Ricky: o homem golo do Boavista voltou ao Brasil como agente de jogadores

Antigo avançado nigeriano foi o artilheiro máximo da I Divisão em 1991-92. Ao DN recorda passagem pelo Benfica e José Mourinho
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Richard Daddy Owubokiri, mais conhecido no mundo do futebol como Ricky, nasceu na Nigéria e só deixou o país em idade adulta, mas foi com um perfeito português do Brasil que conversou ao telefone com o DN, a partir de Salvador da Bahia. Por lá brilhou no início da carreira de futebolista, na década de 1980, e é lá que vive desde que pendurou as botas.

"Sou agente de jogadores e cuido de um complexo de salas e lojas. A minha rotina é ir para o escritório e tratar das duas coisas. É muito tranquilo", começou por contar o antigo jogador de Benfica, Estrela da Amadora, Boavista e Belenenses, dando conta de que a nova vida "está a correr bem" e que esteve em Lisboa há cerca de duas semanas.

Quando decidiu deixar de marcar golos, Ricky começou por ser treinador, mas desistiu. "Para o meu perfil, é melhor estar sentado no escritório e falar sobre jogadores do que estar dentro do campo, onde já fiz tudo o que tinha a fazer", explicou, confessando sentir muitas saudades da relva e que se emociona quando assiste a jogos ao vivo.

Mentiu à mãe para emigrar

Para trás ficou uma carreira iniciada na Nigéria e que poderia ter sido bem diferente caso não se tivesse cruzado com o treinador brasileiro Luciano de Abreu. "Insistiu para eu ir para o Brasil e tive de enganar a minha mãe, dizendo-lhe que tinha ganho uma bolsa de estudo para ir para os Estados Unidos", revelou.

"Quando cheguei ao Rio de Janeiro, levaram-me para prestar testes ao América durante dez dias, mas o treinador pôs-me de parte passados 15 minutos do primeiro treino. Desatei a chorar. Um responsável do clube perguntou porque estava a chorar, e disse-lhe que estava triste porque tinha vindo de muito longe e só tinha treinado 15 minutos. E aí disseram-me que o treinador me tirou porque estava satisfeito e que não precisava de ver mais", narrou, puxando a cassete atrás, relativamente a um episódio ocorrido em 1983.

Pelo emblema carioca, o avançado africano apenas jogou durante um ano, captando o interesse dos baianos do Vitória, clube em que se tornou ídolo. "Fiz muitos golos, fui eleito um dos melhores desportistas do ano, fui várias vezes homenageado e considerado um dos melhores de sempre do clube e fiquei com uma boa relação com as pessoas. Ganhei amor ao Vitória e hoje tenho um projeto com o clube, para trazer jogadores africanos", recordou.

Seis golos num jogo pelo Benfica

Depois do Vitória, seguiram-se duas temporadas em França, ao serviço de Laval e Metz, e a transferência para o Benfica, em 1988. De águia ao peito, realizou seis jogos e apontou seis golos, todos no mesmo encontro, um triunfo por 14-1 sobre o Atlético Riachense, na Luz, para a Taça de Portugal. "Talvez seja um recorde. Porque não tive continuidade? Essa pergunta devia ser feita ao treinador, Toni, boa pessoa contra a qual nada tenho. Fiz o que tinha a fazer enquanto atleta", afirmou o antigo avançado, que ainda assim ganhou a admiração de... Eusébio. "Gostava de mim, incentivava-me e dizia para não baixar a cabeça e para esperar uma oportunidade. Mesmo contra o Riachense, não é comum alguém fazer seis golos. Podia ter sido mais feliz no Benfica", lamentou.

Na época seguinte, rumou ao Est. Amadora, onde venceu uma Taça de Portugal e conheceu José Mourinho, então preparador físico da equipa técnica de Manuel Fernandes. "Ele chegava perto de mim e dizia que ia ser um grande treinador: "Vais ver, Ricky." A forma como ele treinava já era diferenciada, e era muito curioso. Confirmou-se o que ele previu", contou o nigeriano, que nessa altura dava boleia ao colega Paulo Bento.

Os 29 golos em duas épocas na Reboleira valeram-lhe o salto para aquele que viria a tornar-se o clube do coração em Portugal, o Boavista. Logo na primeira época, em 1991--92, venceu a Taça de Portugal e foi o melhor marcador da I Divisão, com 30 remates certeiros. "Fui o último jogador do Boavista a ser contratado nessa época. Tínhamos uma grande equipa e grandes jogadores, que faziam a diferença, como João Pinto, Marlon Brandão, Bobó, Pedro Barny, Tavares e Samuel. O treinador, Manuel José, estava em grande forma, e tínhamos um grande presidente, Valentim Loureiro, um homem sério e leal. O Boavista foi o que foi graças a ele", atirou, acerca de uma equipa que também brilhava no balneário: "Quando cheguei, o Nelo e o Caetano eram os palhaços do balneário e estavam sempre a abrir os cacifos para roubar champô. Então tomei a iniciativa de dizer para virem buscar ao meu cacifo, durante toda a época. Era o champô do povo", recordou, nostálgico.

Depois, voltou ao Vitória, esteve no Belenenses durante um curto período e rumou finalmente ao futebol árabe, onde encerrou a carreira.

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