Rigor ou aplauso, o drama do folclore

Uma actividade que movimenta cerca  de cem mil pessoas, milhares de eventos anuais, mais de dois mil grupos e consegue cativar jovens para assegurar o futuro perde-se no desrespeito pelo passado. A forma desvirtuada como a maioria dos grupos (não) representa  os usos, costumes, trajes, danças e cantares coloca mais um complexo sobre  o folclore, já de si marcado por estigmas. O que marcou a actividade no Estado Novo, tendo servido de bandeira do 'Portugal bonito', ou o que deriva do olhar de quem vê de fora e o considera 'piroso'.
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0 mundo do folclore é antigo e preconceituoso. Visto dos dois lados: de fora, chega a ser "parolo ou piroso" (é desta forma prosaica que alguns membros de ranchos assumem a imagem que têm nos outros); de dentro, não é, ou nunca é, verdadeiramente autêntico - ou não o suficiente. Consoante as perspectivas (Federação do Folclore Português; Jornal do Folclore; grupos folclóricos), a esmagadora maioria dos ranchos folclóricos "não é representativa". Ou seja, não respeita as tradições e prefere o "aplausozinho sobre os 'tabuados' [palcos] mesmo que se exiba um relógio no pulso a representar uma comunidade com cem anos" - só se massificou a utilização na I Guerra Mundial. Atenção que só muda a quantidade: em uníssono, os agentes do folclore em Portugal gritam contra os tiros nos pés que se têm dado numa actividade que move perto de cem mil pessoas e se reflecte, mal ou bem, em mais de dois mil grupos - cerca de 600 nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo fora. E, por isso, lamentam que seja por dentro que se causam os maiores males e que venha de dentro alguma motivação para a pejorativa utilização da palavra folclórica - ou seja, o que designa vazio, sem sentido. E o folclore português é tudo menos vazio e sem sentido.

"É riquíssimo, cheio de sabedoria relacionada com as vivências das nossas vilas, aldeias e até de cidades", atesta Fernando Ferreira, presidente da Federação do Folclore Português (FFP). Mas, e há um grande mas: "A maior parte dos grupos não tem preocupação com a representação." A maior parte, portanto, não respeita as tradições. Acrescenta Manuel João Barbosa, proprietário e editor da única publicação dedicada ao tema (Jornal do Folclore - ver texto noutra página): "Há uma considerável percentagem que não desenvolve, como devia, um trabalho consentâneo com as suas realidades tradicionais culturais. Apenas 400 ou 500 são bons projectos, representativos; o resto inspira-se no folclore para fazer espectáculos, é a simples procura do aplauso."

No terreno, é incontornável que este assunto venha sempre ao de cima - e normalmente com o chavão "tanta aberração sobre estas questões na televisão, muito em especial agora nos ditos programas de Verão", como chegou a desabafar Manuel João Barbosa, a partir de Santarém, onde tem montada a pequena estrutura do Jornal do Folclore, que todos os meses relata a vida dos grupos, dos festivais, do mundo do folclore português dentro de fronteiras e em todos os pontos onde há ranchos lusos instalados (Alemanha, Andorra, Argentina, Austrália, Bélgica, Brasil, Canadá, EUA, França, Luxemburgo, Macau, Suíça, Venezuela).

Uma realidade de contrastes bem retratada, fisicamente, pela própria Federação do Folclore Português, na freguesia de Arcozelo, em Vila Nova de Gaia, onde está duplamente sediada. Em actividade, a FFP encontra-se numa pequena sala cedida por uma proprietária privada que envergonha o presidente Fernando Ferreira. É um local lúgubre, velho, decrépito, em péssimas condições de manutenção, onde duas funcionárias rivalizam no espaço com caixotes de memórias e recordações de 30 anos de actividade (a FFP foi fundada em 1977). A cerca de mil metros dali, fica a ensombrada nova sede - pomposamente designado de Centro Cultural do Folclore Português. Um edifício que já não é novo (obras arrancaram em 1986, mas nunca foram concluídas), mas que marca, em espaço, ambição e nobreza a diferença profunda para com a actual sede, a tal que Fernando Ferreira nem sequer gosta de mostrar. São as realidades paralelas do folclore: uma que envergonha porque não representa dignamente; outra que pretende ser rigorosa, mas enreda a si própria em contradições.

"Acho que a federação, actualmente, já não faz muito sentido. Foi importante para aglutinar os grupos e para indicar o caminho do rigor, mas agora está obsoleta", observa Alípio Canaverde, um dos fundadores e director do Grupo Folclórico das Abitureiras (localidade que fica sensivelmente dez quilómetros a norte de Santarém). "Era preciso uma estrutura que separasse o trigo do joio, os grupos que representam com rigor e os que preferem apenas o lado lúdico", junta.

Ou seja, uma actividade que bebe e preserva a história não consegue que a "maioria" ou que uma "considerável percentagem" dos grupos respeite o espírito do folclore - que é, grosso modo, e ao abrigo da definição da UNESCO, "uma cultura popular que representa a identidade social de uma comunidade através das suas criações culturais, colectivas ou individuais, e é também uma parte essencial da cultura de cada nação". Que é especificidade e unidade, ao mesmo tempo.

O busílis é, incontornavelmente, a luta entre representação autêntica e recriação pura - ninguém, no folclore, tem, objectivamente, nada contra a recreação, só não admite é que use o rótulo de folclore, porque, então, o arremessa para o canto oprimido do "folclórico" - vazio, sem sentido. Entrando no panorama português, e quantificando: "Há cerca de 650 grupos que são fiéis na representação. E desses há três universos. Cerca de 40% cumprem os objectivos da federação, a representação próxima da autenticidade, respeitando as tradições de cada comunidade; depois teremos uns 30% que estão a caminho e são bastantes aceitáveis e que precisam ainda de algum trabalho; e depois temos outros 30% que ainda estão muito longe e precisam de muito trabalho." Assume-o, com todas as letras, o presidente da FFP.

Manuel João Barbosa, do Jornal do Folclore, é ainda mais incisivo, ele que convive há muitos anos, e de muito perto, com o fenómeno. "Os grupos não realizaram, na sua formação, um obrigatório trabalho de pesquisa e de recolha dos factos folclóricos das zonas etnográficas onde se inserem, optando por criar as coreografias das danças e poetizar umas mal alinhavadas quadras, que fazem acompanhar umas rabiscadas melodias. Logo estarão arredados da representação folclórica. São por isso grupos recreativos", dispara sem contemplações e "em defesa do folclore".

E põe o dedo na ferida: a leviandade na formação dos grupos, que ignoram a pesquisa histórica e antropológica quando se decide criar um rancho folclórico. Porque é preciso recuar, como é prática e essência do folclore, para se poder chegar mais longe, a um presente que lembre com rigor o que fomos e como fomos. O folclore é, na génese, um género de cultura de origem popular que remonta sempre a uma época específica. Na representação, que é o que fazem os grupos folclóricos, vulgo ranchos, remonta por norma a finais do século XIX, princípios do século XX - é aí, e a cada região representada, que os ranchos têm de ir buscar os usos, costumes, cantos, danças, trajes. É o princípio sagrado de um grupo folclórico. Mas do qual resultam várias heresias, no olhar dos mais puros, ou conservadores - a história de preferir o "bonito" que gera aplauso certo, ao rigor histórico que exige pesquisa antropológica e histórica muito aprofundada. Traindo o espírito nascido da criação do termo folk+lore (povo+saber) em 1846 pelo arqueólogo Ambrose Merton (pseudónimo de William John Thoms) numa carta enviada à revista inglesa The Athenaeum. Ou defraudando os espíritos iluminados dos irmãos Grimm, que já antes, na Alemanha, se interessavam pelo tema, na altura, ainda por definir. Ou até de Mark Twain, um dos intelectuais americanos que em 1888 fundou a Sociedade do Folclore Americano.

Ou seja, o folclore divide-se por dentro, embora continue pujante e com a renovação assegurada. "Diria que 80% dos membros dos grupos de folclore são jovens com menos de trinta anos. E que chegam cientes da importância da fidelidade aos costumes para explicar as raízes do povo, quem somos e como aqui chegamos. "Explicar os nossos antepassados é importante para nos conhecermos", assente Carla Ribeiro, 31 anos e há quase 20 membro do Grupo Folclórico das Abitureiras, apontado como bom exemplo de associação que defende o rigor das tradições.

Felizmente para o folclore rigoroso, não é um caso isolado. "Regista-se o aparecimento nos últimos anos de sensatos projectos de retratação regional", explica Manuel João, que tem, no Jornal do Folclore, visto a actividade com uma lupa. "São grupos que agora arriscam um novo projecto, reciclando-se, pondo de parte uma forma desajustada de representação que os acompanhou desde a formação", concretiza.

Ou seja, cerca de sete décadas depois de António Ferro, responsável pela propaganda do Estado Novo, se ter servido dos ranchos folclóricos para mostrar um "bonito" mundo português, que mascarava o que de menos belo existia, o folclore continua às cabeçadas com estigmas. "Parece que António Ferro ainda está vivo", admite Fernando Ferreira, o presidente da FFP que gostava de poder actuar mais severamente sobre os grupos que desvirtuam o folclore e promovem as imagens deturpadas da actividade. "O objectivo principal é que os grupos se aproximem das vivências das comunidades que representam", diz. Mas para isso, por vezes, é preciso dispensar o aplauso e investir no rigor da tradição, que dá menos "palminhas".

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