Dos três filmes apresentados ontem - claramente o pior dia da Berlinale até agora - o menos mau foi Sehnsucht, de Valeska Grisebach, aproximação minimalista, lacónica e neutra ao quotidiano de pessoas comuns, numa pequena cidade alemã. .Logo na primeira cena, Markus (Andreas Mülller), serralheiro mecânico e bombeiro nas horas vagas, salva a vida de um homem envolvido num acidente de viação, do qual resulta a morte da mulher que o acompanhava. Mais tarde, Markus fica perturbado ao compreender que arruinou um plano suicida e comenta o romantismo daquele gesto com a namorada, Ella (Ilka Welz), que se apressa a recordar o destino trágico de Romeu e Julieta..É uma espécie de sinal. A história desses amantes absolutos pairará sobre o resto do filme, mas de uma forma nada shakespeareana. Zühlen não é Verona. Por isso esqueçam os Montescos e Capuletos, a complexidade dramática ou a retórica amorosa. As personagens de Grisebach estão no extremo oposto: são feias, banais, incapazes de comunicar. O mais que fazem é calarem-se, quando não se embebedam ou dançam, olhos fechados, ao som de Robbie Williams..Depois de acompanharmos as rotinas do casal e a sua dificuldade de lidar com o desejo, a acção só desperta da letargia quando Markus se apaixona por outra mulher, durante uma visita do seu quartel aos bombeiros da cidade mais próxima. A infidelidade torna-se então um fardo, mais psicológico do que moral. E depois de uma sequência que inverte ironicamente a famosa cena da varanda na tragédia de Shakespeare, a realizadora consegue, nos últimos minutos, in extremis, fazer uma pirueta que salva o filme. Quando Sehnsucht parecia encaminhar-se para mais um final desesperado e fatalista, Grisebach dá a volta ao desenlace óbvio com um diálogo sobre o caso, entre crianças sem grandes ilusões, que deixa tudo em aberto..Apesar de lhe faltar qualquer coisa, Sehnsucht alcança em certos momentos um fortíssimo efeito de realidade (talvez porque recorre a não-actores em estado bruto) e contém vários achados visuais, além de algumas soluções narrativas originais. O mesmo não se pode dizer do único representante italiano a competir este ano pelo Urso de Ouro..Assinado por Michele Placido, um cineasta mais conhecido do público como actor (foi o Comissário Cattani na série O Polvo), Romanzo Criminale não traz nada de novo a um género sugado até ao tutano: o filme sobre criminosos mafiosos que começam do nada, formam um império de actividades fora-da-lei, só para o verem ruir devido a traições, mortes a eito e vendettas de uma crueldade sempre crescente. .Centrado em três amigos - Fredo (Kim Rossi Stuart), Lebanese (Pierfrancesco Favino) e Dandy (Riccardo Scamarcio) - que começam por roubar um carro e depois fazem a escalada completa até ao topo do mundo do crime, Romanzo Criminale é tecnicamente perfeito mas tão previsível como uma série de TV. Além das duas mulheres estereotipadas que desestabilizam o gang - a inevitável prostituta (Anna Mouglalis) e a não menos inevitável "santa" (Jasmine Trinca) -, temos também o polícia obstinado (Stefano Accorsi) e uma série de acontecimentos marcantes da História italiana, do rapto de Aldo Moro ao atentado das Brigadas Vermelhas na estação de Bolonha, para compor um épico que nem por uma vez nos comove ou surpreende..Pior ainda, só mesmo Candy, do australiano Neil Armfield, a enésima descrição pormenorizada dos abismos da toxicodependência, com um patético Heath Ledger e um desaproveitadíssimo Geoffrey Rush. Como diria um jornalista brasileiro com quem me cruzo todos os dias no centro de imprensa, "esse filme é uma droga". Literalmente.