Revolução Copernicana

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O leitor já conhece aquilo de que eu, na hora a que escrevo, apenas suspeito. A maratona de cimeiras europeias acabou com resultados frágeis e inconclusivos, coerentes com a turbulência da sua preparação. A inevitável reestruturação da dívida pública grega, obrigando a um aumento de capital dos bancos, e o modelo de financiamento do FEEF ameaçam surtir efeitos contrários aos pretendidos. A primeira reacção das bolsas pode até ser positiva. Contudo, quando se perceber que a reestruturação da dívida pública grega aumentará a desconfiança dos credores em relação aos outros países intervencionados, quando se compreender que a recapitalização dos bancos não equivale ao aumento do escassíssimo crédito bancário à economia real, e que a transformação do FEEF numa espécie de agência que oferece garantias para a compra de dívida pública de Estados em dificuldades, pode soar aos ouvidos dos investidores mais experientes como uma medida demasiado parecida às que mascaram o rebentar da bolha do subprime de 2008... Nessa altura, poder ter começado o vertiginoso princípio do fim para a actual ordem europeia.

O directório franco-alemão, que hoje desgoverna a Europa, faz lembrar a polémica astronómica de onde irrompeu a ciência moderna. Os geocentristas dominantes, contra os heliocentristas emergentes, na linha de Copérnico. Os problemas práticos da astronomia, como a previsão dos eclipses ou a antecipação do movimento dos astros, resolviam-se mais comodamente usando o modelo de Copérnico. Contudo, os geocentristas, para manterem as suas posições de privilégio, continuavam a negar a realidade, inventando círculos excêntricos tortuosos, como os equantes e os epiciclos.

Se a Europa quiser evitar uma implosão, teremos de mudar de paradigma. Uma Revolução Copernicana na política europeia aconteceria apenas se, por exemplo, Mário Draghi tivesse coragem para seguir os conselhos de Martin Wolf, e o BCE emprestasse ilimitadamente aos bancos, considerando que proteger as vidas e a propriedade dos cidadãos europeus vale bem mais do que uma estabilidade de preços tornada ridícula numa altura em que se tem de escolher entre a vida e a morte. Em política europeia, a única alternativa copernicana ao geocentrismo do directório chama-se federalismo.

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