Ao nível do desenvolvimento curricular há uma "regra de ouro" que todos os países com um sistema educativo de qualidade seguem: realizar alterações de forma consolidada. Inexplicavelmente, o ministro da Educação e Ciência (MEC) ignora esta regra e dá-se ao luxo de investir dinheiro de todos nós numa nova alteração curricular, mesmo sem terminar um ciclo completo de implementação do Programa de Matemática do Ensino Básico (PMEB) e quando, pela primeira vez, os alunos portugueses começam a ter resultados muito positivos nos estudos comparativos internacionais. .A instabilidade ao nível das orientações curriculares é hoje a maior de que há memória. Em 2010, iniciou-se a generalização de um novo PMEB que vinha a ser preparada, desde 2006, com a formação de professores, a publicação de materiais curriculares coerentes com este programa, e com medidas de apoio ao trabalho nas escolas focadas nas novas orientações e incluídas numa vasta ação educativa, o Plano da Matemática. Ainda em 2010, saem as Metas de Aprendizagem, na sequência do programa, mas já não se chega a saber os resultados da sua experimentação! O MEC ignora-as e, em 2012, publica as Metas Curriculares e manda alterar os manuais escolares, apesar de estes terem sido aprovados por seis anos, levando à sua desatualização apenas passado um ano. Como se isto não bastasse, revoga agora o PMEB e avisa, em abril, que um novo programa irá sair para ser implementado em setembro. .Quando da publicação das Metas Curriculares, a Sociedade Portuguesa de Investigação em Educação Matemática (SPIEM), outras associações e pessoas, a título individual ou em grupo, alertaram para a incompatibilidade do programa com as Metas. O MEC clamou o pouco acerto de tal observação e garantiu que não havia qualquer incompatibilidade. Afinal, passados menos de seis meses, a não adequação das Metas ao programa justifica a decisão de o revogar! Acrescenta outros argumentos falsos ou totalmente infundados: a falta de liberdade dos professores face às recomendações metodológicas do PMEB chega a ser irónica dado o forte cunho prescritivo evidente nos documentos de orientação para a aplicação das Metas; o evocado sucesso da aplicação das Metas nas escolas é totalmente desconhecido mesmo por aqueles que nelas trabalham; e quanto ao rigor na aprendizagem, nem se sabe ao que se refere. .Um programa com as Metas Curriculares como ponto de partida corresponde a um retrocesso de décadas e a um péssimo serviço ao País. São reintroduzidos conteúdos matemáticos reconhecidos como desadequados ao grupo etário dos alunos a que se propõem por todos os países da Europa, EUA e Canadá, desde a década de 70 do séc. XX; ignoram-se conteúdos fundamentais na atual sociedade, como o cálculo mental; antecipa-se o formalismo matemático, tal como acontecia até aos anos 60; privilegia-se o domínio de técnicas em completo detrimento da compreensão matemática..A direção da SPIEM alerta para as consequências nefastas que estas medidas acarretam para as aprendizagens matemáticas dos alunos portugueses. Não se consolida o trabalho desenvolvido e que começou a dar frutos. Opta-se por fazer tábua rasa do que de bom já foi feito. Desperdiça-se todo o investimento anterior. Para quê? Porquê? Poderão existir muitos motivos para esta decisão. Mas nenhum deles poderá ser o de querer que os alunos portugueses desenvolvam conhecimentos matemáticos sólidos e adequados aos nossos dias e continuem a evoluir nas suas aprendizagens matemáticas! .* Com Ana Paula Canavarro (Departamento de Pedagogia e Educação, Universidade de Évora), Joana Brocardo (Escola Superior de Educação, Instituto Politécnico de Setúbal), António Domingos (Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Nova de Lisboa) e Rosa Antónia Ferreira (Faculdade de Ciências, Universidade do Porto).