de uma vida que não lhe dá tréguas. Ele próprio parece não dar tréguas à vida, de tão seguro que é. De tão pensado que está o que passou e de tão preparado para o que pode acontecer. Conta a a infância no Norte de Moçambique, a simplicidade desses anos de viver em horizontes largos e com o mínimo, com o que se apanhava ou cultivava - caça, pesca, os produtos da horta. E os profundos desgostos que tanto o marcaram, o ano sofrido longe dos pais e o regresso a Portugal, com a morte do irmão mais novo tão presente. O espanto de ver tanta gente branca, tantas casas, de a carne ter um sabor a gordura que no mato não existia, a televisão descoberta na pensão em Torres Novas. O trabalho duro no Porto, antes do horário das aulas. E o dia em que, sentado pela primeira vez numa sala de espetáculos, o Teatro Carlos Alberto, viu no palco o maravilhoso José Grave com o Ballet Gulbenkian. Tinha 19 anos, nunca tinha dançado, e era aquilo que queria fazer. Foi isso mesmo que fez, e passou naturalmente à coreografia. Canto Luso, Gold, Paisagens Propícias, Tempestades, são algumas das criações que assinou. Mas não apenas em Portugal, porque há muitos países onde deixou sementes que vão dando frutos..Veio de Moçambique para Portugal quando era pequeno. Como é que a família foi lá parar?.O meu pai foi para Lourenço Marques como militar nos anos 1950. Renovava as comissões de serviço e ficou seis anos na tropa, porque não queria voltar. Quando não era possível mais, foi para o Norte, e começou a trabalhar em algodão, a andar entre as populações a convencê-las de que valia a pena cultivar algodão. Ensinava a cultivar, acompanhava o cultivo, a apanha e depois a despachar aquilo, nos camiões. Tenho esta imagem de infância, aqueles grandes camiões carregados de algodão. Todos os anos era assim..Em que zona do Norte de Moçambique?.Namapa, entre Nampula e Pemba, a antiga Porto Amélia. A minha mãe era filha de um senhor de Távora, na Régua, que tinha ido sozinho para lá bastante tempo antes e depois chamou a família. Era dono de uma daquelas coisas que havia nos sítios pequenos e incluía tudo, desde a bomba de gasolina à padaria, mercearia, restaurante. O meu pai começou a frequentar o café e conheceu a minha mãe. Casaram-se e vieram a Portugal, a Torres Novas, porque o meu avô, o pai do meu pai, estava muito doente. E foi então que eu nasci, em 1964. A minha mãe não conseguia engravidar mas quando vieram para cá ficou grávida..Eram os ares do rio Almonda....Era o Almonda, que na altura não cheirava mal. Mergulhava-se, havia concursos de pesca. Agora já está a ficar melhor. Ainda conheci o meu avô mas depois ele morreu, e fomos para Moçambique..A família do seu pai, portanto, era de Torres Novas?.De Torres Novas, sim. Um dos meus tios era muito conhecido, foi do PC a vida toda, o António Graça. Esteve nove anos preso em Peniche. Onde o meu pai ia, tinha sempre a PIDE atrás dele. Aliás, quando chegámos a Moçambique, ao desembarcar - ele conta-me, eu não me lembro - tinha dois inspetores da PIDE à espera, a dar-lhe as boas--vindas. Era mesmo assim. Mas ele queria estar longe disso e queria estar naquele sítio. Fomos de barco. Passámos por Luanda, tenho fotografias na baía. Lembro-me... quer dizer, há coisas que não sei se me lembro ou se é por ver as fotografias tantas vezes. Há fotografias que nos acompanham desde a infância e vamos criando uma memória que se confunde com o real. Fomos outra vez para Namapa..Notou a mudança ou era muito pequeno?.Não tenho noção disso, mas tenho uma excelente memória desse tempo. Mais para a frente, a excelente memória transformou-se numa coisa não tão boa porque o meu pai era destacado para sítios indescritíveis. Vivíamos a duzentos e tal quilómetros do hospital mais próximo, isolados no meio do mato. Houve uma altura em que ele foi para uma povoação chamada Meloco, perto de Montepuez, e não havia escola. A solução que encontraram, para eu estar na escola, foi ficar em casa dos meus tios, em Namapa. Consigo identificar uma dor que me atravessou porque tinha 6 anos e isso é inexplicável, o "é melhor, para ti, ires para a escola". A minha mãe hoje diz que, sem eu nunca lhe ter dito nada, se soubesse preferiria que eu não soubesse ler nem escrever mas que nunca sentisse a ausência deles..E esteve assim muito tempo?.Foi cerca de um ano. Mas foi uma coisa que me marcou. Entretanto, o meu pai foi transferido para mais próximo e reunimo-nos outra vez. Depois, o meu irmão nasceu, um gémeo de outro que faleceu 24 horas depois. As condições eram péssimas. Não sei como é que as pessoas nasciam e viviam, porque aquilo era mesmo no meio do mato e quem tinha mais jeito é que tratava. O meu avô é que ajudou a minha avó a ter os filhos, sozinho. Não havia enfermeiro, nada..Mas isso foi muito antes. E quando lá esteve, nos anos 1960?.Havia um enfermeiro de Cabo Verde, o senhor Tavares. Foi ele que fez o parto à minha mãe em 1971 mas não correu bem. Eram dois gémeos, um deles faleceu logo. Quatro anos depois, em janeiro de 1975, uma semana antes de virmos embora, íamos despachar as coisas a Nacala, mas na estrada tivemos um acidente e o meu irmão morreu. Os meus pais ficaram todos partidos, tiveram de ter hospitalização. Só depois pudemos vir. Os meus pais perderam tudo o que tinham, em termos materiais, e até o filho que nasceu lá perderam naquela altura. Não consigo imaginar o que é que foi para eles virem embora em janeiro de 1975. É uma coisa absolutamente inexplicável..Como é que se sobrevive a essa perda enorme, não é?.Quando falo com a minha mãe, é incrível como ela deu a volta, é uma coisa impressionante. Tenho uma grande admiração por ela pela forma como ela conseguiu encaixar isso no sítio e vive com isso bem. Sem um sentimento de culpa, porque, ainda por cima, era ela que ia a conduzir. Durante muitos anos, ela sentiu isso., mas agora está bem. Foi brutal..Ao longo de todo o tempo que esteve em Moçambique, havia guerra. Sentia isso?.Sabia que existia mas o conflito era um pouco mais a norte, na região de Mueda. Era terrível, porque o grande problema eram as minas. Iam famílias inteiras dentro dos carros e, de repente, morria toda a gente ou ficava só um miúdo. Na minha zona, que era a zona do Eráti, não havia nada. Mas havia sempre um receio de que pudesse acontecer. Lembro-me dessa coisa constante: podia acontecer um problema..Não havia militares?.Havia um quartel mas não era uma zona de intervenção militar, era de passagem. Víamos as colunas de camiões verdes e eu e os outros miúdos íamos a correr por causa das rações de combate. Aquelas caixinhas de cartão, tudo arrumadinho... Era uma coisa de Natal. Não tínhamos falta de comida, ali, não tenho memória de os miúdos passarem fome. Toda a gente cultivava. A grande desgraça era a relação dos homens com a bebida. Tinham alambiques em casa e faziam aguardente a partir do caju. Podiam ficar dias e dias completamente enfrascados. As mulheres trabalhavam e os homens ficavam nisto..Como era a vida das crianças?.Os outros miúdos andavam descalços e eu fazia o mesmo. Ainda agora, em casa, ando sempre descalço, dentro e fora. Claro, tinha de pôr os sapatos para estar na escola e quando voltava para casa. Não tenho memória de ter amigos brancos, lá. Conheci dois ou três, ao longo desses anos todos mas viviam longe. Quando cheguei a Portugal isto era tudo muito estranho. Fazia-me muita confusão haver tanta gente branca. Quando fomos do aeroporto para Torres Novas quase não havia hiato entre as povoações. Havia sempre casas. Era um enigma: porque é que há tantas casas? Em África, anda-se mais de cem quilómetros só a ver mato. E durante um ano não consegui comer carne..Em Moçambique não comia carne?.Comia muita carne. Mas cá sabia-me a gordura. Eu andei a comer gazelas até... A carne que nós comíamos era a que o meu pai caçava. Numa altura ele deu a arma a um caçador e dava-lhe as balas. Era uma Mauser de cano curto, muito bonita. Ele caçava aqueles bois enormes, e para nós ficavam os lombos. Era o negócio dele, vendia tudo, incluindo a pele. E nós comíamos os lombinhos que ele nos mandava logo. Não havia o talho nem peixaria. Apanhávamos peixe no rio, ou então vinha um senhor uma vez por semana com uma carrinha frigorífica pequena e as pessoas compravam. Era assim que comíamos o peixe do mar. Todos tínhamos horta, sempre a produzir. Uma vez por mês íamos fazer o rancho, chamava-se assim, íamos a Nampula ou a Porto Amélia, comprar as coisas para o mês..Portanto, quando chegou cá, até a comida era diferente..Foi um choque. Só vi televisão quase aos 11 anos. Parecia um alien. Via-se no café, na pensão onde vivemos vários meses. O meu pai pediu um quarto a um amigo da escola, dono da pensão Adega Regional. Arranjou trabalho a distribuir mercearias num camião. Um primo da minha mãe tinha uma frutaria no Porto que queria trespassar, perguntou aos meus pais se queriam. Foi assim que fomos para o Porto. O meu pai morreu há nove anos mas a minha mãe ainda vive em Ermesinde..A frutaria evoluiu para outras coisas?.Ficaram com aquilo a vida toda. Eu levantava-me todos os dias às cinco da manhã com o meu pai, ia para o Bolhão comprar os legumes e depois para o Ferreira Borges, para a fruta. Comprava tudo, carregávamos o carro, vínhamos para a frutaria, descarregava o carro, arrumava tudo e depois ia para o liceu. E tudo isso até aos 19 anos. Até vir para Lisboa, para a dança..Como é que teve contacto com a dança?.Vivíamos numa casa ocupada, havia muitas casas grandes vazias e várias famílias juntaram-se e ocuparam aquela. Não havia casas para alugar, na época. Vivemos aí oito anos até que fomos despejados. Fomos dormir para a porta da Câmara do Porto, nós e os outros todos que foram despejados. Isso coincidiu com arranjarmos casa em Ermesinde. Mas fomos na mesma para a Câmara, porque era uma questão de solidariedade para com os que não tinham casa. Andava no Liceu Alexandre Herculano e a partir dos 16 anos, conheci um grupo de pessoas que se interessava pela leitura, por espetáculos, o que para mim era uma coisa... eu nunca tinha visto um espetáculo na vida..Ainda se lembra de qual foi o primeiro que viu?.O Ballet Gulbenkian, no Teatro Carlos Alberto..Isso foi mesmo certeiro..Foi. A peça chamava-se Hero, do coreógrafo Louis Falco [coreógrafo do filme Fame]. A primeira pessoa que vi no palco foi o José Grave. Já tinha visto na televisão aquelas mariquices com cabeleiras, bailados clássicos, e achava horrível. Mas quando vi aquele espetáculo, achei uma coisa do outro mundo e decidi que queria fazer aquilo. "Eu tenho de fazer isto!" Meti-me lá no Balleteatro, que é agora uma escola muito conhecida. Eles pediram um apoio à Gulbenkian, o Jorge Salavisa [então diretor do Ballet Gulbenkian] foi ver e propôs dar uma bolsa de estudo a mim e ao Albino Moura, que trabalha em Viseu com o Paulo Ribeiro desde a fundação da companhia, em Viseu..O seu corpo estava preparado para a dança?.Fazia ginástica, artes marciais, estava muito atlético, tinha treino físico. Mas não era dança. Foi preciso reaprender tudo a uma velocidade muito rápida. Fiquei um ano na Gulbenkian e depois meti na cabeça que era importante dançar clássico durante uns tempos, para dominar a técnica clássica. Não sei de onde é que me veio a ideia. Hoje não acho isso nada importante..Não é bom ter formação clássica?.O treino clássico é fabuloso, é maravilhoso, se calhar é o melhor treino que existe. Não tenho a certeza. Constrói muito bem a noção, a ideia de corpo. Mas é muito perigoso, depende de quem ensina. Não é só o clássico, é qualquer técnica. As técnicas acabam sempre por aprisionar as pessoas a modelos e isso pode tirar-lhes a capacidade de ver fora daquilo. É como o conhecimento. As pessoas podem escudar-se no conhecimento de tal forma que perdem o sentido prático de viver. Porque o conhecimento é passado. Para o que vai acontecer daqui a bocadinho, o conhecimento pode ajudar-me mas tenho de pôr mais qualquer coisa de mim, para criar novo conhecimento, senão a coisa não anda. Já foi, já serviu, agora não serve..Como chegou então à formação clássica?.Fui a uma audição na Companhia Nacional de Bailado e o Armando Jorge escolheu-me. Éramos mais de cem, ele escolheu seis e disse: "Para serem profissionais e entrarem para a Companhia, têm de trabalhar todos os dias. Agora são pré--profissionais". Eu tinha começado a fazer dança há um ano! Entrava na Companhia às nove da manhã e saía às nove da noite, todos os dias, durante anos. Passado um ano tinha contrato de estagiário, depois fui para o corpo de baile, para corifeu, finalmente para solista. Quando o Jorge Salavisa saiu do Ballet Gulbenkian e foi para a Companhia Nacional de Bailado, começou a desafiar-me para participar num workshop de estudo coreográfico. Acabei por fazer, ele comprou a peça para o repertório da Companhia e encomendou-me logo outra..Qual foi a primeira peça?.Chamava-se De Sete, era feita com percussão indiana e tinha que ver com a métrica da música. E depois, com outros dois, foi o Canto Luso, que estreou no CCB em 1997, para a qual o Rui Vieira Nery fez a compilação da música. Ab riu-se uma outra dimensão na minha vida. Comecei a fazer coisas fora da Companhia e é assim, até hoje..Há uma peça sua que me parece muito marcante, Paisagens Propícias. Foi o regresso a África?.Eu tinha regressado a África antes. Regressei a Moçambique, comecei a ter vontade de voltar. E descobri uma sensação tão estranha que não sabia que tinha, a clara e nítida sensação de pertença. Não tenho em mais nenhum sítio. Em Lisboa tenho um bocado. Mas no Norte de Moçambique, e mesmo em Maputo, tenho a sensação de pertença. "Cheguei a casa." Vou na rua já estou a falar com toda a gente. A minha primeira língua é o português mas falava mais o macua, que é a língua do Norte, porque passava mais tempo com as pessoas locais. Há uma forma de pensar, de abreviar e de dizer por poucas palavras a que eu me habituei desde a infância. Fiquei com um desejo enorme de ir lá trabalhar. Tinha conhecido cá um senhor chamado David Abílio, diretor da Companhia Nacional de Canto e Dança. E ele começou a tratar-me por moçambicano. Para ele eu não nasci nada cá, eu nasci lá. E um dia ele disse: "A companhia é tua. Vens quando quiseres e fazemos um espetáculo. Não temos dinheiro, mas o resto temos tudo." Falei com a OPART, que se interessou pelo projeto e proporcionou que avançasse. A Luísa Taveira, no ano em que começou a ser diretora da Companhia Nacional de Bailado, foi a grande impulsionadora deste projeto chamado Gold. O [compositor] João Lucas e eu fomos para Maputo, trabalhar com a Companhia Nacional de Canto e Dança e fizemos uma peça. Estreámos também cá, no Teatro Camões, em 2011. Foi uma experiência maravilhosa..Esses bailarinos tinham formação em dança contemporânea?.Eles vêm da dança tradicional. O David Abílio começou há muito a convidar professores de dança contemporânea e coreógrafos. O movimento da dança, em Moçambique, é muito fértil porque há muitos freelancers e fazem coisas muito interessantes. Têm lá um festival fantástico, o Kinani, de dois em dois anos, com imensa dança de muita qualidade..Há diferença entre a maneira como os corpos se movem na dança em diferentes culturas?.Sim, as pessoas mexem de forma diferente. Senti muito, quando estive em São Tomé, onde não há escola nenhuma, que é tudo de rua. A dança não é vista como algo que se vai para um palco representar. A ideia de ir para um palco dançar vem da Europa. Ali a dança faz parte do dia-a-dia. As pessoas estão aqui a conversar e há alguém que está a mexer-se. A maneira como as pessoas se mexem também é reflexo da maneira como pensam. É uma questão de mentalidade, de forma de estar na vida. Não é tanto por eles se mexerem diferente, é mais por eles pensarem diferente. Enquanto europeu, não posso ter a arrogância de pensar que vou ensinar as pessoas, que vou ensinar uma coreografia. Isto é um choque na relação com África, os europeus quererem ensinar técnicas. É quase colonizar de outra maneira. A relação deles com o gesto é muito mais antiga do que a nossa..Aprende mesmo com eles ou é uma forma de dizer?.Aprendo na forma como surge o gesto, a ausência do intelecto para impor uma forma e como a coisa acontece. Por exemplo, eu faço muita pesquisa antes de ir para o estúdio, mas depois nunca mais me lembro daquilo. Não vou para o estúdio com os livros e as notas atrás. Está algures e há de surgir, de alguma maneira, não é preciso pensar. E assim tiro o peso do ato criativo, é muito espontâneo. Coreografar numa companhia europeia pode tornar-se uma coisa pesada. E ali é muito leve..E a experiência de Angola foi idêntica?.Fui convidado pela Ana Clara Guerra Marques, que tem um projeto fabuloso, a Companhia de Dança Contemporânea de Angola. É uma resistente, porque ela não tem condições, não tem apoio mas arranja dinheiro, paga salários. É uma companhia profissional com horário de trabalho, é impressionante! E ela propôs-me fazer um trabalho a partir da vida e obra do Ruy Duarte de Carvalho..Como é que correu?.Também correu muito bem mas com os constrangimentos de fazer uma criação em Luanda. Nunca me tinha acontecido estar num sítio e não me sentir tranquilo e livre. O período de pesquisa, no Namibe, foi extraordinário. Fui com o João Lucas, também. Ele foi gravar muita coisa, depois partiu para Brasília, onde vive, e fez lá a composição. Todos os dias falávamos via Skype. Ele enviava-me o que fazia, eu usava, pedia-lhe alterações. Fiquei um mês e meio em Luanda, a fazer a peça. O trabalho com a companhia - são sete homens - foi extraordinário, são de uma dedicação fabulosa. Mas não me sentia realmente à vontade, como em Moçambique. É uma cidade muito tensa, muito poluída. É possível trabalhar mas tem de passar muito tempo para as arestas serem polidas, para se tornar uma cidade em que as pessoas estejam relaxadamente..E tem também trabalho na Noruega e em São Tomé, dois sítios completamente diferentes. Como é que isto aconteceu?.São Tomé surgiu porque queria encontrar um sítio onde não houvesse mesmo escola e de expressão portuguesa. Contactei um homem que é um empreendedor lá, o João Carlos Silva..Que tinha o programa Na Roça com os Tachos?.Sim. Ele tem o Espaço CACAU [Casa das Artes, Criação, Ambiente e Utopias], uma coisa muito bonita e com muitas iniciativas na área da cultura. Propôs-me que fosse uma semana para ver o que podia fazer. É um embrião de desenvolver um projeto de dança que pode passar por formação e criação. Há um ano e pouco que ando a tentar criar as condições para isso acontecer e acredito que está próximo..Como apareceu a Noruega?.Há uns anos, o Departamento de Dança da Universidade de Stavanger pediu à Escola Superior de Dança referências de coreógrafos portugueses. Enviaram vários nomes e eu tive a sorte de ser escolhido. Coreografei para os alunos do último ano da licenciatura e correu muito bem. Todos os anos me convidam, às vezes mais do que uma vez, para trabalhar com os alunos. Os alunos estão a acabar o curso e a passar para a vida profissional. Esse estado mental agrada-me muito. É onde eu gosto mais de trabalhar..Porquê?.Porque há um espírito de procura e uma recetividade e uma disponibilidade difíceis de encontrar. Sinto que estou a transmitir alguma coisa da minha forma de ver. Eu não gosto que as pessoas pensem como eu. Tenho sempre o cuidado de dizer que não podem abraçar o que digo como se fosse uma verdade única. Há muitas formas de ver a dança e de conceber peças e todas têm o seu lugar. Não devemos aparecer como gurus e manipuladores do gosto, prefiro dar-lhes ferramentas para poderem escolher e desenvolver o gosto..Algum dos seus três filhos dança?.A Inês e a Leonor [12 e 9 anos] estão muito ligadas ao espetáculo. Cantam, fazem espetáculos lá em casa, fazem luzes, põem música, fazem um guião... O Salvador só tem 3 anos. Pode acontecer alguma coisa. Mas não tem de ser de dança ou de teatro. Têm bicho de palco, a Inês canta muito bem, a Leonor gosta de representar. Mas não tenho pressa. O que interessa é estarem em forma, proporcionar-lhes espetáculos, leitura. Temos um contrato: tem de haver um tempo equivalente de leitura e de tecnologias. A Inês devora livros, é fácil para ela. Mas para a Leonor preciso de fazer isso..A sensação do palco dá prazer?.É única, não há palavras para descrever. A perda da noção de tempo e de espaço existe. Ou a ausência da dor. Sai da dimensão em que vivemos. A adrenalina, o desafio de conseguir fazer uma coreografia, coisas dificílimas, conseguir incorporar isso e ir para o palco sem pensar. É uma coisa exterior. Dancei muitas coisas que não foram coreografadas para mim e tive de as aprender. Como é que aquilo se torna vida? Se não houver uma partilha de pedaços de vida, é uma soma de movimentos. É muito bonito mas não entra no coração das pessoas. Por isso há alguns que estão parados no palco e nos furam de um lado ao outro, e há outros que por muitos brilharetes que façam não nos tocam..Quando vê uma coreografia sua, fica tudo descentrado?.É e emociona-me imenso. Não é pela coisa, em si, não é pela coreografia, porque a partir de certa altura distancio-me. É por causa das pessoas que o fazem, que estão a partilhar a vida delas comigo através do que eu lhes sugeri. Não interessa se é bom. A pessoa está a dar-me o tempo de palco em que fez a minha coreografia, está a viver aquilo que vem de mim. É uma dádiva. Apoderam-se daquele gesto e tornam-no delas, parece que foram elas que o fizeram. Para mim, a criação é para servir as pessoas, não para inserir o malabarismo..E as palmas? A reação?.Isso é muito problemático. As pessoas batem muitas palmas e gritam em pé num espetáculo de mau gosto,e saem a meio num que para mim é muito bom. As palmas valem aquilo que são as pessoas que ali estão. A capacidade de escolha é cada vez menor, apesar de cada vez haver mais para escolher. A liberdade não é uma coisa escrita num documento, tenho de conquistá-la dentro da minha própria vida. A sede do poder, a sede do dinheiro, o marketing, são tão poderosos que as pessoas, achando-se livres, são prisioneiras. Liga-se a televisão e no horário nobre só passam novelas em todos os canais. Como é que o gosto fica condicionado? Que espetáculos as pessoas vão aplaudir? A televisão é uma arma que faz a cabeça das pessoas e pode distorcer a realidade, a forma como as pessoas se relacionam, a forma de falar, o respeito. Claro que se as pessoas gostam de um espetáculo é muito bom. Mas é preciso não ter ilusões. Em que medida este espetáculo pode tocar no coração e servir para alterar alguma coisa na forma de reagir, na sociedade em que vivemos?.Leia todas as entrevistas de Verão do DN.